
Claudia MeirelesColunas

Abril Azul: os dentistas e as adaptações para as pessoas autistas
Hipersensibilidade sensorial, dificuldade de adaptação e falta de preparo das equipes ainda afastam pacientes autistas dos consultórios
atualizado
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Mesmo com o avanço das discussões sobre inclusão e acessibilidade, um desafio ainda pouco debatido segue afetando a rotina de milhares de famílias: o acesso de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a atendimentos de saúde considerados básicos. Entre eles, a consulta odontológica aparece como um dos exemplos mais evidentes de como o cuidado ainda pode esbarrar em barreiras estruturais.
“Pacientes com autismo apresentam características neurológicas e comportamentais que exigem adaptações no atendimento odontológico. A rigidez com mudanças de rotina, dificuldades de comunicação e o transtorno de integração sensorial estão entre os principais desafios”, explica a cirurgiã dentista Lais David Amaral, especialista em odontologia para pacientes com necessidades especiais, odontopediatria e pós-graduada em TEA.

Luz forte, ruídos constantes, cheiros marcantes, estímulos táteis e mudanças bruscas de rotina fazem com que o ambiente do consultório odontológico seja, para muitos pacientes dentro do espectro, um espaço de sobrecarga sensorial. Na prática, isso pode transformar uma consulta simples em uma experiência de ansiedade, resistência e, em alguns casos, até evasão.
“O consultório reúne muitos estímulos ao mesmo tempo — sons, luz, cheiros, toque — além de procedimentos invasivos, o que pode aumentar a ansiedade e gerar comportamentos de esquiva”, explica a psicóloga Natali Aparecida Moleiro, especialista em TEA.
A odontopediatra Lais compartilhou um exemplo de situações vividas no consultório: “Já atendi um paciente que não tolerava instrumentos frios na boca. Foi preciso aquecer todos antes do uso. Sem essa adaptação, o atendimento não seria possível.”
O desafio começa antes da consulta
No caso da odontologia, o problema vai muito além do procedimento clínico. Para pessoas com TEA, a dificuldade pode começar antes mesmo de sentar na cadeira do dentista. Ambientes barulhentos, tempo de espera prolongado, comunicação pouco acessível e falta de previsibilidade tornam a experiência desgastante tanto para o paciente quanto para a família.
“Muitas famílias acabam adiando o atendimento por conta de experiências negativas anteriores, dificuldade no manejo durante a consulta e pela percepção de despreparo de alguns serviços”, afirma Natali.
Segundo a especialista, comportamentos considerados difíceis durante o atendimento muitas vezes estão ligados a desconfortos sensoriais ou à dificuldade de compreender o que está acontecendo.
“O atendimento precisa ser mais individualizado, com planejamento prévio e adaptação ao perfil de cada paciente”, diz a psicóloga.
No mesmo sentido, a dentista especializada em TEA, Lais, acrescenta:
“O mesmo paciente pode apresentar hipersensibilidade em alguns estímulos e respostas diferentes em outros. Por isso, o atendimento precisa ser individualizado.”


Quando o acolhimento vira prática
Diante desse cenário, parte do setor começa a buscar soluções mais estruturadas. Algumas clínicas e redes têm investido na criação de protocolos internos para orientar equipes e tornar o atendimento mais previsível.
Foi a partir dessa demanda que clínicas começaram a transformar práticas pontuais em um protocolo interno de atendimento a pacientes com TEA.
“Nos treinamentos, as equipes começaram a trazer com frequência a dúvida de como lidar da melhor forma com esses pacientes”, afirma Caroline Guimarães Gil de Araújo, coordenadora de Treinamento e Desenvolvimento da OrthoDontic.
Na prática, as orientações incluem desde ajustes na comunicação até a redução de estímulos sensoriais e a organização do atendimento em etapas mais previsíveis.

O primeiro passo é o dentista ‘pensar fora da caixa’. Nem sempre o atendimento precisa acontecer de maneira tradicional. O importante é oferecer algo que traga conforto.
Lais David Amaral
Previsibilidade e adaptação fazem diferença
Para especialistas, pequenas mudanças já podem ter impacto significativo na experiência do paciente. Entre elas estão a preparação prévia, o uso de recursos visuais para explicar cada etapa, a divisão do atendimento em partes menores e a possibilidade de pausas durante a consulta.
“A previsibilidade é um dos pilares nesse tipo de atendimento. Quando o paciente entende o que vai acontecer, a ansiedade diminui e a cooperação tende a aumentar”, explica Natali.
A comunicação também é um fator-chave. “Ela precisa ser clara, objetiva e adaptada ao nível de compreensão do paciente. Demonstrar o que será feito antes de iniciar ajuda a reduzir a ansiedade”, completa.

Inclusão ainda é desafio na saúde
Embora o Abril Azul ajude a dar visibilidade ao tema, especialistas apontam que o avanço na inclusão depende de mudanças mais estruturais na forma como os serviços de saúde são organizados.
“É necessário capacitar as equipes, adaptar os ambientes e criar protocolos individualizados. Medidas simples, como reduzir ruídos, ajustar a iluminação e permitir pausas, já ajudam a tornar o atendimento mais acolhedor e eficaz”, diz a psicóloga.
“A odontopediatria costuma acolher bem crianças com TEA, mas muitos adultos, especialmente com maior comprometimento, acabam desassistidos. Ainda são poucos os dentistas preparados para esse tipo de atendimento no Brasil, o que reforça a necessidade de formação e ampliação do acesso”, concluiu a cirurgiã dentista, Lais.
No fim, o debate escancara uma realidade: inclusão, na prática, começa quando o ambiente deixa de ser uma barreira — e passa a ser parte da solução.
