Mandetta diz que havia “dificuldade” do governo Bolsonaro com a China

Ex-ministro da Saúde relatou que filhos do presidente e ex-chanceler Ernesto Araújo evitavam e criticavam país asiático

atualizado 04/05/2021 14:03

Luiz Henrique MandettaJefferson Rudy/Agência Senado

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta admitiu, nesta terça-feira (4/5), em depoimento à CPI da Covid, no Senado, que o governo brasileiro tinha “dificuldade” de relacionamento com a China, como o ex-chanceler Ernesto Araújo e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) rechaçavam.

Mandetta relatou que certo dia esteve no Palácio do Planalto para falar com Bolsonaro e lá estavam os três filhos do presidente — Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro — e assessores e disse a eles que precisava falar com o embaixador da China, Yang Wanming, para receber ajuda sobre a pandemia da Covid-19.

Segundo o ex-ministro, ele perguntou aos presentes se poderia levr o embaixador chinês, o que foi negado. “Existia [com a China] uma dificuldade de superar essas questões”, declarou Mandetta à CPI da Covid-19.

“Eu tinha o Ministério de Relações Exteriores que eu precisava muito por causa de insumos que estavam na china. Era mais do que necessário que tivéssemos bom diálogo com a China. Eu tinha dificuldade com o [ex-]ministro de Relações Exteriores [Ernesto Araújo]. Eduardo [Bolsonaro, deputado federal e filho de Bolsonaro] tinha rota de colisão com a China através de Twitter, tinha mal-estar”, afirmou.

“Era o momento que [ex-presidente dos EUA, Donald] Trump chamava o vírus de vírus chinês, havia um mal-estar da China com os Estados Unidos e aqui faziam-se esse tipo de conflito que naquele momento dificultava muito a boa vontade. Por isso que fui à embaixada e ao ministro da Saúde [chinês] para que ajudasse”, acrescentou.

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Mandetta foi o primeiro ministro da Saúde durante a pandemia da Covid-19. Ainda nesta terça-feira, a comissão ouvirá o sucessor de Mandetta, Nelson Teich. Eles foram convocados na condição de testemunhas.

A CPI da Covid-19 tem o objetivo de investigar as ações e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia e, em especial, no agravamento da crise sanitária no Amazonas com a ausência de oxigênio, além de possíveis irregularidades em repasses federais a estados e municípios.

Dinâmica dos trabalhos

O Senado Federal ouve, nesta terça-feira, os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. A dupla será ouvida na condição de testemunha.

A sessão teve início por volta das 10h20. O primeiro a depor é Mandetta, que estava à frente da Saúde quando a pandemia chegou ao Brasil. Ele foi demitido em abril do ano passado após divergir do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na condução da crise do coronavírus no país.

Desde o início, Mandetta se mostrou contrário ao tratamento precoce contra a Covid-19, amplamente defendido pelo chefe do Executivo, e favorável a um lockdown nacional para conter a disseminação do vírus.

Internamente, parlamentares da oposição demonstraram grande expectativa com a fala de Mandetta. Os congressistas querem saber se eventuais erros cometidos no início do enfrentamento da crise sanitária acarretaram a explosão de casos registrados no país no último ano, com a situação agravada em 2021.

Às 14h, está previsto o depoimento de Nelson Teich. O ex-ministro da Saúde ficou no cargo menos de um mês também por discordar do presidente Bolsonaro sobre o uso de protocolo sem comprovação científica para tratar a doença. “Não vou manchar a minha história por causa da cloroquina”, disse Teich ao se despedir da pasta.

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