
Mario SabinoColunas

Rodrigo Pacheco, enganado por Lula como Jacó no soneto de Camões
Tal como Jacó no poema, Pacheco passava os dias servindo Lula na esperança de um só dia e apenas a ela por prêmio pretendia: a vaga no STF
atualizado
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Estava eu posto em sossego, pensando com os meus botões cada vez mais raros, quando concluí que o mineiro de Rondônia Rodrigo Pacheco é personagem de soneto.
Ele foi eleito presidente do Senado graças ao apoio do então presidente Jair Bolsonaro e às articulações de Davi Alcolumbre, cujo único partido é ele mesmo, no final das contas sempre gordas. Para os bolsonaristas, a eleição de Pacheco foi a vitória da democracia.
Uma vez no cargo, ele saiu do DEM e filiou-se ao PSD, de Gilberto Kassab, que achava que o senador mineiro de Rondônia, com o seu jeitão de cavalo de parada, poderia ser presidente da República ao agitar a bandeira da terceira via, que nunca passou de flâmula.
Pacheco não se candidatou ao Palácio do Planalto. Foi reeleito para presidência do Senado com o apoio de Lula e, outra vez, do estimável Davi Alcolumbre. Para os lulistas, a eleição de Pacheco foi a vitória da democracia.
Reconduzido à presidência do Senado, Pacheco defendeu o governo petista, segurou pedidos de impeachment de ministros do STF, vocalizou apoio à reeleição de Lula. Seguiu, enfim, o virtuoso caminho brasileiro da falta de convicções — ou das convicções substituíveis, não serei tão drástico.
É aí que entra o soneto. Tal como Jacó no soneto de Camões, Pacheco passava os dias servindo Lula na esperança de um só dia e apenas a ela por prêmio pretendia — a sua Raquel, serrana bela, era a indicação ao STF.
Lula, porém, usando da cautela ingrata de Labão, em lugar de Raquel lhe deu a Lia: a candidatura ao governo de Minas Gerais no ano que vem, destinada ao fracasso, a julgar pelas atuais condições de temperatura e pressão.
Vendo que com enganos lhe fora assim negada a sua pastora, Pacheco não se dispôs a começar de servir outros sete anos. Ao contrário de Jacó no soneto, pensa que para tão longo amor é, sim, tão curta a vida.
Amuado, ele disse a Lula que vai sair da política e se dedicar à advocacia. Para consolar Pacheco da perda de Raquel, o valioso Davi Alcolumbre promete que Lula pagará caro pela ingratidão de querer lhe dar a Lia. Mais caro.
Nem sempre a falta de convicções compensa para todo mundo. As convicções substituíveis, quero dizer.