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Como experimentar novos hábitos pode te ajudar a lidar com a pandemia

A maneira como as pessoas lidam com os conflitos diz muito sobre a história de cada indivíduo e se cada um sairá da crise mais resiliente

atualizado 14/05/2021 18:42

Texto elaborado pelos estudantes de jornalismo do IDP Álef Midrei, Isac Mascarenhas, Nathália Mendes sob a supervisão das professoras Isa Stacciarino e Bárbara Lins 

O medo constante de ser infectado, o isolamento social e os longos períodos sem poder sair de casa com tranquilidade em decorrência do novo coronavírus, além de afetar as pessoas fisicamente, atingiram diretamente a saúde mental. Saiba como experimentar novos hábitos pode ajudar a lidar com a pandemia. 

Para esclarecer algumas dúvidas relacionadas aos efeitos que a pandemia trouxe à sociedade, a psicóloga Marina Crovador falou com os estudantes de Jornalismo do IDP sobre o impacto de novos hábitos para melhor a qualidade de vida.

A especialista sugere o autoconhecimento como determinante em momentos de calamidade, como o atual. Ela destacou que o cuidado em dormir bem, muitas vezes é negligenciado nesses períodos. “Sempre que possível, fique longe das telas. Principalmente, antes de dormir para ajudar na qualidade do sono”, afirma.

psicóloga Marina Crovador

Quais os primeiros sinais de que a saúde mental está sendo afetada na pandemia?

Tudo aquilo que fuja da normalidade, por exemplo: se você dormia bem à noite e começa a perder o sono; se a fome aumenta ou diminui drasticamente; se perdeu interesse por atividades que antes amava. Esses sintomas não, necessariamente, revelam problemas com a saúde mental, mas são sinais de alerta. 

Qual é o momento recomendado para procurar ajuda de um profissional de saúde? 

Costumo recomendar a psicoterapia em qualquer momento para as pessoas, porque ela faz bem para todos. Não precisa estar associada à doença ou problemas psicológicos. Hoje em dia, muitos procuram a psicoterapia por diversos motivos, visando o desenvolvimento emocional que trará benefícios em diversas áreas da vida.

Outro parâmetro para iniciar o processo terapêutico seria a análise pelo paciente de que as coisas saíram do controle e, neste momento, uma visão de um profissional o ajudaria a lidar com determinada situação. 

Na sua opinião, os pacientes se sentem mais confortáveis no atendimento presencial ou atualmente por consultas por videochamadas?

A maioria dos meus pacientes se adaptou muito bem com o atendimento on-line. Mas, existem aqueles que acabam não tendo condições de segurança, conforto e até mesmo sigilo para realizar a consulta no modelo on-line e por isso optam pelo presencial. 

No home office e no ensino à distância não existe o contato humano. Como a falta de convivência com outros colegas pode afetar o ser-humano a curto e longo prazo? 

Já fomos afetados. Ouço relatos de muitos pacientes que perderam muitos vínculos e sentem dificuldades em manter contatos novos ou antigos. De um lado, percebo que as pessoas estão sentindo muita a falta da socialização. Por outro, muitos têm medo do retorno após a pandemia, em como irão se configurar as novas relações. 

A educação em casa mexe ainda mais com as crianças. Como um ano on-line afeta o desenvolvimento cognitivo da criança? 

Afeta de diferentes maneiras, de forma positiva e negativa. Algumas relações afetivas melhoraram entre pais e filhos devido à proximidade estabelecida por mio do home office e das aulas on-line. 

Porém, vimos também muitos casos de estresse ocasionado devido aos mesmos fatores. Muitos pacientes me procuram por esses motivos e pedem ajuda no manejo das relações com filhos e cônjuges.

A socialização para a criança é muito importante e boa parte do aprendizado é realizado por meio desse componente. Assim como nós, adultos, já apresentamos alguma mudança no estabelecimento de relações, as crianças também. 

Você sentiu um aumento na demanda por tratamento terapêutico? 

Muito. Logo no início da pandemia, nos momentos mais tensos com lockdown, o aumento foi notório. Mas, há aqui um item interessante de observarmos: a maioria dos novos pacientes justificava a procura do atendimento devido à pandemia, entretanto, eram outros assuntos que estavam em evidência, o que me faz analisar que a pandemia pode ter sido a” última gota do copo que transbordou”, visto que a maioria, até então, nunca havia dado atenção à saúde mental e se viu quase que obrigada a olhar para ela com os resultados advindos da pandemia. 

Você sente que o modelo de atendimento remoto é prejudicial em relação ao tratamento terapêutico? 

De maneira nenhuma. Existem alguns itens importantes para o andamento de uma sessão com qualidade, como uma boa conexão com a internet e um ambiente onde o paciente se sinta tranquilo, mas com estes itens em ordem o atendimento costuma ser tão bom quanto o presencial. 

Quais hábitos uma pessoa pode cultivar durante esses tempos difíceis para facilitar os períodos de isolamento? 

O autoconhecimento é sempre determinante em momentos de calamidade como o que vivemos. Perceber mudanças em seus comportamentos, o que te ajuda ou atrapalha, o que traz paz e tranquilidade e o que te estressa. Tudo isso é essencial e diz respeito ao autoconhecimento, afinal só você pode saber o que é importante e necessário para seu bem estar.

Após isso, experimente. Experimente novos hábitos de maneira leve, teste novos hobbies e perceba coisas que te ajudam a passar o tempo com qualidade e leveza. Mas vá com calma com os novos hábitos, para que não virem mais um motivo para o excesso de cobrança. Lembre que agora não é o momento de mais peso em sua vida. 

Quais são as consequências do distanciamento social na pandemia? Isso impacta as pessoas mais jovens ou idosas? 

Relacionamentos fazem parte de um dos pilares para a nossa qualidade de vida, afinal, o homem não é uma ilha. Dessa forma, fomos afetados diretamente com o distanciamento. A maioria das formas de interação se tornaram remotas, impossibilitando ainda mais o contato direto. Acredito que já estamos nos adaptando à atual fase. Afinal, o primeiro susto já passou e passamos a elaborar muitas estratégias para lidar com o isolamento.

Entre jovens e idosos quem mais sofre são os idosos, visto que foram os mais atingidos e são os mais vulneráveis ao vírus. Eu convivo com minha avó de 80 anos e desde o início da pandemia ela tem ficado em casa, sem receber visitas e mudando completamente a rotina. Alguns dias ela apresenta sinais de tristeza, mas ainda assim ela parece ser uma pessoa com muita resiliência. 

Esse é outro ponto importante: a maneira como lidamos com conflitos diz muito sobre nossa história. Pessoas mais expostas à resolução de conflitos terão uma maior adaptabilidade a tempos ruins. Mas, de maneira geral, sairemos dessa crise muito mais resilientes.

 

O excesso de informações no período em que vivemos aumenta o sentimento de exaustão mental?

Nosso contato com o mundo agora é feito totalmente através das telas da TV, dos computadores e dos celulares. É quase impossível parar de utilizá-los. Enquanto isso, estamos recebendo todo o tipo de informações. Na maioria das vezes, informações que trazem sentimentos ruins e aumentam nosso desgaste mental. Uma dica é: sempre que possível, fique longe das telas. Principalmente, antes de dormir para ajudar na qualidade do sono.