Entenda se a “euforia pós-isolamento” pode estar te causando ansiedade

Após um período de restrições, é natural querer "viver a vida como se não houvesse amanhã". Saiba avaliar se a prática é saudável

atualizado 10/06/2022 17:40

Getty Images

“Desde que as coisas melhoraram com relação à pandemia, eu não paro em casa nos fins de semana”, compartilha Sara Queiroz. Após cumprir a quarentena de forma bastante rígida e terminar o ensino médio em um cenário de crise de saúde global, atualmente, a estudante de 19 anos vive a sensação de precisar “recuperar o tempo perdido”.

Com uma rotina de estudos regrada nos dias úteis, Sara tem a agenda cheia nos dias de folga. Quando não pode acompanhar os amigos na programação, ela diz que se entristece por não estar aproveitando. “Depois de cumprir tanto tempo de quarentena, agora eu me obrigo a sair”, compartilha.

Assim como a estudante, a sensação de estar perdendo tempo, ou de “culpa” por estar em casa, depois de anos em reclusão, é um fenômeno compreensível, segundo especialistas. “É natural que períodos de muita limitação sejam seguidos por momentos de euforia, em que aflora o desejo de aproveitar cada segundo como se fosse o último”, explica a psicóloga Fernanda Bastos.

Com um gradual retorno à rotina graças ao avanço da vacinação, as cadeiras de bares e restaurantes estão sempre cheias, festivais de música pipocaram no país, ingressos para shows esgotam em instantes, além de um aumento no movimento dos aeroportos. Reflexo do fenômeno é o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que teve um avanço no último trimestre impulsionado pelo setor de serviços.

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Altos e baixos

A explicação para esse tipo de euforia após um período de restrições tem raízes antigas. Em um contexto histórico, situações como guerras e pandemias — que trazem contato com luto ou longos períodos de recolhimento — costumam ser seguidas por um desejo de externar demandas reprimidas.

“De várias formas, a pandemia nos conectou com a escassez, finitude e privações de todos os tipos. É natural que as pessoas desenvolvam programações compensatórias do tipo ‘preciso aproveitar agora, pois posso correr o risco de ficar sem isso novamente’”, completa a psicóloga Sabrina Amaral.

Essa alteração na percepção do tempo, causada pela pandemia, também impulsionou a necessidade de “compensar” esses pesares a partir de comportamentos hedonistas, termo usado na psicologia.

Tais práticas têm como objetivo central a busca pelo alívio para os anseios, podendo colocar de lado convenções sociais, travas e limites que costumamos ter no dia a dia, de acordo com a especialista em neurociência aplicada ao comportamento humano.

“As pessoas tendem a comprar demais, beber demais, sair demais, comer demais, tudo isso em nome de um prazer imediato e justificativas do tipo ‘eu mereço’, ou ainda, ‘a vida passa muito rápido e preciso aproveitar’”, exemplifica.

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Em busca do equilíbrio

Esse cenário, no entanto, tende a se estabilizar. “A história mostra que essa busca desmedida de satisfações imediatas ou excessos não é duradoura, as coisas tendem a entrar numa curva de acomodação”, completa Amaral.

Assim como algumas pessoas estão lidando com a euforia neste período pós-isolamento — a pandemia ainda não acabou —, há quem tenha criado algum tipo de fobia de contato e ansiedade social. Na visão da psicóloga, estamos vivendo um momento de readaptação das relações, sejam elas interpessoais, românticas, acadêmicas e familiares.

A recomendação para driblar as armadilhas deste período é questionar quais são, de fato, as suas prioridades. As psicólogas recomendam uma reflexão a partir de duas perguntas fundamentais:

Estou fazendo isso porque realmente faz sentido para mim, ou estou indo na onda da euforia?
Preciso mesmo disso tudo, ou estou tentando ‘recuperar o tempo perdido’, sacrificando outras coisas que também são importantes para mim, como horas de sono e saúde?

“Se pensarmos bem, os efeitos da pandemia podem nos proporcionar uma grande oportunidade para pensarmos de forma pragmática, sobre o que de fato é importante para nossas vidas, e como devemos nos dedicar a estas questões fundamentais que nos são valorosas”.

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