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Estudo associa adoçantes a declínio cognitivo; neurologista explica
O médico Marcos Alexandre fez apontamentos sobre o estudo que investiga a associação entre o consumo de adoçantes e o declínio cognitivo
atualizado
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Quem tem o objetivo de emagrecer, por vezes, opta por substituir o consumo de açúcar por adoçantes. Entretanto, é preciso cautela quanto à ingestão dessas substâncias, conforme demonstrou um estudo brasileiro publicado na revista acadêmica Neurology no início deste mês. A pesquisa foi conduzida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Intitulado Associação entre o consumo de adoçantes artificiais de baixa e nenhuma caloria e declínio cognitivo, o estudo investiga a relação entre ingerir essas substâncias batizadas de LNCSs e a redução gradual das funções mentais. A pesquisa avaliou os dados de servidores públicos com 35 anos ou mais que estavam inscritos no Estudos Longitudinal Brasileiro de Saúde do Adulto.
Ao todo, mais de 12 mil pessoas participaram da pesquisa e tiveram a saúde analisada por três períodos, entre 2008 a 2010; 2012 a 2014; e 2017 a 2019. Na parte dos resultados, os autores do estudo pontuaram: “O consumo de aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, sorbitol e xilitol foi associado a um declínio mais rápido na cognição global, particularmente nos domínios da memória e da fluência verbal.”

“O consumo de LNCSs foi associado a uma taxa acelerada de declínio cognitivo durante oito anos de acompanhamento. Nossos achados sugerem a possibilidade de danos a longo prazo do consumo de LNCSs, particularmente LNCSs artificiais e álcoois de açúcar, na função cognitiva. As limitações do estudo incluem dados alimentares autorrelatados, viés de seleção por atrito e fatores de confusão residuais decorrentes de comportamentos de saúde concomitantes”, salientaram os responsáveis pela investigação no artigo publicado pela Neurology.
Avaliação do neurologista
Diante das conclusões da investigação, a coluna Claudia Meireles conversou com o neurologista Marcos Alexandre. Questionado sobre como a ingestão de LNCSs pode interferir no funcionamento do cérebro, o médico explicou que o estudo estabelece uma “associação estatística” entre o consumo elevado de adoçantes de baixa ou nenhuma caloria e um declínio cognitivo mais rápido.
“É fundamental notar que a pesquisa não especifica nem elucida os mecanismos biológicos pelos quais essa interferência ocorreria, tampouco estabelece uma relação de causalidade direta. A ‘interferência’ mencionada refere-se estritamente a uma correlação observada, e não a um processo explicativo detalhado pelo estudo”, ressaltou o especialista.

De acordo com o neurologista do Hospital Mater Dei Goiânia, a ingestão mais alta de adoçantes de baixa ou nenhuma caloria foi associada a quedas mais rápidas em domínios cognitivos específicos, como cognição global, memória e fluência verbal. “O estudo quantifica essa perda de desempenho, comparando-a a um ritmo de envelhecimento cerebral mais acelerado em relação a indivíduos com menor consumo”, esclareceu.
“O estudo não abordou nem investigou alterações estruturais ou fisiológicas no cérebro; seu foco restringe-se ao desempenho cognitivo mensurável ao longo do tempo”, argumentou Marcos Alexandre.

Em relação aos sete adoçantes analisados — aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, xilitol, sorbitol e tagatose —, o especialista acentuou que apenas a tagatose não integrou o quadro de substâncias relacionadas a um declínio cognitivo mais rápido. Perguntado se há uma fórmula que possa ser considerada a pior para o cérebro, ele sustentou que a pesquisa “não compara as magnitudes exatas” entre esses adoçantes.
“Portanto, não é possível identificar um ‘pior’ adoçante específico com base nestes achados. Todos apresentaram uma associação negativa semelhante em termos de impacto cognitivo”, enfatizou o médico. Como a investigação se limita a correlacionar a ingestão total de LNCSs com a velocidade de declínio cognitivo, é necessário novos estudos para saber como a composição dessas fórmulas afetam o funcionamento do cérebro.
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