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O projeto BSB Plano das Artes esquentou o cenário do Distrito Federal no último final de semana. Entre os dias 2, 3 e 4 de março, galerias ganharam um gás na programação, ateliês abriram as portas para o público e vans circularam pelas cidades do DF traçando com suas rotas um mapa assaz palpável das artes visuais brasilienses.

No episódio anterior da Plástica, antecipando o agito, visitamos os ateliês da chamada Babilônia Norte. Desta feita, já dentro da programação regular do BSB Plano das Artes, embarcamos em duas das rotas previamente estipuladas pela produção do evento.

A rota azul passava pela Gruta, na 715 Norte, e atingia a Galeria ManOObra, em Sobradinho. A rota magenta buscava a Galeria Olho de Águia, Taguatinga, e seguia até a Pilastra, Guará. Ambas as vans partindo do Cine Brasília e para ali retornando após a viagem. Oferecidos gratuitamente durante os três dias do programa, o primeiro itinerário foi cumprido pela coluna na manhã da sexta-feira 2 de março e o segundo, na tarde do mesmo dia.

Um dia de aventuras, rodando pelo Distrito Federal, das dez da manhã até as oito da noite, com paradas para almoço e jantar, uma horinha de descanso entre os embarques e, claro, um par de congestionamentos, afinal esta já não é mais aquela tão planejada capital de Lucio Costa & Oscar Niemeyer. Mas nada que abalasse o ânimo dos entusiastas da arte contemporânea.

 

O barato da Gruta, é a cumplicidade que se percebe de imediato ao entrar pela casa da 715 Norte. Cada espacinho do imóvel foi modificado e adaptado para as necessidades individuais de um grupo de jovens artistas mulheres que ali trabalha desde o ano passado. Cada uma em sua atividade, cada qual em seu canto. Mas elas todas trocando influências, informações e parcerias.

Um dos quartos, assim, se tornou a oficina onde Taís Koshino e Livia Viganó mantêm a editora Piqui e a Fuio Printshop, com impressões em risografia (uma técnica japonesa de baixo custo e ecologicamente correta). No quarto ao lado, Camila Ligabue produz joias artesanais em metal. Mais adiante, a quadrinista LoveLove6 tem seu ateliê de desenho. As marcas de roupas e acessórios Pântano de Manga, Brilha e Cajuí são desenvolvidas na casa. Taís trabalha também com tatuagem, ao lado de Kyka Lyka.

A garagem da casa foi transformada em área de convívio e, pelo menos para aqueles dias de visita, espaço expositivo, com alguns trabalhos das artistas da Gruta. Os traços desses desenhos ressurgem nas revistas em quadrinhos e também nas araras de roupas, agora transformados em estampas para as blusas. Num exemplo bem evidente da parceria entre elas.

 

Seis quilômetros além do Balão do Colorado, contornando Sobradinho, a van atinge o condomínio Vila Rosada, no setor habitacional Contagem. José Ivacy mora por ali desde 1989 e, dez anos mais tarde, levantou uma casa de três patamares para servir, ao mesmo tempo, de residência, de estúdio pessoal e de galeria de arte.

A ManOObra já tinha participado da mostra ondeandaonda II, organizada por Wagner Barja no Museu Nacional Honestino Guimarães no final de 2016, e começou a funcionar como espaço expositivo regular ao longo do ano passado. Dias antes do BSB Plano das Artes, Ivacy abriu uma exposição de assumido caráter autobiográfico, arTEafeto, reunindo colegas com quem tem mantido parceria ou percebido afinidades ao longo de sua trajetória artística. Gente como Glenio Lima, Fernanda Pacca, Renato Matos e Rubem Valentim. Bené Fonteles ganhou uma sala só para si.

José Ivacy vive e trabalha em Sobradinho, onde vem dando aulas de arte para alunos do ensino público desde a década de 1980. Alguns trabalhos dessas crianças ele guarda com especial carinho, num amplo estúdio no terceiro andar da casa. Num outro pedaço do lote, num clima relax de sítio, Ivacy mantém uma oficina em que junta pedaços de madeira e de metal, jogados fora e recolhidos de construções, para se tornarem matéria-prima de suas obras.

 

Se a manhã de sexta-feira terminou com certo ar bucólico, graças à natureza que cerca a arte contemporânea na ManOObra, a viagem da tarde apresenta cenário urbano: a praça da CNF de Taguatinga, onde no térreo do Edifício Praiamar funciona, desde 2002, a Galeria Olho de Águia.

Fotojornalista e empreendedor, Ivaldo Cavalcante fez daquele espaço uma projeção física de seus interesses pessoais. Trata-se, portanto, de uma galeria de arte que é um bar, que é uma balada roqueira, que é um espaço para se falar de cinema, arte e fotografia, tudo ao mesmo tempo, tudo até de madrugada. De um lado da casa, funciona o Bar Faixa de Gaza. Discos de vinil, revistas e livros, na biblioteca que leva o nome do fotógrafo Gervásio Baptista, garantem assunto para as conversas. Uma mesa de bilhar. Um palco para música (rock!) ao vivo.

Na parede oposta ao balcão do bar, inteiramente pintada de preto, como convém a um pub de rock, a Galeria Olho de Águia, propriamente dita, tem sempre em cartaz um artista de Taguatinga. Este mês, Tatiane Kueila. Inspirada no imaginário pop, ela retrata ídolos como David Bowie, Amy Winehouse e os Beatles entre a psicodelia e o surrealismo. Num recôndito da casa, uma luz negra empresta pulso extra às pinturas.

 

Fechando o roteiro de viagem da coluna Plástica, a Pilastra surge colorida como a bandeira arco-íris a tremular ao fim de tarde, na sacadinha de uma sobreloja, numa rua dominada por oficinas mecânicas, graxa e fuligem.

Fundada em outubro e coordenada por Mateus Lucena e Iana Chadwick, a Pilastra é o mais recente espaço deste roteiro e se apresenta como centro de resistência e de referência para artistas da periferia – que muitas vezes não encontram vez no circuito do Plano Piloto -, oferecendo espaço para exposições e performances, além de oficinas de fotografia e workshops sobre produção.

Ao longo dos três dias de BSB Plano das Artes, a Pilastra fez justamente um intensivão disso tudo. Enquanto artistas amigos como Bia Leite deixavam obras em cartaz para os visitantes, mil coisas aconteciam. Na sexta, dois dos maiores aposentos da sobreloja foram ocupados por tatuadores em atividade frenética. No sábado, performances. No domingo, oficina de lambe. O entra e sai constante, de amigos e visitantes, fazendo da casa um ponto de encontro.

E vale dizer que a caipirinha de Mateus Lucena foi mui elogiada.



BSB Plano das Artes
 


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