Temporal deixa rastro de destruição, desespero e 10 mortos no Rio

Entre as vítimas, a história da astróloga Lucia Neves, 63 anos, e da neta Julia Neves Aché, 7, emocionou e entristeceu o país

JOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADAO CONTEUDOJOSE LUCENA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADAO CONTEUDO

atualizado 10/04/2019 8:09

O maior temporal em 22 anos no Rio de Janeiro causou 10 mortes, deixou bairros submersos e um rastro de destruição e desespero. Em 24 horas, a chuva chegou a 323 milímetros, conforme o Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden).

Em abril de 2010, na tempestade que deixou 230 mortos na tragédia do Morro do Bumba, o registro foi de 304,6 milímetros. Na maior tragédia por chuva no Rio, em janeiro de 1966, com 250 óbitos, o registro foi de 245mm.

Entre as vítimas, a história da astróloga Lucia Neves, 63 anos, e da neta Julia Neves Aché, 7 (foto abaixo), emocionou e entristeceu o país. Os pais da menina estavam viajando de férias no exterior e a deixaram com a avó. Elas estavam em uma festa de aniversário no shopping Rio Sul e pegaram o táxi conduzido por Marcelo Tavares Marcelino para ir até Copacabana. O veículo acabou soterrado e os três morreram.

Reprodução/Instagram

Guilherme Fontes, 30, foi levado pela enxurrada depois de cair da moto. O sushiman estava de folga e aproveitava o dia para celebrar o aniversário, comemorado na semana passada. O corpo dele foi arrastado e encontrado embaixo de um carro.

Em Santa Cruz, na zona oeste, o vendedor Leandro Ramos, 40 anos, perdeu a vida eletrocutado. Ele limpava o ralo de casa, na tentativa de fazer a água escoar e salvar móveis e eletrodomésticos, quando levou um choque. Também em Santa Cruz, Reginaldo Exidro da Silva morreu afogado.

As irmãs Gerlaine do Nascimento, 53, e Doralice do Nascimento, 55, morreram soterradas no alto do morro Morro da Babilônia, zona sul do Rio. As sirenes da Defesa Civil não foram acionadas na região. Gilson Cesar tentou ajudá-las e acabou perdendo a vida também.

Um corpo ainda não identificado foi encontrado no bairro do Jardim Maravilha, em Campo Grande.

 

 

O prefeito Marcello Crivella (PRB) culpou, além da grande quantidade de chuva em um curto período de tempo, a falta de investimentos “histórica” na cidade e de ajuda do governo federal.

“Temos milhares de famílias morando em áreas de risco, temos todos os rios e lagos poluídos, 11 mil quilômetros de estradas que precisam ser asfaltadas, 750 mil bueiros entupidos”, discursou o prefeito, que alega falta de recursos.

“Nossas parcerias com o governo federal, neste primeiro ano Bolsonaro, praticamente pararam”, sustentou, afirmando que até mesmo contratos que foram assinados no ano passado, na gestão de Michel Temer, dependem de autorização do atual governo para serem colocados em prática.

As aulas da rede municipal de ensino foram suspensas. “Decretamos feriado nas escolas e pedimos para que ninguém que não precisa saia às ruas. As chuvas que caíram são anormais, nenhum de nós esperava um volume desses”, disse Crivella em coletiva no Centro de Operações Rio (COR).

DELMIRO JUNIOR/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

 

O prefeito informou, ainda, que as regiões mais afetadas foram as zonas sul e oeste, e que deslizamentos graves só foram observados no Morro da Babilônia, no Leme. Segundo ele, 785 pontos da cidade estão sem luz, e algumas das principais vias da cidade foram fechadas por segurança, como a Grajaú-Jacarepaguá e o Alto da Boa Vista. “Foi uma coisa trágica”, reconheceu o prefeito.

O governador do estado, Wilson Witzel (PSC), decretou ponto facultativo na Região Metropolitana do Rio e cancelou sua agenda externa, enquanto as aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também foram suspensas.

Ciclovia
A força da água também causou o desabamento de mais um trecho da ciclovia Tim Maia, projetada para ligar o Leblon, na zona sul, à Barra da Tijuca, na zona oeste. Imagens foram divulgadas nas redes sociais.

A cidade entrou em estágio de atenção às 18h35 de segunda-feira (8/4). Às 20h55 passou para o estágio de crise – o mais grave de três níveis de risco, segundo a escala usada pela prefeitura. Segundo a administração, em quatro horas choveu mais do que nos dias 6 e 7 de fevereiro, quando a chuva causou a morte de seis pessoas. Até a madrugada desta quarta (10), a Defesa Civil havia acionado 59 sirenes em 36 comunidades.