O primeiro amigo: DNA revela cães ao lado do homem há 15.800 anos
Pesquisas genômicas em sítios arqueológicos revelam que o elo entre humanos e cães resistiu a extinções em massa e mudanças climáticas

A história da civilização costuma ser contada a partir da agricultura, mas a genética acaba de provar que a alcateia se uniu à tribo muito antes da primeira semente ser plantada. Enquanto nossos ancestrais ainda dividiam o horizonte com animais colossais como o rinoceronte-lanudo e o urso-das-cavernas, a cadelinha de Pinarbaşi, na Turquia, já era o que hoje chamamos de “pet“.
Entenda a profundidade da descoberta:
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Fim do dilema lobo vs. cão: a genômica permitiu distinguir o que a morfologia dos ossos não conseguia, confirmando que há 15.800 anos a transição biológica do lobo para o cão já estava consolidada.
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Resistência evolutiva: diferente de gigantes da Era do Gelo que foram extintos (como os mamutes), a parceria humano-canina sobreviveu a transformações drásticas de clima e cultura.
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Geografia da domesticação: os dados sugerem que o “berço” canino está na Ásia (Sibéria ou Ásia Central), onde a diversidade genética atual ainda é maior.
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Medicina comparada: o mapeamento desses genomas antigos ajuda a entender doenças modernas, como o câncer, que afligem tanto humanos quanto cães.
O processo de domesticação: muito além de amansar
Para a ciência, domesticar não é um ato de adestramento individual, mas uma reengenharia biológica de gerações. De acordo com os estudos publicados na Nature, esse processo alterou comportamentos instintivos e características físicas para que o lobo desse lugar a uma nova espécie: o Canis lupus familiaris.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO uso de técnicas de “pescaria” de DNA antigo pelo Instituto Francis Crick permitiu identificar 14 cães entre 130 amostras de fragmentos ósseos. A proximidade genética entre os animais da Turquia, Inglaterra (Caverna Gough) e Suíça (Kesslerloch) indica que, há 14 mil anos, uma população de cães já estava distribuída por milhares de quilômetros, acompanhando grupos de caçadores-coletores nômades.
O mistério das américas e as raças pré-colombianas
Os estudos também iluminam o destino dos cães no Novo Mundo. Sabe-se que os primeiros humanos a cruzar a ponte de terra de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, trouxeram seus cães. Embora essa linhagem original tenha desaparecido quase por completo com a chegada dos colonizadores europeus, vestígios genéticos sobrevivem:
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Cão pelado do Peru e Xoloitzcuintli (México): estas raças podem ser as herdeiras diretas desses pioneiros extintos, preservando uma variação genética única no planeta.
Ritos e símbolos: a família multiespécie
As escavações trouxeram à tona o lado emocional e ritualístico dessa união. Na Caverna Gough, o tratamento dado aos ossos de cães — com perfurações decorativas — espelha o tratamento dado aos restos humanos, sugerindo que o cão possuía um valor simbólico quase espiritual.
Na Turquia, o enterro intencional de cães sobre corpos humanos reforça que a morte não rompia o vínculo. “Os cães não se importam muito com a cultura à qual estão ligados”, observa o geneticista Adam Boyko, da Universidade de Cornell. Seja em uma tribo que caçava mamutes ou em um apartamento moderno, o fio de DNA que liga o Border Collie atual à cadelinha de Pinarbaşi permanece ininterrupto.

O desafio agora, como aponta o geneticista Lachie Scarsbrook, da Universidade Ludwig Maximilian, é encontrar o local exato da “primeira faísca” em algum lugar da vastidão asiática, onde o primeiro lobo decidiu trocar a floresta pelo calor da fogueira humana.























