Homem trans celebra mês da visibilidade com esposa e filhas: “Sonho”
No Mês da Visibilidade Trans, família transcentrada conta como a fertilização in vitro deu a eles a oportunidade de ter filhos biológicos
atualizado
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Em 29 de janeiro de 2004, um grupo de mulheres e homens transexuais esteve em Brasília para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, que aconteceria no Congresso Nacional. A mobilização, promovida pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, é considerada um marco contra a transfobia no Brasil e marca o dia e mês da Visibilidade Trans no país.
Ainda hoje, no país que mais mata pessoas trans no mundo, a luta contra o preconceito persiste na comunidade LGBTQIA+, a qual fazem parte pessoas transgênero. Um dos direitos por muitos anos limado, era o de formar uma família.
Porém, há 6 anos, Frederico Sóter enfrentou o sistema e iniciou a empreitada. Homem trans, Fred sempre sonhou em ser pai. Em 2016 se casou com Elisabeth, mulher cis, que passou a carregar o sobrenome do marido: Sóter. Em 2017, eles decidiram que a família deveria aumentar.
Resolveram então procurar uma clínica de reprodução assistida, com o intuito de fazer uma fertilização in vitro (FIV) que, segundo o médico ginecologista responsável pelo nascimento das crianças, Nícolas Cayres, foi o procedimento ideal para o casal.
“Quando Frederico me procurou, a ideia era fazer uma inseminação com sêmen de um doador, estimulando os ovários da esposa. Porém, descobrimos que ela tinha menopausa precoce. Foi quando surgiu a ideia de estimular os ovários de Fred para fazer uma FIV”, conta Cayres.
Sóter suspendeu os hormônios masculinos que tomava e tentou a fertilização uma primeira vez. A tentativa foi sem sucesso, pois os ovários dele ainda estavam sob efeito da testosterona que ele usava.
“Na segunda tentativa, deu certo: os óvulos foram coletados, a fertilização foi feita com sêmen do banco geral e o útero da esposa foi preparado para receber os embriões. Ou seja, apesar dos óvulos serem dele, quem engravidou e deu a luz foi a Beth”, explica o médico.
Hoje, Frederico e Elisabeth têm filhas gêmeas, de 3 anos: Alice Kizola e Natasha Kiála. Com o sucesso do procedimento, as meninas nasceram em agosto de 2018. “As minhas filhas são a razão da minha vida. O dia em que elas nasceram foi o mais feliz de todos”, declara Fred.
Reprodução assistida
Nícolas Cayres, médico ginecologista e membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), explica que para a realização da FIV ser feita em pessoas trans, é necessário que ela não tenha feito a cirurgia de readequação sexual. “No caso de homens trans, eles precisam ter o seu aparelho reprodutor preservado, útero e ovários. Já no caso de mulheres trans, o pênis e testículos devem ser conversados”.
Para pessoas trans que desejam ter filhos, Nícolas diz que será necessário interromper a transição hormonal, pois tanto os ovários como os testículos param de funcionar. Ou seja, ficam bloqueados quando se usa testosterona no homem trans e estradiol em mulheres trans.
“Se a pessoa trans vai começar um tratamento hormonal e tem vontade de ser pai ou mãe no futuro (mantendo seu material genético) antes de começar a transição hormonal procure um centro de reprodução assistida para congelar os óvulos ou espermatozoides”, revela o médico.
O ginecologista conta que no Brasil os planos de saúde não cobrem esses tipos de tratamento, mas que alguns serviços públicos o disponibilizam. “Em Brasília existe um serviço de fertilidade no Hospital Regional da Asa Sul (HRAS). É um serviço geral, não específico para pessoas trans”.
Acerca dos valores dos procedimentos em clínicas particulares, Cayres diz que isso varia de acordo com a idade e a necessidade de estímulo hormonal do paciente, e que o Conselho Federal de Medicina (CFM) não permite a divulgação de preços por mídias sociais.
Mês da Visibilidade Trans
“O mês da visibilidade trans é de extrema importância para nós. A população trans, principalmente os homens, são invisíveis na sociedade. Então é importante que, ao menos um mês do ano, os olhos estejam voltados para essa população, para as nossas necessidades, dificuldades e para humanização”, desabafa Frederico.
“Hoje em dia vemos muitas famílias transcentradas que têm dificuldades para registrar seus filhos de forma correta. Além disso, também há casais de pessoas trans com pessoas cis que não conseguem registrar crianças porque a pessoa trans não consegue ratificar seu nome. São coisas fáceis de serem resolvidas, mas que dependem da consciência de quem está no poder, né”, conclui o pai de Alice e Natasha.
Nícolas Cayres defende o combate a transfobia por meio a disseminação de informações. “É preciso combater rótulos e estereótipos, trabalhar a conscientização de equipes de saúde e atendimento ao público em geral sobre como receber e tratar esses pacientes, com medidas como uso do nome social, por exemplo, de forma que esses pacientes não se sintam oprimidos ao buscar serviços”.
De acordo com a organização Politize!, a transfobia pode ser definida por qualquer ação ou comportamento que se baseia no medo, intolerância, rejeição, aversão, ódio ou discriminação às pessoas trans por conta de sua identidade de gênero. Isso significa que o comportamento transfóbico diz respeito a quaisquer agressões físicas, verbais ou psicológicas manifestadas com o intuito de coibir a expressão de gênero de transexuais e travestis.












