Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Mario Sabino

Rodrigo Pacheco, enganado por Lula como Jacó no soneto de Camões

Tal como Jacó no poema, Pacheco passava os dias servindo Lula na esperança de um só dia e apenas a ela por prêmio pretendia: a vaga no STF

19/11/2025 10:55, atualizado 19/11/2025 14:39
Compartilhar notícia
Igo Estrela/Metrópoles @igoestrela
Imagem colorida mostra presidente lula e rodrigo pacheco - Metrópoles

Estava eu posto em sossego, pensando com os meus botões cada vez mais raros, quando concluí que o mineiro de Rondônia Rodrigo Pacheco é personagem de soneto.

Ele foi eleito presidente do Senado graças ao apoio do então presidente Jair Bolsonaro e às articulações de Davi Alcolumbre, cujo único partido é ele mesmo, no final das contas sempre gordas. Para os bolsonaristas, a eleição de Pacheco foi a vitória da democracia.

Uma vez no cargo, ele saiu do DEM e filiou-se ao PSD, de Gilberto Kassab, que achava que o senador mineiro de Rondônia, com o seu jeitão de cavalo de parada, poderia ser presidente da República ao agitar a bandeira da terceira via, que nunca passou de flâmula.

Pacheco não se candidatou ao Palácio do Planalto. Foi reeleito para presidência do Senado com o apoio de Lula e, outra vez, do estimável Davi Alcolumbre. Para os lulistas, a eleição de Pacheco foi a vitória da democracia.

Reconduzido à presidência do Senado, Pacheco defendeu o governo petista, segurou pedidos de impeachment de ministros do STF, vocalizou apoio à reeleição de Lula. Seguiu, enfim, o virtuoso caminho brasileiro da falta de convicções — ou das convicções substituíveis, não serei tão drástico.

É aí que entra o soneto. Tal como Jacó no soneto de Camões, Pacheco passava os dias servindo Lula na esperança de um só dia e apenas a ela por prêmio pretendia — a sua Raquel, serrana bela, era a indicação ao STF.

Lula, porém, usando da cautela ingrata de Labão, em lugar de Raquel lhe deu a Lia: a candidatura ao governo de Minas Gerais no ano que vem, destinada ao fracasso, a julgar pelas atuais condições de temperatura e pressão.

Vendo que com enganos lhe fora assim negada a sua pastora, Pacheco não se dispôs a começar de servir outros sete anos. Ao contrário de Jacó no soneto, pensa que para tão longo amor é, sim, tão curta a vida.

Amuado, ele disse a Lula que vai sair da política e se dedicar à advocacia. Para consolar Pacheco da perda de Raquel, o valioso Davi Alcolumbre promete que Lula pagará caro pela ingratidão de querer lhe dar a Lia. Mais caro.

Nem sempre a falta de convicções compensa para todo mundo. As convicções substituíveis, quero dizer.