Tácio Lorran

Em carta, líderes Yanomami criticam gestão Padilha por descaso na saúde

Em carta obtida pela coluna, representantes Yanomami também denunciam monopólio de empresa de deputada alvo da PF

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Ministério da Saúde/Divulgação
ministério da saúde terra yanomami servidores
1 de 1 ministério da saúde terra yanomami servidores - Foto: Ministério da Saúde/Divulgação

Representantes de sete associações ligadas ao povo Yanomami cobraram o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sobretudo o Ministério da Saúde e a respectiva Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), por uma série de negligências na gestão do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY), mostra carta obtida pela coluna. Há críticas quanto à gestão e à falta de transparência, entre outros pontos.

Segundo as lideranças, a pasta do ministro Alexandre Padilha (PT) tem excluído a coordenação do DSEI-YY de processos de decisão, principalmente em relação a contratações de profissionais via Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS), o que lhes tiraria a autonomia. A pré-seleção, com avaliação de currículo, ocorreria em Brasília – e a gestão, com sede em Boa Vista (RR), já receberia uma lista de nomes para entrevistas.

“Constata-se a ausência de autonomia administrativa e gerencial por parte do DSEI-YY, o qual, na prática, encontra-se impossibilitado de realizar contratações para cargos de confiança, medida indispensável à construção de uma política de saúde efetiva e culturalmente adequada”, diz a carta.
Em carta, líderes Yanomami criticam gestão Padilha por descaso na saúde - destaque galeria
10 imagens
Atendimento na terra yanomami
Área de garimpo na terra  Yanomami
FAB resgata indígenas durante ataque a terra Yanomami, em julho
Em carta, líderes Yanomami criticam gestão Padilha por descaso na saúde - imagem 5
Crianças Yanomamis com desnutrição grave apresentaram melhora
Em carta, líderes Yanomami criticam gestão Padilha por descaso na saúde - imagem 1
1 de 10

Atendimento na terra yanomami
2 de 10

Atendimento na terra yanomami

Reprodução/Fiocruz
Área de garimpo na terra  Yanomami
3 de 10

Área de garimpo na terra Yanomami

Evilene Paixao/Hutukara
FAB resgata indígenas durante ataque a terra Yanomami, em julho
4 de 10

FAB resgata indígenas durante ataque a terra Yanomami, em julho

Reprodução
Em carta, líderes Yanomami criticam gestão Padilha por descaso na saúde - imagem 5
5 de 10

Igor Evangelista/MS
Crianças Yanomamis com desnutrição grave apresentaram melhora
6 de 10

Crianças Yanomamis com desnutrição grave apresentaram melhora

Fernando Frazão/Agência Brasil
Grupo de cerca de 20 Yanomamis vive às margens da BR-174
7 de 10

Grupo de cerca de 20 Yanomamis vive às margens da BR-174

Rovena Rosa/Agência Brasil
Garimpo na terra Yanomami
8 de 10

Garimpo na terra Yanomami

Reprodução/Leo Otero - MPI
Garimpo ilegal na região
9 de 10

Garimpo ilegal na região

Reprodução/Leo Otero - MPI
Garimpo dentro de território Yanomami
10 de 10

Garimpo dentro de território Yanomami

Reprodução/Leo Otero/MPI

O ministério rebateu as informações, dizendo que a coordenação participa das decisões. “A seleção em curso de trabalhadores para o DSEI Yanomami atende às recomendações do Ministério Público do Trabalho (MPT) e Acordão do TCU para adequação do modelo de contratação desses profissionais. Os editais da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS foram construídos conjuntamente com os dirigentes do território e com a participação do controle social (Condisi), que mantêm atuação ativa no processo e autonomia na definição dos critérios de seleção”, informou, em nota.

As lideranças apontam, ainda, que não há dados de saúde em relação à Terra Indígena (TI) Yanomami e da contratação de funcionários e Agentes Indígenas de Saúde (AISS), tampouco das avaliações de desempenho dos profissionais:

“Não sabemos se estas avaliações estão sendo feitas, como estão sendo feitas, com qual frequência e parâmetros. Tal omissão compromete a nossa fiscalização da qualidade dos serviços prestados, tornando a gestão do DSEI-YY não apenas ineficaz, mas também refém de uma lógica de invisibilidade institucional que subverte o propósito de descentralização da política pública de saúde indígena”, destaca o documento.

A ausência de informações se estenderia ao centro de saúde em Surucucu, em Alto Alegre (RR), que vem de uma ação da Central Única das Favelas (Cufa) e da Frente Nacional Antirracista, com apoio da sociedade, de empresas e do governo – a pasta, no entanto, informou a previsão de entrega para setembro. Também afirmam que as obras da Casa de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana em Boa Vista (Casai-YY) estão abandonadas.

“Não sabemos seu nível de complexidade no atendimento, sua abrangência territorial, sua data de inauguração, e sua previsão de recebimento de materiais hospitalares e suprimentos. Não sabemos nem mesmo o nome do empreendimento!”, destacam os líderes quanto ao centro de saúde.

Como a coluna mostrou, haveria, ainda, um suposto monopólio da Voare Táxi Aéreo para realizar remoções aeromédicas, transportar profissionais e entregar insumos à TI Yanomami. A empresa é comandada pela deputada federal Helena da Asatur (MDB-RR) e pelo marido dela, o empresário Renildo Evangelista Lima, alvos da Polícia Federal (PF) por suspeita de crimes eleitorais no estado. À coluna, a pasta informou seguir a Lei de Licitações.

Os representantes alertam que a Voare teria a “prática abusiva” de aplicar multas ao DSEI por atrasos de pagamentos devido à demora na liberação da Lei Orçamentária Anual (LOA). A coluna de Paulo Cappelli, no Metrópoles, revelou que a empresa da parlamentar recebeu R$ 271 milhões em 17 contratos assinados desde o início do governo Lula. Do montante, R$ 96 milhões se deram em acordos sem licitação – o equivalente a 35,4%.

O grupo também alerta para a não implementação do Manual de Atendimento aos Indígenas Expostos ao Mercúrio, escrito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelos ministérios dos Povos Indígenas e da Saúde. O objetivo dele passa por nortear condutas clínicas e de vigilância diante do grave cenário de contaminação na TI Yanomami. A carta, porém, salienta que o documento está só no papel e que os profissionais em campo não receberam treinamento.

“Importa ressaltar que os recursos emergenciais alocados para a crise humanitária na TI Yanomami já se encontram esgotados, sem que tenha sido estruturada qualquer resposta duradoura para o atendimento da saúde. Diante desse quadro de desorganização e negligência, é imperativo que se promova a reestruturação do DSEI-YY, com o retorno ao modelo descentralizado de gestão baseado na experiência acumulada pela Saúde Urihi e outras conveniadas”, finalizam.

Assinam a carta os presidentes da Hutukara Associação Yanomami, Davi Kopenawa Yanomami; da Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma, Carlinha Lins Santos; da Wanasseduume Associação Ye’kwana, Júlio David Magalhães Rodrigues; da Urihi Associação Yanomami, Waihiri Hekurari Yanomami; da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e seus Afluentes, João da Silva Figueiredo; da Associação Parawami Yanomami, Tancredo Kepropeteri Yanomami; e da Associação Kurikama Yanomami, Zé Gadilha Xamatawteri Yanomami.

Procurados pela coluna, o Ministério e dos Povos Indígenas e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) encaminharam os questionamentos à Saúde.

Terra Yanomami

O Ministério da Saúde declarou em 2023 estado de emergência na região, alvo do garimpo ilegal, diante da crise da fome e da grande quantidade de casos de desnutrição, malária e Covid no povo Yanomami. Uma espécie de força-tarefa ministerial passou a atuar na região, com atuação das pastas dos Direitos Humanos, dos Povos Indígenas e da Defesa.

O que diz o Ministério da Saúde

Leia a íntegra da nota:

A seleção em curso de trabalhadores para o DSEI Yanomami atende às recomendações do Ministério Público do Trabalho (MPT) e Acordão do TCU para adequação do modelo de contratação desses profissionais. Os editais da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS foram construídos conjuntamente com os dirigentes do território e com a participação do controle social (Condisi), que mantêm atuação ativa no processo e autonomia na definição dos critérios de seleção.

Desde a declaração de emergência, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), ampliou em 158% a força de trabalho no território Yanomami – passou de 690, em 2023, para mais de 1,7 mil profissionais em atividade – e investiu no ano de 2024 mais de R$ 256 milhões na recuperação e expansão da infraestrutura. Foram reabertos sete polos-base, com todos os 37 em funcionamento, além de outras obras em andamento como a reforma da CASAI.

O Centro de Referência em Saúde Indígena de Surucucu, primeiro deste porte em território indígena, tem previsão de entrega até setembro deste ano. A Unidade de Retaguarda Hospitalar dos Povos Indígenas, vinculada ao Hospital da Universidade Federal de Roraima, está em funcionamento desde abril.

Com essas ações, o Ministério da Saúde avançou significativamente na assistência à população Yanomami, com a redução de 21% nos óbitos gerais e quedas expressivas nas mortes por malária (42%), infecções respiratórias (47%) e desnutrição (20%). As ações coordenadas refletem o compromisso em reverter a situação de desassistência deixada pelo governo anterior.

A contratação de empresa de transporte aéreo cumpre rigorosamente a Lei de Licitações, com o acompanhamento dos órgãos de controle.”

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?