Após feminicídio, servidoras da Educação pedem: “Parem de nos matar”

Funcionários da pasta relatam o horror vivido nessa segunda-feira (21/05/2019): "Dia para esquecer", disse um deles

Hugo Barreto/MetrópolesHugo Barreto/Metrópoles

atualizado 21/05/2019 11:29

Um dia após a tragédia na Sede II da Secretaria de Educação do Distrito Federal, o clima entre os funcionários da pasta é de tristeza, revolta e dor. Com cartazes e vestidas de preto, servidoras protestam e fazem oração em memória da professora Debora Tereza Correa, 43 anos, assassinada pelo ex dentro do prédio da 511 Norte na manhã de segunda-feira (20/05/2019).

“Tristeza é a palavra que define este momento. Como mulher, me solidarizo com a vítima e os familiares dela. Nós ficamos temerosos para que não volte a acontecer esse tipo de caso, mas acredito que seja um fato isolado”, disse uma servidora da pasta que trabalha no prédio e não quis se identificar.

Outro funcionário da Diretoria de Cadastro da Secretaria de Educação, onde Debora estava lotada, chegou para trabalhar sem saber que as atividades estariam suspensas no terceiro andar, onde a professora atuava. “Foi assustador o que nós vivemos aqui ontem (segunda-feira). Eu trabalho na sala ao lado à de Debora e passei pelo autor e por ela enquanto eles conversavam, antes da tragédia acontecer. A conversa não parecia uma discussão”, destacou.

De acordo com o servidor, tudo aconteceu em frente à porta da sala dele. “Quando eu saí, após escutar os tiros, o que vi foi o completo desespero das pessoas que estavam no local. Uma cena que quero esquecer”, assinalou.

Deborah Von trabalha no primeiro andar do Edifício Bittar III. “Vir pra cá foi uma batalha hoje. Independentemente da proximidade que tínhamos com a Debora, nos colocamos no lugar dela. Nós temos medo porque não há um controle muito grande no nosso local de trabalho. Sem detector de metais, acreditamos que essa segurança seja falha”, disse.

Durante o protesto, as servidoras gritaram: “Vidas sim, armas não”. Elas interditaram a W3 Norte rapidamente.

O crime ocorreu por volta das 10h de segunda-feira (20/05/2019). O agente de Polícia Civil Sérgio Murilo dos Santos, 51, com que Debora teve um relacionamento, chegou ao edifício, se identificou e foi direto para o terceiro andar, onde a professora trabalhava. Câmeras de segurança gravaram o momento, conforme revelou o Metrópoles nessa segunda-feira (20/05/2019). Após uma discussão, o policial disparou três tiros contra a servidora e, em seguida, tirou a própria vida.

Flávia Rodrigues, 46, é servidora da pasta e trabalhou por 15 anos no mesmo setor onde Debora estava atualmente. “Recebi áudios dos amigos que estavam na hora do crime. Um dos colegas disse pensar que ela ainda estava viva. Relataram que ouviram o estampido e se jogaram debaixo das mesas. Nós mulheres não nos sentimos seguras em lugar nenhum. A cultura do ódio está sendo incentivada. Isso não pode ser tratado como normal”, ressaltou.

Representantes do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF) convocaram a categoria e se reúniram no local na manhã desta segunda-feira (21/05/2019) para fazer um ato em homenagem à mulher e contra o funcionamento da secretaria um dia depois da tragédia.

“Acreditamos que toda a pasta deveria ter ficado de luto. Questionamos qual é o valor de uma mulher, servidora da nossa Educação. O que ocorreu aqui foi um crime. Nós não podemos tornar essa situação natural”, disse a coordenadora da Secretaria da Mulher do Sinpro-DF, Vilmara Pereira do Carmo.

Faixas faixas e cartazes foram colocadas na entrada do edifício e as servidoras foram convocadas a não subirem para trabalhar.  Ainda segundo Vilmara, a categoria pretende pedir uma audiência com o governador Ibaneis Rocha (MDB).

“Cadê o projeto de combate a violência contra a mulher? A nossa rede de proteção é falha e o resultado disso aparece diariamente nos noticiários. Não podemos aceitar que isso continue acontecendo”, destacou.

Governador pede mobilização
Em agenda pública nessa segunda (20/05/2019), Ibaneis assumiu o compromisso de lançar uma campanha de conscientização para combater a violência contra a mulher. Segundo o emedebista, as vítimas de agressões e ameaças, seus familiares e amigos precisam denunciar os agressores com mais rapidez às autoridades.

“Eu fico realmente muito entristecido com essa situação. A polícia está apurando. É um crime bárbaro, cruel. Nós estamos fazendo todos os esforços. Mas, infelizmente, vamos ter que fazer muitas campanhas de esclarecimento, para que tenhamos não só as mulheres fazendo as denúncias e se protegendo, mas também os vizinhos e os familiares”, disse o emedebista.

De acordo com o governador, é preciso mobilizar toda a sociedade do Distrito Federal para evitar novas mortes. Ibaneis adiantou que o Executivo vai fazer uma grande campanha publicitária para que as mulheres se sintam encorajadas a denunciarem cada vez mais seus agressores. Além disso, planeja discutir novos mecanismos para enfrentar a violência doméstica junto com o Judiciário.

Em nota, a Secretaria de Educação informou que a Coordenação Regional do Plano Piloto e os serviços da Subsecretaria de Infraestrutura e Apoio Educacional (Siae) estão funcionando normalmente nas dependências da unidade da pasta da 511 Norte. “Já a Subsecretaria de Gestão de Pessoas (Sugep), na qual trabalhava a servidora Debora Tereza Correa e onde ocorreu seu assassinato está com as atividades suspensas até a próxima quarta-feira (22/05/2019)”, destacou a secretaria.

Debora é a 13ª vítima de feminicídio no DF somente este ano no Distrito Federal. Em 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileira.

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