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Nas redes sociais, mulheres de todo mundo pedem um 8 de março (data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher) mais consciente. Não há mais espaço para flores e cartões em uma realidade cruel, em que várias mulheres são violentadas – de diversas formas – a cada hora. Pensando nisso, o Metrópoles destaca brasilienses que atuam nas áreas do audiovisual, do teatro, da música, das artes plásticas e da literatura, e colocam o feminino como protagonista de seus trabalhos. Confira:

Reprodução/Facebook

Érica de Paula, doula


Em defesa do parto natural

Depois de assinar produção, pesquisa e roteiro do documentário “O Renascimento do Parto”, Érica de Paula se prepara para lançar um livro sobre gestação e parto. A obra – que está sendo escrita e deve ser publicada em 2017 – segue a linha do filme. “Vou trazer informações embasadas para que mulheres possam fazer escolhas conscientes, desde a pré-concepção, passando por todas as etapas da gravidez”, diz Érica, que é doula, educadora perinatal, acupunturista e psicóloga.

Ainda sem título, a obra tem um víés feminista e foi motivada pela falta de informações sobre o assunto. “Tratam as mulheres como se elas fizessem parte de uma linha de produção. É preciso recolocá-las na posição de protagonistas da gestação e do parto”.

A realidade da desinformação também foi o incentivo para criar “O Renascimento do Parto”, que retrata a grave realidade obstétrica mundial, sobretudo brasileira, caracterizada por um número alarmante de cesarianas.

A minha vivência como doula mostrou que não importa de qual classe social a mulher seja, faltam esclarecimentos sobre o parto humanizado, entre outros temas, fundamentais para evitar cesarianas indesejadas e desnecessárias"
Érica de Paula, doula
Carol Dias/Reprodução

Cena de “O Renascimento do Parto”

O debate pós-documentário chegou os hospitais, à mídia e também à Constituição Federal. Em 15 de janeiro, o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, sancionou a lei que obriga maternidades, casas de parto e hospitais públicos e privados do estado a permitir a presença de doulas, independentemente da escolha do acompanhante. As doulas são as profissionais responsáveis por proporcionar conforto físico e emocional às mulheres no momento do parto.

“Tenho certeza de que o documentário foi um marco, porque ele atingiu lugares que o movimento ainda não tinha chegado. Não quer dizer que o filme mudou a legislação, mas que criou debates importantes sobre o tema”. “O Renascimento do Parto 2” tem estreia previsa para maio deste ano. A direção é de Eduardo Chauvet, que assinou o primeiro filme.

Tatiana Reis/Divulgação

As atrizes Ana Paula Monteiro, Tuanny Araújo e Fernanda Jacob


Pela afirmação da negritude

Em novembro de 2015, o público de Brasília viu estrear um dos espetáculos mais impactantes do ano: “Pentes”, do Grupo Teatral Embaraça. Em cena, Ana Paula Monteiro, Fernanda Jacob e Tuanny Araújo mostraram o delicado processo vivido por mulheres negras: da negação à afirmação de seus cabelos e aceitação da estética afro como resistência política, social e cultural.

A montagem nasceu em 2012, a partir do processo de formação no departamento de artes cênicas da Universidade de Brasília. “O projeto ‘Quem Disse que Não’ deveria trabalhar com a questão da negação. Ao observar que existiam 22 pessoas na turma e apenas cinco eram negras, optamos por abordar a negação do cabelo crespo, processo que mulheres negras vivem na infância e na adolescência”, conta Fernanda.

Em 2014, a montagem foi encenada em escolas públicas do Distrito Federal e, no ano seguinte, reformulada para um público mais adulto. Depois de passar por Plano Piloto, Ceilândia, Gama, Taguatinga e Vila Telebrasíllia, a peça teve sessões em Manaus, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

No teatro há poucas mulheres e poucos negros. O tema é difícil de tratar. Assim, fica triplamente difícil levar aos palcos um espetáculo como ‘Pentes’. Muita gente tem um olhar desconfiado para o projeto, dizendo é panfletário ou que estamos falando disso só porque o tema é atual. Esquecem que há uma estrutura cênica por trás disso"
Fernanda Jacob, atriz

Formadas pela UnBa, Ana Paula, Fernanda e Tuanny seguem investindo em estudos para aperfeiçoar seus trabalhos. Em janeiro, passaram quase um mês em Salvador, fazendo um curso de teatro com o Bando de Teatro Olodum. O resultado poderá ser visto em novembro, quando estreiam espetáculo com a temática do afrofuturismo (movimento que une diversas manifestações artísticas, ficção científica e mitologias de origem africana).

Reprodução/Facebook

DJs Mandy, Ostara, Ana Camps, Hanna


Vibe das Minaz

No segundo semestre de 2015, as produtoras Ostara, Hanna, Mandy, Laísa, Raquel e Andressa Liz se juntaram para montar um evento que só tocasse músicas de artistas mulheres. Aí, nasceu a Vibe das Minaz. A primeira festa ocorreu em dezembro.

“Sempre escutamos músicas de artistas mulheres, mas nem sempre ouvíamos essas canções nas festas. Por isso a vontade de montar o projeto em que todos pudessem curtir o nosso repertório”, conta Ostara, que costuma colocar nas picapes hits de Karol Conka, Mahmundi e Lurdez da Luz, entre outras.

Além das cantoras escolhidas criteriosamente, o repertório também passa por um crivo atencioso. As DJs analisam as letras das músicas para garantir que as canções só emitam mensagens do bem e de empoderamento.

É um projeto totalmente feminista. E não temos medo dessa palavra. Mulheres tocam em festas, dançam, fazem arte de todos os tipos. Mas não somos representadas em vários espaços, inclusive nas baladas. É preciso que tenhamos mais espaço."
Ostara, DJ

O projeto também atua como empoderamento econômico já que conta com colaboradoras de diversas áreas. Na próxima edição, sexta (18/3), a festa terá novamente a presença dessas mulheres empreendedoras. Além da VJ Oga Julia e das DJs Ana Camps, Mandy, Hanna, Ostara, estarão a piercer Nay Correa; as comidinhas veganas e vegetarianas da Cumbuca da Dani; os doces da Sporem Amore e a performance da dançarina Andressa Liz. Tudo sob cliques de Ana Pinheiro.

Reprodução/Facebook

Clarice Gonçalves, artista plástica brasiliense


Pintando o feminino

Com quase 12 anos de carreira, a artista plástica brasiliense Clarice Gonçalves tem o feminino como uma das linhas de pesquisa. “Essa temática surgiu como fruto de um processo de autoconhecimento. Percebi que certos hábitos e manias não eram meus, e sim herdados. Certos papéis sociais são impostos e decidi levar essas reflexões que tinham dentro de mim para as telas. No fim, também senti que são questionamentos universais, que todas as mulheres têm”.

Nas pinturas figurativas de Clarice, as mulheres podem surgir nuas, em momentos de contemplação ou em cenas que provocam a reação do público. Um exemplo é o quadro “Instinto de Leveza”, em que três mulheres estão urinando.

Meus trabalhos abordam as situações de maneira direta, como é o quadro das mulheres fazendo xixi. Esse impacto também gera uma rejeição, que acontece por meio da invisibilidade. Estou acostumada a ver minhas obras mexendo com as estruturas das pessoas. Mesmo que não saibam que estruturas são essas"
Clarice Gonçalves, artista plástica

Independentemente da aceitação do mercado, a artista segue com suas temáticas. Em breve, o público terá a chance de ver nas telas um novo momento de Clarice: a pós-maternidade. “É um momento muito forte. Tenho um filho de 2 anos e meio e fiquei sem tempo para me dedicar à pintura. Estou voltando agora e percebo algumas mudanças, como a maior empatia com os seres humanos, principalmente com as mulheres. A maternidade faz com que novas mulheres surjam”.

Elisa Borges/Divulgação

Patrícia Rodrigues e Mariana de Ávila


Voz feminina na literatura

Tudo começou quando a escritora britânica Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014). A ideia era estimular a leitura de obras de escritoras, já que o mercado editorial ainda é muito restrito e não proporciona a visibilidade para as mulheres.

A proposta se espalhou pelo mundo e desembarcou no Brasil há um ano, em São Paulo. Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques levaram a iniciativa para livrarias e espaços culturais. Lá, elas recebem o público, onde debatem obras de autoras, de clássicas a contemporâneas.

Em Brasília, os encontros ocorrem desde setembro. Uma vez por mês, na Livraria Cultura do CasaPark, Mariana de Ávila e Patrícia Rodrigues mediam bate-papos sobre livros de Adeline Yen Mah (“Cinderela Chinesa”), Chimamanda Ngozi Adichie (“Hibisco Roxo”) e Harper Lee (“O Sol É Para Todos”), entre outras.

“Conheci o projeto pelo Twitter e depois vi a fan page. Me interessei muito e entrei em contato com o pessoal de São Paulo”, conta Mariana. Atualmente, o projeto está em 20 cidades brasileiras. “Temos respostas muito positivas. As conversas possibilitam criar uma rede de sugestões de autoras e livros”.

O projeto é uma oportunidade incrível de discutir mulheres e seus trabalhos na literatura. Sempre fui feminista e, nesse espaço, podemos construir e reformular opiniões sobre o tema."
Patrícia Rodrigues, jornalista

Patrícia explica que a escolha das obras vem do próprio público. “Colocamos algumas opções na nossa página do Facebook. A escolha final acontece no encontro que precede o debate. Cada sessão começa com a apresentação da autora e com a nossa opinião sobre a publicação. Aí, a plateia se solta. No começo, tínhamos apenas cinco pessoas, hoje são 20 a 25 em cada edição”, conta.

A próxima edição será na quinta (10/3) e debaterá o clássico “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. O encontro de abril vai homenagear o aniversário de Brasília, recebendo duas escritoras da cidade: Patrícia Baikal e Patrícia Colmenero, autoras de “Mariposa: Asas que Mudaram a Direção do Vento” e “Porque Até a Morte Terei Fome”, respectivamente.