Professora do DF contrai Covid-19 e pais questionam transparência de escola

Colégio soube da suspeita da doença e a afastou no dia 5. Porém, só nesta sexta (9), após resultado positivo, comunicou a situação aos pais

atualizado 09/10/2020 16:07

retorno aulas particulares durante pandemia escola Arvense brasiliaRafaela Felicciano/Metrópoles

Pais de alunos de uma escola privada do Distrito Federal denunciam falta de transparência por parte da instituição em relação a um caso da Covid-19 dentro da unidade. Na segunda-feira (5/10), os responsáveis receberam um comunicado do Colégio Arvense sobre o afastamento de uma professora que estava “de atestado médico”, mas não foram informados que a docente suspeitava ter contraído o novo coronavírus. Apenas nesta sexta (9/10), após a profissional testar positivo, a escola enviou um novo aviso, confirmando a infecção da professora.

Após receberem o informativo, nesta manhã, pais procuraram a unidade de ensino para entender o motivo pelo qual a escola não revelou o contexto do afastamento da professora, uma vez que a instituição sabia que ela desconfiava ter contraído a doença e que faria teste.

Veja, abaixo, os comunicados enviados na segunda e nesta sexta-feira, respectivamente:
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No plano de retomada de atividades da própria escola de educação infantil estão estabelecidas medidas emergenciais em caso de contágio por coronavírus. Entre elas, o afastamento e a orientação quanto à busca de serviço de saúde para investigação diagnóstica tanto para pessoas com sintomas como para aquelas que “convivem com as que apresentem sintomas de síndrome gripal”.

Veja, abaixo, o protocolo da escola:

Protocolo do Colégio Arvense em relação à Covid-19

Ao Metrópoles, a mãe de uma aluna do 2º ano do colégio disse que considerava permitir que a filha voltasse à rotina presencial em breve, mas que, agora, se sente insegura. “Segundo o plano de retomada, havendo casos sintomáticos, eles deveriam avisar aos que convivem [com quem tem sintomas], então, entendo que os alunos deveriam ter sido avisados e não foram”, disse a mulher, que pediu para não ser identificada.

“Entendemos que não foi honesto por parte da escola não informar a situação desde o começo. Não foram transparentes. A minha filha ainda estava tendo aulas em casa, e estávamos prestes a tomar uma decisão sobre o retorno, mas, dentro dessa situação, não sinto segurança em [deixá-la] retornar”, assinalou.

Segundo o presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF) Alexandre Veloso, os responsáveis já temiam a volta às aulas após a Justiça desobrigar a testagem em massa dos profissionais. Conforme a decisão judicial, só serão testados os trabalhadores com suspeita ou que tiveram contato com pacientes da doença.

No caso do Colégio Arvense, Veloso avalia que a instituição deveria ter sido mais clara com os pais. “Em tempos de Covid-19, a gente tem que visar o coletivo e informar esses contextos de afastamento caso envolva suspeita. A escola já tinha que ter sinalizado: ‘Por motivos de precaução, afastamos a professora, vamos acompanhar para ver o resultado do exame e comunicamos à comunidade’…”, pontuou.

“Vamos comunicar o Ministério Público do Trabalho quando tomarmos conhecimento formal desse caso para que realizem o aprimoramento desse protocolo. Esse caso prático mostra a necessidade de reforçar junto às escolas a necessidade dessa boa comunicação com os pais”, completou ele.

O que diz a escola

Para a diretora Márcia Nogueira, não houve falta de transparência da escola. “Acho que é questão de interpretação dos pais”, avaliou.

“No sábado (3/10), a professora me ligou dizendo que estava com dor de cabeça e mal-estar, mas o médico teria dito que estava muito precoce. No dia 5, eu mandei um comunicado para os pais, dizendo que ela estava de atestado, que ficaria afastada. Ontem, às 20h, saiu o resultado do exame. Então, enviei outro comunicado, dizendo que ela testou positivo”, detalhou.

Questionada por que razões não informou aos pais que a docente estava com sintomas e faria o teste de Covid-19, ela argumentou que “não posso antecipar que ela está com suspeita disso, suspeita daquilo”.

“Não vou ficar alarmando ninguém, porque, todo dia, todo mundo tem alguma coisa, então, eu agi corretamente. Não falei o que era, porque não sabia”, justificou-se.

Segundo Márcia, a professora fez o teste pelo plano de saúde da escola. Perguntada se o Arvense faria, agora, testes em professores que tiveram contato com a docente contaminada e se orientaria os pais para que as crianças também fossem testadas, ela explicou que, “todo mundo que tiver que ser testado, será”.

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Sindicato dos professores apura

De acordo com o diretor jurídico do Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinproep-DF), Rodrigo de Paula, a entidade ainda não recebeu denúncias formais sobre o caso do Colégio Arvense, porém, o sindicato vai apurar a situação.

“Vamos investigar e acionar o Ministério Público do Trabalho para que seja feita uma inspeção. Caso confirmemos [irregularidades], vamos pedir testagem de todos os professores que tiveram contato”, assinalou.

Segundo Rodrigo, desde o retorno às aulas presenciais no DF, o Sinproep tomou conhecimento de mais de 10 professores contaminados pelo novo coronavírus. “Mas, nesses casos, a escola afastou, imediatamente, e comunicou tudo aos pais”, comentou.

Cuidados necessários

cronograma de retorno foi aprovado em 24 de agosto. Por meio de audiência de conciliação virtual, entidades representativas das escolas e dos docentes da rede pública definiram a volta às aulas a partir de 21 de setembro, para a educação infantil e o ensino fundamental 1, enquanto o ensino fundamental 2 retorna em 19 de outubro. Já o ensino médio e os cursos profissionalizantes retomarão as classes presenciais em 26 de outubro.

As aulas presenciais só podem ocorrer se as escolas fornecerem luvas e gorros descartáveis, protetores faciais (face shields), jalecos, aventais e outros aparatos necessários para professores, instrutores e demais profissionais que trabalhem diretamente com alunos da educação infantil.

Devem ainda ser exigidos equipamentos de proteção individual (EPIs) necessários aos trabalhadores (empregados diretos ou terceirizados), obrigatórios para cada tipo de atividade, principalmente para limpeza, retirada e troca do lixo, manuseio e manipulação de alimentos ou livros e aferição de temperatura.

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