Análise: o brasileiro ainda prefere a democracia, aponta Datafolha
Pesquisas identificam contradições nos eleitores. Maioria rejeita a ditadura, mas vota em um candidato que defende o golpe de 1964
atualizado
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A última rodada de pesquisas do Datafolha revelou um aspecto curioso da percepção política dos brasileiros. Os números divulgados na quinta-feira (18/10) mostram a preferência de 59% dos eleitores pelo candidato do PSL, Jair Bolsonaro, contra 41% de seu adversário, Fernando Haddad (PT).
Apesar da larga vantagem, Bolsonaro defende ideias rejeitadas pela maioria absoluta da população. Isso é o que mostram as respostas a oito perguntas específicas sobre ditadura, tornadas públicas pelo mesmo instituto no dia seguinte, sexta-feira (19). O Datafolha entrevistou 9.137 pessoas, em 341 municípios, nos dias 17 e 18 de outubro.
Nessas questões, 51% dos entrevistados disseram considerar as realizações da ditadura mais negativas do que positivas. Minoritários, os entrevistados que pensam o contrário correspondem a 32%. As más lembranças, com folga, superam as boas.
Os pesquisadores também abordaram a opinião dos brasileiros sobre oito temas relativos aos direitos de ação dos governos. Nesse questionário, 80% dos brasileiros discordam da tortura como prática para obtenção de confissões ou informações. Os favoráveis aos suplícios chegam a 17% – número relevante, mas 63 pontos percentuais inferior aos que condenam os danos físicos.
Em relação ao fechamento do Congresso Nacional, 71% se opõem. Os que concordam com um governo sem Parlamento representam 21%. Adotada pela ditadura militar, a censura de rádio, TV e jornais contraria a vontade de 72%, dos eleitores e é aceita por 23%.
Os eleitores também rejeitam a proibição de greves (72%), apoiada por 24%. A prisão de pessoas sem autorização da Justiça é recusada por 65% e apoiada por 32%.
Como conclusão óbvia desses dados, pode-se dizer que os brasileiros, em ampla maioria, são democratas e querem o funcionamento das instituições. Não querem governo com poderes para cassar congressistas nem coibir a liberdade de expressão
Nota-se, então, uma contradição. Primeiro político de origem militar com chances de presidir o Brasil, Jair Bolsonaro defende a ditadura instalada em 1964, exalta a prática da tortura e já defendeu o fechamento do Congresso. Por mais estranho que pareça, os brasileiros querem democracia, mas votam em um candidato que apoia a quartelada de 1964.
Em favor de Bolsonaro, deve-se dizer que, se eleito no segundo turno, chegará ao Palácio do Planalto pela vontade da população. Embora alguns generais da reserva de suas relações relativizem o funcionamento dos Poderes, o presidenciável não explicitou intenção de rasgar a Constituição e declarou ser favorável à liberdade de imprensa.
Outras informações do Datafolha, publicadas no sábado (20/10), ajudam a entender as razões do favoritismo de Bolsonaro na corrida presidencial. Como explicação, destacam-se o desgaste dos políticos e a polarização da disputa.
A preferência pelo candidato do PSL se deve, para 30%, por representar uma novidade no comando do país. Para 25%, a razão principal é o fato de ele simbolizar a rejeição ao PT de Haddad.
Pelas propostas que faz na área de segurança, o capitão obtém os votos de 17% dos brasileiros. A imagem e os valores pessoais do candidato do PSL conquistam 13% dos eleitores, 12% gostam dos planos de governo e 10% acreditam que Bolsonaro vai combater a corrupção.
Os seguidores de Haddad são motivados, em primeiro lugar (20%), para evitar que o capitão chegue ao Planalto. Por suas propostas para o governo, o petista conquista 15% e, pela ideologia de seu partido, atrai 13%. As ligações com Lula são a principal razão para 11% optarem pelo ex-ministro da Educação.
Por fim, vale ressaltar outra opinião captada pelo Datafolha. Ao mesmo tempo que se opõem majoritariamente a regimes autoritários, 50% dos eleitores consideram que há alguma chance de o Brasil voltar a ser governado por uma ditadura.
No cruzamento dos dados, observa-se a intenção dos brasileiros de eleger Bolsonaro presidente, mas dentro da democracia. Pela conjuntura política, metade entende que há riscos de o país cair, de novo, em uma ditadura.
