Festival de Brasília gera debates sobre gestão de áreas culturais

Manifestações políticas no palco e nos espaços do evento opuseram artistas e gestão da secretaria Cultura e Economia Criativa do DF

Myke Sena/Especial para o Metropoles

atualizado 30/11/2019 17:16

O secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Adão Cândido, foi vaiado durante discurso na abertura do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 22 de novembro. Naquele dia, o gestor da pasta classificou os protestos à sua fala como atitude “anti-democrática” por parte da plateia. 

Hoje, porém, os ânimos parecem ter se arrefecido. “Isso é a marca do Festival de Brasília. Não temos nenhum reparo sobre as manifestações. Me parece que essa é uma característica de um festival democrático. Agora, nós temos de preservar o evento, o grande patrimônio da cidade. A melhor resposta foi própria realização desse grande espetáculo”, afirma Cândido, em entrevista ao Metrópoles.

O gestor cultural avalia que todas as ações do Festival de Brasília foram eficientes para mostrar que a produção cinematográfica brasileira continua ativa, apesar dos prognósticos em contrário. “Esta edição foi uma boa resposta para todo mundo que acreditava em uma decadência do cinema brasileiro. Passamos uma semana respirando cinema, celebrando a sétima arte”, acredita o secretário.

Igo Estrela/Metrópoles
O secretário de Cultura e Economia Criativa, Adão Cândido, na cerimônia de abertura do Festival de Brasília

Cândido se esquivou de comentar a polêmica causada por um bate-boca dentro da sala de projeção do Cine Brasília, envolvendo o coordenador de relações institucionais do Festival, Pedro Lacerda, e outros convidados, durante a sessão competitiva de quinta-feira (28/11/2019). No momento em que as personagens do documentário O Tempo que Resta davam o depoimento no palco, Lacerda teria gritado para que o cerimonial interrompesse o discurso e começasse o filme. 

A atitude demonstra insensibilidade com a fala das duas mulheres extrativistas que estão sofrendo graves ameaças de morte vindas de pistoleiros da região do Pará e estavam justamente denunciando a situação no momento da interrupção. “Eu soube o que aconteceu por meio de terceiros. Não presenciei o ocorrido e não gostaria de me manifestar a esse respeito. O Pedro Lacerda é um funcionário do Instituto Alvorada Brasil e não está diretamente ligado à Secretaria de Cultura”, contemporizou Cândido.

A questão do FAC

Manifestações contra o secretário de Cultura foram a tônica dos protestos políticos da 52ª edição do Festival de Brasília. Durante os dias de exibições, inúmeras vezes ouviram-se o grito de “Fora, Adão!” e “Pague o FAC!” durante os discursos. Os manifestantes chegaram a projetar reivindicações na tela e nas paredes do Cine Brasília. 

Entre as principais pautas está a normalização do pagamento do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) mantido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa. É por meio desse recurso que artistas e realizadores do Distrito Federal produzem filmes, peças de teatro, apresentações musicais, exposições, etc. Sendo esta uma das principais ferramentas de fomento cultural da região.

No início da gestão do governador Ibaneis Rocha (MDB) chegou-se a aventar a possibilidade de utilizar os recursos do FAC para a reforma do Teatro Nacional de Brasília (fechado há cinco anos). O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) suspendeu a destinação de recursos para fins de reforma do espaço. Em maio de 2019, o órgão cultural anunciou a suspensão do pagamento do edital Áreas Culturais, no valor de R$ 25 milhões. 

A promessa era que a medida seria temporária e que a situação seria normalizada em seguida. Porém, até o momento, a liberação dos recursos aguarda decisão do TCDF.  Na área de cinema e audiovisual, a secretaria não lançou nenhum edital durante o ano de 2019.

Segundo a ativista da Frente Unificada de Cultura do DF, Rita Andrade, o não lançamento do edital audiovisual em 2019 coloca em risco a produção de filmes produzidos na capital pelos próximos anos. “Um curta-metragem leva em torno de um ano para ser produzido. Um longa leva de dois a três. Portanto, o prejuízo pode durar pelo menos três anos”, calcula.

“Nós compreendemos que o Festival de Brasília é um dos grandes expoentes culturais de Brasília. Uma das maiores vitrines do Brasil. Diante do desmonte das políticas públicas propostas tanto pelo governo federal quanto o regional, entendemos que não podemos nos silenciar”, protesta a produtora cultural. “A manifestações no Festival evidenciam um diagnóstico da profunda insatisfação do setor cultural com que está sendo posto pela secretaria. É uma gestão que não dialoga, não comparece às audiências públicas e não nos dá respostas. Simplesmente, fecharam as portas para os artistas”, conclui.

Em resposta, o secretário Adão Cândido prometeu que os editais de Linguagens e Audiovisual terão prioridade no próximo ano. Ambos deverão ser lançados em janeiro de 2020 para serem cumpridos no decorrer do mesmo ano.

Nossa expectativa é lançar os dois editais no começo de 2020 para que os projetos possam ser executados ainda em 2020. Nós queremos acabar com o ciclo de empurrar os projetos para o próximo ano

Adão Cândido

O valor do edital 2020 deve ser de pelo menos R$ 20 milhões com expectativa de incremento pela Agência Nacional de Cinema (Ancine). “Ainda não sabemos como ficarão os arranjos regionais feitos com a Ancine. No momento ainda não temos a definição da manutenção ou não da contrapartida da Agência”, adiantou o secretário.

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