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O teórico do cinema Edward Buscombe situa o gênero do faroeste dentro de um conflito definidor entre selvageria e civilização. O cowboy seria o agente intermediador desses dois universos. A parábola do Velho Oeste, com seus personagens arquetípicos, estaria aí até hoje para substanciar um mito de origem bem visível para a nação norte-americana.

Os melhores faroestes conseguiriam embaralhar essa dualidade. No início, os indígenas é que precisam ser civilizados. A construção de escolas, prisões e prefeituras demarcam esse pacto civilizatório. Porém, no fim das contas, o colonizador é que precisa aprender com os índios. O cowboy estaria entre essas duas instâncias, fazendo a ponte cultural para cumprir os processos.

Faroeste: fronteira entre selvageria e civilização. Filme: “Rastros de Ódio” (John Ford, 1956)

Na semana passada, falei sobre “Dylan Dog” e o fumetti bonelliano, quadrinho italiano de banca popular aqui no Brasil. Hoje é dia de falar do “patrono” do fumetti, mito fundador de toda uma tradição sólida de quadrinhos no mundo inteiro, o cowboy/ranger Tex Willer. O motivo para a celebração é o lançamento, pela editora Salvat, de uma robusta coleção em capa dura (“Tex Gold”), com 60 edições especiais, que chegarão às bancas (espera-se) quinzenalmente.
O material vem de coleções especiais (conhecidas na Itália como “Il Texone”) que geralmente contemplam magníficos ilustradores convidados, como o argentino Enrique Breccia, o espanhol José Ortiz e o americano Joe Kubert. A primeira edição, já disponível nas bancas de Brasília, foi publicada originalmente em 2007 e traz roteiros do tradicionalíssimo Claudio Nizzi (um dos maiores argumentistas dos quadrinhos) e a arte sofisticada do italiano Corrado Mastantuono.

“Tex” foi criado em 1948 pelo patriarca da família Bonelli (Gian Luigi) e foi ilustrado durante anos pelo homem que desenvolveu seu design, Aurelio Galleppini (Galep). No Brasil, começou a ser publicado em 1951 na revista “Junior”. A editora Vecchi apresentou a série regular a partir de 1971 e, desde então, mesmo trocando algumas vezes de casa, a trama nunca deixou de ser publicada, mantendo a numeração original.

A paulista Mythos é quem detém os direitos do personagem desde 1999 e mantém as publicações até hoje. A série regular possui mais de 600 números, e 13 títulos distintos (entre reedições, edições gigantes, especiais, etc.) saem todos os anos, em diferentes periodicidades.

Para quem nunca leu “Tex”, basta dizer que, de certa forma, ele representa o ideal arquetípico do faroeste preconizado por Buscombe. Mesmo um pouco “engessado” por certa fórmula de cavalaria maniqueísta (neste sentido vale procurar os mais “sofisticados” fumettis de faroeste “Ken Parker” e “Mágico Vento”), está lá a problematização do espaço de conflito entre certa “naturalidade” (as diversas tribos indígenas e suas diferentes relações) e o avanço desenfreado do processo colonizador (cidades, ferrovias, instituições).

“Júnior” Nº 1 (1951): primeira publicação de Tex no Brasil

Tex, um ranger que teve um filho com uma índia Navajo, discerne as duas vias por meio de um senso ético indistinto. Com frieza e sobriedade, sempre faz o “certo” acima de qualquer ambiguidade mais complexa. E o faz com a competência de um super-herói. Raramente erra um tiro. Poucas vezes foi ferido. Trata-se, é claro, de um clássico gibi de aventura.

O Profeta Indígena
“O Profeta Indígena”, a história da primeira edição da coleção, narra a trajetória de um membro da etnia dos índios Hualpais que tem uma visão sobre a unificação de todas as tribos para eliminar a ameaça do homem branco. Ele se torna uma forte liderança e sua congregação balança o tênue equilíbrio entre brancos e indígenas no Norte do Arizona. Como ranger, Tex e seus colegas se envolvem em uma missão para impedir que um grande carregamento de armas chegue até os Hualpais.

O roteirista italiano Claudio Nizzi escreve Tex desde os anos 1980 – aos poucos foi substituindo o segundo na dinastia Bonelli (Sergio) –, e “O Profeta Indígena” é um arrojado exemplo de sua técnica de roteirizar gibis de aventura. São duzentas páginas de armadilhas, lutas, perseguições, trapaças e jogos de gato e rato. Os personagens possuem espaço e tempo para desenvolverem nuances, carisma, traços distinguíveis.

Não apenas complementando as palavras do roteirista, mas encarnando uma visualidade detalhada e milimétrica, Corrado Mastantuono é o responsável por tornar esta edição uma pequena obra-prima, com ilustrações finas de potentes cavalgadas, tiroteios vívidos, paisagens realistas e espetaculares. São visões dramáticas e panorâmicas, às vezes com dezenas de ações ocorrendo no mesmo quadro.


A química precisa entre Nizzi e Mastantuono, certamente, foi um elemento que chamou a atenção para se escolher essa história para o primeiro volume da Salvat. Há quem ache o colorido por computador (um tanto saturado, especialmente no amarelo berrante de Tex) desprezível, mas eu aprovei a chegada dessa miríade de brilho e beleza a um quadrinho tradicionalmente preto e branco.

O diálogo com o mito fundacional do faroeste com certeza é uma das chaves para se compreender a perenidade de um quadrinho como Tex. Em uma época em que mesmo o cinema americano rejeita o western, essa pedra fundamental da HQ italiana regride o gênero à sua essência simbólica, com simplicidade, efetividade e o principal: desenhos e histórias cativantes. Deve ser a fórmula da juventude para esta quase septuagenária publicação.



 


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