Mix Brasil: de site sobre universo LGBT a festival da diversidade

Endereço eletrônico chegou a ter mais de 20 milhões de acessos por mês. Hoje, dá nome a prestigiado evento cultural

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atualizado 11/12/2018 13:08

Entre 1995 e 2015, os LGBTs que queriam ler sobre seu universo acessavam o Mix Brasil, espaço que ficava dentro do portal UOL. Por conta do 26º Festival Mix Brasil, tive contato com seu criador, André Fischer, e batemos um papo sobre a trajetória desse importante canal, que chegou a ter mais de 20 milhões de acesso mensais. Vai ser ótimo relembrar, tanto para os usuários saudosistas quanto para os jovens que hoje gozam de abertura para falar sobre os modos de vida fora da heteronormatividade em um programa da TV aberta.

Ainda nos primórdios da internet, em 1993, André organizou o Festival Mix Brasil como extensão do New York Gay and Lesbian Experimental Film Festival, que era um evento sobre expressão do mundo GLS (sigla usada na época) na sétima arte.

Em 16 de agosto – data do aniversário da Madonna – do ano seguinte, as pessoas que estiveram presentes no festival criaram o BBS Mix Brasil para manterem contato. “O BBS [Bulletin Board System] era o avô da internet: os usuários de computador com modem [de 14,4kbps, naquela época] ligavam para um número de telefone e tinham acesso a um sistema não gráfico com listas de lugares gays da cidade, notícias, imagens eróticas e bate-papo. Usuários de fora de São Paulo precisavam fazer ligações interurbanas para se conectarem. Naquela data, dois computadores estavam ligados a duas linhas telefônicas, o que permitia a conexão de apenas dois usuários por vez”, diz a informação encontrada na Wikipédia.

Apenas em 1997 o site migrou para o portal UOL, e aí a coisa explodiu. Por duas décadas, cumpriu um papel essencial para os LGBTs de todo o Brasil e até da América Latina. Era através dele que chegavam as notícias sobre cultura pop, informações sobre a produção de ícones abertamente gays, dados sobre novas pesquisas para a cura da Aids e os cuidados que devemos ter no sexo e a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (coisas que nossos pais não conversavam com a gente e a comunidade médica não fazia questão de dar abertura no consultório médico).

Sem contar que, para muitos, era A fonte de fantasias sexuais, pois abriu as portas para o material erótico virtual. O Mix Brasil e o Bate-Papo UOL eram, para a geração pré-aplicativos de paquera, uma forma de garantir a realização do prazer com o anonimato que o armário exigia. Ou até mesmo o encontro de grandes amores.

Ao mesmo tempo, o alcance do portal levou a carreira de Fischer a lugares ainda mais longe. Ele acabou escrevendo uma coluna na Folha de São Paulo, publicou diversos livros, fez programa de rádio, o programa Cine Mix Brasil, no Canal Brasil, e só aumentou a diversidade do Festival Mix Brasil, que começou com cinema e, neste ano, abarcou ainda literatura, teatro, música e, pela primeira vez, criadores de games. Tudo relacionado à temática.

André Fischer, após trabalhar por dois anos no aplicativo Hornet, hoje administra uma rede de bares de vinho chamada Los Mendozitos. Ele não abandona o Festival Mix Brasil e, depois de um evento de 10 dias, diz que não sabe como será no próximo ano, diante das expectativas.

Quero terminar esta retrospectiva prestando uma homenagem aos dois principais exemplos de sucesso e longevidade que uma coluna LGBT pode ter em um grande meio de comunicação: o Mix Brasil e o Blogay, do jornalista Vitor Angelo, morto dois meses depois que o Vozes LGBT entrou no ar. Vocês dois me ensinaram de que é feito um espaço desses e que esta coluna não pode ser minha. Ela precisa ser da comunidade inteira. Muito obrigado!

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