Por vacinação, servidores do IML ameaçam não recolher corpos no DF

Técnicos esperavam ser imunizados nessa sexta, mas alegam que não conseguiram agendar no site da Secretaria de Saúde

atualizado 27/03/2021 8:29

Recolhimento de cadáverRafaela Felicciano/Metrópoles

Sem conseguir vacinação contra o novo coronavírus, técnicos do Instituto Médico Legal (IML) ameaçam deixar de recolher os corpos de vítimas de Covid-19 em hospitais públicos e privados do Distrito Federal.

Segundo o presidente da Associação dos Técnicos em Necrópsia do IML (Asten), José Romildo Soares, a Secretária de Saúde pediu a lista dos servidores para providenciar o agendamento da vacinação, mas um problema teria ocorrido . “A direção da Polícia Civil requisitou essas doses para aplicar diretamente no quadro de pessoal”, contou.

Desta forma, os funcionários do IML não tiveram a possibilidade de agendar a imunização e, ao mesmo tempo, conforme o relato de Romildo, a PCDF não aplicou as doses nessa sexta-feira (26/3). “E no final das contas, os servidores do IML ficaram sem vacina”, pontuou.

“Nossa atividade é totalmente de risco. A gente pega corpos em presídios e já tivemos que abraçar cadáveres para retirar das celas. Nós entramos no ambiente hospitalar, dentro das câmaras frias, onde estão os cadáveres vítimas de Covid, além de manusearmos corpos no IML para o exame necroscópico”, afirmou.

Ofício

Em 19 de março de 2021, o Sindicato dos Servidores Públicos Civis da Administração Direta, Autarquias, Fundações e Tribunal de Contas do DF (Sindireta) enviou oficio para a direção da PCDF e outros órgãos do Governo do Distrito Federal (GDF). Segundo o documento, sem a vacinação até sexta-feira (26/3), as remoções em ambiente hospitalar seriam suspensas.

“Não vamos mais ficar recolhendo corpos se os servidores estão todos vacinados e a gente não”, reforçou. Os técnicos também ameaçam não participar de exames dos cadáveres vítimas de Covid no IML.

Conforme o Metrópoles revelou, em grande parte dos hospitais os corpos de vítimas de Covid-19 e de pessoas mortas por outras causas dividem o mesmo espaço.

“A gente chega nos setores de anatomia dos hospitais e tem cadáver empilhado. Não tem como separar. Então, vai criar um problema sério, porque a gente não vai buscar”, ressaltou Romildo

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Casos

Dentro do IML trabalham 40 técnicos em anatomia. Destes, 23 já foram infectados pelo novo coronavírus. O instituto também conta com 9 servidores da radiologia. Pelo menos 3 tiveram a doença. Um servidor precisou de internação em uma unidade de terapia intensiva (UTI). Não houve óbitos.

A suspenção das atividades pode começar a partir de segunda-feira (29/3). A princípio, os servidores continuarão a fazer o recolhimento em presídios, vias públicas e residências.

Terror

O Metrópoles conversou com outros servidores do IML sobre a questão. Eles pediram para terem as identidades preservadas para evitar eventuais represálias. Além do medo de infecção, os profissionais denunciam a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs).

“Nossa estrutura de trabalho não está de acordo com o risco que enfrentamos todos os dias. Estamos tratando de corpos com Covid. E há escassez de macacões e máscaras para a manuseio”, revelou um membro dos técnicos.

“Sempre com problemas e dificuldades a situação evoluiu até o patamar em que começamos a ser infectados. Vários de nós tiveram que passar pela doença. Estamos em ambiente de terror”, lamentou.

Para os trabalhadores, o ruído entre a PCDF e Saúde deixou a categoria no limbo, justamente no momento crítico, quando precisam se imunizados. “Não sabemos quando vamos ser vacinados e precisamos ser imunizados com urgência”.

Outro lado

Segundo delegado-geral da PCDF, Robson Cândido, o IML será o primeiro departamento da PCDF a ter todos os servidores vacinados. As doses serão aplicadas com a chegada do próximo lote de vacinas. Se houver condições, os terceirizados também serão imunizados.

A Secretaria de Saúde se manifstou por meio da nota abaixo:

A Secretaria de Saúde esclarece que reconhece os técnicos do IML como vinculados aos trabalhadores da Saúde e que esses profissionais estão na lista dos grupos prioritários.  Conforme liberação e o quantitativo de novas doses pelo Ministério da Saúde, este grupo terá prioridade nesta nova etapa de vacinação.

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