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No final dos anos 1960, enquanto se preparava para gravar as canções de seu primeiro disco, An Old Raincoat Won’t Ever Let You Down (1969), Rod Stewart ouviu um comentário desencorajador que poderia ter lhe custado a carreira, caso o artista tivesse dado bola. Foi quando Mike ‘D’Abo, então vocalista da Manfred Mann e produtor de algumas faixas daquele álbum, lhe pediu para limpar a garganta e se livrar do pigarro.

“Pô, não é pigarro. Essa é a minha voz”, disse, irritado.

Passados quase 50 anos, 265 milhões de discos vendidos em todo planeta e 5 milhões de seguidores no Spotify, se há alguma dúvida de que há pigarro ou não na voz desse cantor inglês, então você precisa consultar um médico de ouvido, meu chapa. Talvez, até mesmo, um psiquiatra.

Uma das vozes mais singulares do pop-rock, Sir Rod está com disco novo na praça. Trata-se de Blood Red Roses, o 30º de estúdio e, a julgar pela idade do cantor, 73 anos, bem vividos loucamente. O registro é tão bom, por exemplo, quanto o de outro septuagenário ególatra que acabou de brindar os fãs com novidade: Paul McCartney.

Rod Stewart e Ron Wood tocando Maggie Mae com direito a partida de futebol:

Um convite à balada
Apaixonado por folk e rythm and blues, além do soul de Sam Cooke, Roderick David Stewart foi discípulo do bluesman Long John Baldry, frontman do Jeff Beck Group – a banda estilosa do temperamental e virtuoso guitarrista eterno parceiro de Jimmy Page nos Yardbirds. O estrelato do inglês veio junto dos Faces, nos anos 1970. É de lá também a amizade fraternal com Ron Wood.

São dessa época hits como a vibrante Stay With Me – gravada com os Faces – e a épica Maggie Mae, o maior sucesso de sua vitoriosa carreira solo, cuja marca registrada está associada aos desgrenhados cabelos arrepiados e à voz áspera rascante.

Claro que nem de longe Blood Red Roses beira os antológicos trabalhos solos do artista, como os sensacionais Gasoline Alley (1970) e Every Picture Tells A Story (1971), mas tem energia e sex appeal suficientes para fazer o ouvinte pular da cadeira e dançar a noite toda. Disponíveis nas plataformas de streaming, as 13 faixas, quase todas escritas em parceria com o coprodutor e amigo Kevin Savigar, são um convite à balada.

Há certa sincronia e similaridade entre a produção desse registro com seus últimos trabalhos, Time (2013) e Another Country (2015). A sensualidade e charme lascivo que sempre fizeram parte da narrativa de Rod se esparramam nas duas primeiras faixas. Na canção de abertura, Look In Her Eyes, uma introdução de cordas no estilo Coldplay (sempre eles) conduz o ouvinte a solo de metais de mariachis bem-elaborado. Hole In The Heart exorciza sua fase dos anos 1980.

Faixa de abertura de Blood Red Roses:

Blood Red Roses também emerge com um registro pessoal, na medida em que o cantor revisita lembranças do passado, como a saudade de um amigo, em Farewell, e os deslizes de um pai ausente em Didn’t I. Como se sabe, Rod Stewart deu a primeira filha, que teve na adolescência, à adoção, enquanto um de seus filhos do primeiro casamento, Sean, mostrou-se arruaceiro, drogado e alcoólatra.

Os tempos de crooner na cidade do pecado, Las Vegas, onde o roqueiro resistiu a trabalhar, vêm à tona na empolgante Vegas Shuffle, enquanto que a balada Honey Gold faz alusão a um flerte passageiro com uma groupie no passado. Reconhecido como um intérprete original, Rod faz uma homenagem emocionante aos irlandeses, ao gravar a tocante Grace e a otimista Rest Of My Life, na qual declara amor à vida.

Rod Stewart em Rest Of My Life: