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Javier Milei: viva la idiotez, carajo

Com Javier Milei ou sem ele, o argentino será um italiano que pensa ser inglês, fala espanhol e vai rumo à pobreza boliviana

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Imagem colorida mostra Javier Milei posando para foto em uma entrevista - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra Javier Milei posando para foto em uma entrevista - Metrópoles - Foto: Tomas Cuesta/Getty Images

A Argentina poderá fazer mais uma contribuição para a galeria dos perfeitos idiotas latino-americanos, embora a figura em questão não se enquadre ideologicamente como perfeito idiota latino-americano, na definição do manual escrito por Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa. A contribuição é Javier Milei, que pode se tornar presidente do nosso triste vizinho. Ele não é de esquerda, mas honra a tradição da perfeita idiotice em tão mavioso subcontinente.

Boa parte dos eleitores argentinos, principalmente os jovens, querem tirar o peronismo do poder e apagar da memória as opções já tentadas sem sucesso até agora. O que deu o peronismo à Argentina, com os seus perfeitos idiotas latino-americanos? Decadência e pobreza. O que deu a ditadura militar à Argentina? Mais decadência e pobreza (e milhares de oposicionistas torturados e mortos). O que deu a centro-direita à Argentina? Outro tanto de decadência e pobreza.

O que dará Javier Milei à Argentina, caso seja eleito? Muito bem, você foi condicionado pelo parágrafo acima a responder certo de imediato. O receituário dele é a de um libertário, a de um anarcocapitalista, com pitadas de direitismo, principalmente no campo do comportamento, em flerte com a extrema direita. 

Para solucionar a permanente — eu diria quase imanente — inflação argentina, ele quer dolarizar oficialmente a economia. Se ninguém quiser ter pesos na Argentina, a pergunta é ‘quanto os pesos valem em termos reais’? Ninguém os quer, não estamos falando de água no meio do deserto. Estamos falando de algo que ninguém quer, disse Javier Milei.

O libertário também quer abolir o banco central do país, já que, se a verdadeira moeda argentina passar a ser o dólar, a política monetária da Argentina será ditada pelo Federal Reserve americano. “Os bancos centrais estão divididos em 4 categorias: os ruins, como o Federal Reserve, os muito ruins, como os da América Latina, os terrivelmente ruins e o banco central da Argentina”, afirmou ele. Ou seja, a polícia monetária da Argentina passaria a ser apenas ruim. Reconheçamos que o sujeito é divertido.

Javier Milei espera que, com a dolarização, a inflação baixe a patamares aceitáveis e que as centenas de bilhões de dólares que os argentinos mantêm debaixo do colchão ou no exterior voltem a circular no país, na forma de investimentos. 

A inflação até poderá baixar no início, mas depois ela voltará a subir, porque as suas causas primárias não serão atacadas. E será difícil convencer os argentinos com reservas em dólares a acreditar em um país latino-americano que não acredita em ter a própria moeda nacional.

Os experimentos de dolarização da economia argentina não deram certo em passado não tão longínquo e, assim como todos os experimentos que não deram certo em condições idênticas, a sua repetição é garantia de que também dará errado em futuro próximo ou distante.

O receituário de Javier Milei é ultrapassado, mas comove massas ignaras de história. A originalidade dele está na sua forma despenteada em todos os sentidos. Ele tem cara de maluco, fala como maluco e age como maluco. O seu slogan, Viva la libertad, carajo!, faz a juventude delirar. É um ótimo slogan para shows de rock, mas política não é rock.

Apoiado por Jair Bolsonaro (et pour cause), Javier Milei pode estar apenas fingindo que é maluco para ganhar votos de gente que não suporta mais o peronismo, representado por Sergio Massa, o ministro da ex-economia argentina apoiado por Lula e o PT, e a centro-direita tradicional na sua incompetência, representada por Patricia Bullrich. Mas quem finge o tempo todo que é maluco acaba maluco, o que torna a maluquice um método idiota. Com qualquer um desses candidatos eleito presidente, o argentino será um italiano que pensa que é inglês, fala espanhol e está no caminho seguro para a pobreza boliviana. Viva la idiotez, carajo.

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