Mas o que justifica consumos tão grandes de recursos? Para criar os textos e imagens com a rapidez que os serviços oferecem, é preciso investir pesado em data centers. Eles processam o que armazenamos em nuvem, os filmes que assistimos no streaming e os nossos prompts de IA, tudo ao mesmo tempo. E você já deve ter reparado como seu computador pessoal aquece quando você quer que ele execute várias coisas ao mesmo tempo.
“Eles funcionam como grandes centrais de processamento e armazenamento de dados, garantindo que serviços digitais como redes sociais, e-mails, sistemas corporativos, streaming e agora também as inteligências artificiais estejam sempre disponíveis e operando com eficiência”, explica Marcelo Henrique Casali, especialista em Gestão de Tecnologia de Informação (TI) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Casali escreveu um trabalho sobre os impactos na sustentabilidade ambiental desses data centers indicando como eles estão se aproveitando de brechas legais para se espalhar pelo mundo trazendo impactos para as zonas onde ficam sem se reverter em benefícios econômicos tradicionais, como emprego ou aumento de impostos.
“Não há normas específicas que obriguem os operadores a divulgar o consumo hídrico ou a adotar tecnologias mais eficientes do ponto de vista ambiental e mesmo os membros de órgãos reguladores têm dificuldade de entender a complexidade e o impacto dessas estruturas nas suas áreas de atuação”, exemplifica.
Quanta água gasta resfriar um data center?
Resfriar esses data centers gigantescos exige quantidades enormes de água. Sistemas de resfriamento exigem eletricidade constante e, em muitos casos, utilizam grandes volumes de água potável para dissipar calor gerado pelos equipamentos em torres de resfriamento evaporativo. Além disso, eles estão instalados em áreas que usam, em sua maioria, energia hidrelétrica, o que aumenta a pressão sobre recursos de água.
Estima-se que com isso o ChatGPT gaste em média 25 milhões de litros de água por dia para responder o um bilhão de pedidos que recebe diariamente. E quanto mais interações, mais água ele irá gastar. Este número, porém, não é claro, já que menos de um terço das instalações de data centers divulga dados de consumo hídrico e menos ainda têm metas de sustentabilidade.
O consumo energético segue padrão semelhante. Data centers dependem de fornecimento contínuo de eletricidade para servidores e sistemas auxiliares, sendo que os de porte médio consomem mais energia que mil residências somadas. Estruturas maiores podem atingir patamar comparável a dez mil ou até cinquenta mil casas. O Departamento de Energia dos Estados Unidos estima que os data centers passem a consumir algo entre 6,7% e 12% de todo o gasto elétrico do país até 2028, o que equivale a 325 a 580 TWh.
“Em um cenário de intensificação das mudanças climáticas, com maior frequência de secas severas e eventos climáticos extremos, a presença de consumidores intensivos de água pode agravar pressões já existentes sobre os recursos hídricos”, alerta o professor Daniel Caixeta Andrade, do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Além do consumo de recursos, data centers trazem outras preocupações ambientais como a dos níveis de barulho que provocam
Outros impactos para o meio-ambiente
Além de água e energia, outros efeitos aparecem. A substituição periódica de equipamentos gera resíduos eletrônicos. Populações que vivem próximas dessas áreas reclamam da poluição sonora dos computadores 24 horas operando em um nível de ruído de 80 decibéis, superior ao de um ventilador ligado em velocidade máxima ininterruptamente.
A sustentabilidade surge como preocupação central das empresas. Novos projetos prometem trocar sistemas de resfriamento líquido por outros que usem óleos ou géis, ou adotar resfriamentos por ar, reaproveitamento de calor ou se instalando em regiões de clima frio, incluindo aí até o fundo dos oceanos e o espaço. Ainda assim, essas medidas são para mitigar os impactos, mas não acabarão totalmente com eles.
Toda atividade econômica tem algum tipo de impacto socioambiental, lembra Andrade. “Algo é ‘sustentável’ em relação a algum parâmetro de referência, por exemplo uma tecnologia mais antiga e com menor eficiência. Entretanto, isso não significa que não exista um impacto ambiental significativo, apenas que o impacto daquilo é menor em relação à outras tecnologias”, conclui o professor da UFU.