Covid-19: por que o sistema de saúde está em colapso e como sair dele

À espera de leito para tratamento da Covid-19, pacientes de hospitais públicos e privados estão morrendo em vários estados do país

atualizado 14/03/2021 14:31

HCAMP Goiânia - Hospital do ServidorVinícius Schmidt/Metrópoles

Nas últimas semanas, o Brasil vem acompanhando, ainda que anestesiado, a pior fase da pandemia desde que o coronavírus chegou ao país, em fevereiro de 2020. Todos os dias, são registrados recordes de mortes causadas pela Covid-19, e os hospitais de vários estados já não conseguem atender à demanda. Centros de saúde públicos e privados estão em colapso e, em inúmeros locais do Brasil, há pacientes morrendo enquanto esperam por vagas em UTIs.

Diferente do ano passado, o cenário de sobrecarga do sistema agora se repete em diversos estados brasileiros ao mesmo tempo. Se, no começo da pandemia, os casos se multiplicaram, primeiramente, nos grandes centros e só depois migraram para o interior do país, agora, além das capitais, muitos municípios de pequeno e médio porte sofrem com a falta de estrutura para atender ao elevado número de pacientes.

“Houve um senso de urgência no ano passado, que perdemos. No panorama atual, o vírus já se disseminou pelo país inteiro. É lamentável que, há um ano, estávamos discutindo como evitar o colapso do sistema e agora estamos vivendo isso”, afirma o pesquisador Daniel Villela, do Observatório Fiocruz Covid-19.

Integrante do grupo Observatório Covid-19 BR e professor na Unesp, Roberto Kraenkel diz que o coronavírus encontrou, no Brasil, o terreno perfeito para se disseminar. “Além da questão da variante, a atual explosão de casos é resultado do relaxamento das normas e de uma estrutura hospitalar e de vigilância epidemiológica precárias”, analisa.

A bem da verdade, o Brasil nunca controlou a pandemia provocada pelo novo coronavírus. Houve uma onda inicial, quando os casos cresceram de forma acentuada e diminuíram lentamente – mas jamais chegaram a um nível menos alarmante. Apesar disso, os hospitais de campanha foram fechados e a estrutura de emergência, desmontada.

“No fim de novembro, tivemos um segundo momento em que se observou um retorno no aumento de diagnósticos em vários locais do país, provavelmente devido ao relaxamento das medidas. Em janeiro, havia um decréscimo de casos na maior parte do país, com exceção do estado do Amazonas. A partir de fevereiro, aconteceu uma subida generalizada em todo o Brasil, de forma muito rápida, e chegamos a um ponto de estresse tamanho que tem gente que precisa de hospital, não encontra vaga e, por isso, morre”, lamenta Kraenkel.

O pesquisador diz ainda que os gestores ignoraram o alerta dado pelo colapso de Manaus, ao não preparem o sistema de saúde para o crescimento de casos e ao não decretarem medidas mais restritivas para a população.

O que leva o sistema de saúde público e privado ao colapso, afinal, é a excessiva quantidade de pacientes que procuram a hospitalização – muito além da capacidade desses estabelecimentos. A resposta, porém, não é simplesmente instalar mais leitos e comprar equipamentos. Uma parte importante dessa equação é a necessidade de ampliar recursos humanos: médicos, enfermeiros e profissionais de saúde especializados em lidar com pacientes em UTI.

Jonas Brandt, professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Brasília (UnB), aponta que um dos motivos para termos chegado a este ponto é a ausência de coordenação e organização do governo federal. “É uma falha importante, que gera um cenário de desestruturação nos níveis estaduais e locais”, explica.

A interrupção do auxílio emergencial é avaliada como uma das razões determinantes para a diminuição do isolamento social, por exemplo. Sem ajuda, grande parte da população precisa sair de casa para garantir que a família tenha comida no prato.

Situação longe de ser resolvida

Para o professor da UnB, o pior ainda está por vir. Ele afirma que a epidemia segue em significativa aceleração, e o número de pessoas suscetíveis à infecção ainda é elevado. “É possível imaginar o cenário se agravando, se nenhuma medida drástica for adotada até o fim do mês. Precisamos de um lockdown extremamente radical para diminuir o número de casos. Não dá pra aumentar leitos de forma ilimitada”, ressalta.

Kraenkel concorda. Para ele, na falta de medidas tomadas com antecedência, a única solução é fazer com que haja menos contaminações. Se a transmissão acontece pelo contato, é necessário evitá-lo. “Nesse momento, não temos outra saída que não, realmente, fechar o máximo de serviços possíveis. São medidas que devem ser adaptadas à realidade de cada local, mas que precisam ser muito restritivas”, opina.

Ele lembra do exemplo de outros países, como o Reino Unido e Portugal, por exemplo, que também tiveram um recrudescimento rápido e acentuado de casos, por causa de variantes mais contagiosas. Os lockdowns foram implementados com rigor, e o número de casos caiu vertiginosamente.

Além da urgente restrição da circulação de pessoas, é necessário desenvolver estratégias para que, quando as restrições forem suspensas e a população puder voltar às ruas, possamos manter a redução de casos sustentada e, assim, evitar novas crises. A resposta passa pelo auxílio emergencial, pelo aumento no número de testes e pela melhoria no rastreamento de contatos.

Para Vilella, da Fiocruz, é importante ter ações coordenadas. Ele defende que, somadas às restrições nas atividades não essenciais, sejam implementadas barreiras sanitárias entre municípios, aumento da testagem e melhoria na oferta de transporte público, para que a população não seja obrigada a embarcar em um ônibus lotado diariamente, em que os riscos de contaminação são altos.

“É preciso reforçar também a necessidade do uso de máscara. Temos evidências que, se pelo menos 80% das pessoas usarem o item, há redução bastante acentuada da transmissão”, explica.

Vacinas: ajuda a longo prazo

Especialistas concordam a vacinação é, sim, fundamental para garantir que esse cenário não se repita indefinidamente. A campanha de imunização, porém, caminha a passos muito lentos para que haja algum efeito imediato.

Segundo Roberto Kraenkel, do Observatório Covid-19 BR, a falta de organização do governo para comprar doses dos imunizantes com antecedência também deve ser relacionada como causa do cenário atual. Informações divulgadas até o momento apontam que a maioria das fórmulas tem boa efetividade contra casos graves da doença, o que evitaria que os pacientes evoluíssem a ponto de exigir hospitalização.

“Essa situação só se resolve com a vacinação, é o meio mais efetivo, principalmente para casos mais graves. Mas ela precisa ser ampliada”, concorda Vilella.

Saiba como funcionam as vacinas contra Covid-19:

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