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São Paulo

Investigado por fraude contábil, Digimais declarou liquidez de R$ 2 bilhões

Quantia era descrita na demonstração de banco de Edir Macedo como valores em "caixa e equivalentes de caixa". PF apontou risco de liquidação

25/06/2026 02:15
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Arte/Metrópoles
Edir Macedo arte Digimais - Metrópoles

Alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) por suspeita de fraudar demonstrações financeiras, o banco Digimais declarou em seu último balanço de 2025 ter R$ 2,1 bilhões de liquidez, entre valores em caixa e investimentos de liquidez imediata, que poderiam ser resgatados a qualquer momento.

De acordo com as investigações, a instituição financeira enfrentava, na verdade, uma crise de insuficiência de recursos financeiros disponíveis e corria o risco de ser liquidada pelo Banco Central (BC).

“A diretoria do Banco Digimais replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado, efetuando manipulações nos balanços com o objetivo de ocultar dos órgãos de controle a deterioração da sua carteira de crédito”, disse a Polícia Federal (PF) na representação que deu origem à operação Miragem, deflagrada na última terça-feira (24/6).

Na ocasião, policiais cumpriram nove mandados de busca e apreensão contra alvos ligados ao Digimais. O dono do banco, bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, não foi um deles por residir no exterior, mas teve a quebra de sigilo e o bloqueio de bens decretados pela Justiça. Ao todo, foram bloqueados mais de R$ 670 milhões de 10 dos investigados.

O balanço apresentado pelo Digimais referente ao segundo semestre de 2025 aponta que o banco teria entrado em julho do ano passado com R$ 2,8 bilhões em “caixa e equivalentes de caixa”. Seis meses depois, em 31 de dezembro do ano passado, o valor teria diminuído para R$ 2,1 bilhões.

A quantia não é detalhada na demonstração financeira. Apenas há menção a aplicações de liquidez imediata, que seriam equivalentes a R$ 2 bilhões, e a operações compromissadas, estimadas em R$ 127 milhões.

Além dos recursos financeiros disponíveis, o balanço indica que o Digimais teria R$ 4,2 bilhões em títulos e valores mobiliários e uma carteira de crédito de R$ 1,89 bilhão.

Demonstração financeira do Banco Digimais
Demonstração financeira do Banco Digimais

Uma auditoria independente realizada antes da operação da Polícia Federal sobre o balanço do segundo semestre do Banco Digimais não apontou problema de liquidez, insuficiência de caixa, incapacidade de honrar obrigações ou incerteza relevante de continuidade operacional.

Problemas desde 2023

Segundo a Polícia Federal, o BC investigava irregularidades no Digimais pelo menos desde 2023. Em fevereiro daquele ano, o banco começou a adquirir precatórios pelo fundo ID112, que comprou créditos originados de uma ação de indenização ajuizada no ano de 1967 por herdeiros da Família Villela em face da União, por R$ 9 milhões. Em seguida, isso foi transferido para o fundo Guidare, e o crédito foi reavaliado para R$ 100 milhões.

Ao longo do ano, mais precatórios originados da mesma ação foram comprados pelo Digimais em junho e setembro por R$ 42 milhões, e reavaliados em R$ 304 milhões. Segundo a PF, as operações “elevaram o registro de patrimônio do fundo para o patamar de R$ 741.348.945,70, muito embora o custo de aquisição dos ativos perfizesse a soma de apenas R$ 71.000.000,00”.

O BC apontou infração do banco ao reavaliar o patrimônio, bem como determinou a reversão para o valor original de compra. Apesar disso, o Digimais vendeu suas cotas para sua controladora indireta, a B.A. Empreendimentos, com previsão de pagamento estipulada para o ano de 2032 e com a reversão das provisões que haviam sido determinadas pelo regulador.

As suspeitas chegaram a ser apontadas na auditoria independente sobre o balanço da instituição e também em auditoria sobre o balanço da própria B.A. Empreendimentos. A empresa viu seus ativos passarem de R$ 785 milhões, em 2024, para cerca R$ 1,8 bilhão, em 2025, majoritariamente graças a uma operação suspeita, realizada no apagar das luzes de 2025.

Em sua análise, os auditores afirmam que a compra do fundo “não reflete condições usuais de mercado”, pois não possui remuneração condizente, e o pagamento depende de aportes dos próprios controladores. Na prática, isso indicaria que os ativos da empresa teriam sido inflados artificialmente.

Método Master

Na representação que deu origem à operação Miragem, a PF afirmou que o Digimais adotou o modus operandi do Banco Master, investigado por fraudes bilionárias contra o sistema financeiro. Segundo o documento, a instituição de Daniel Vorcaro contagiou o mercado, funcionou como paradigma para outras instituições financeiras e resume o “modus operandi atualmente sob investigação no Banco Digimais”.

A Polícia Federal cita também outros pontos de convergência entre o Digimais e o Master. O documento lembra que, em janeiro de 2025, o ex-sócio e executivo do Banco Master, Maurício Antonio Quadrado, tentou adquirir o Banco Digimais por meio da holding Bluebank. A operação, no entanto, foi vetada pelo Banco Central devido aos riscos associados.

Além disso, o Digimais alocou cerca de R$ 600 milhões em carteiras de direitos creditórios vinculadas ao Master. A PF aponta que a manutenção desses créditos de “origem duvidosa”, somada à captação agressiva de recursos com taxas acima do mercado, sugerem a ocorrência de gestão temerária ou fraudulenta por parte da instituição de Edir Macedo.

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