Como cantaria Maria Bethânia em poema musicado de Castro Alves: “Estamos em pleno mar”. É neste clima praiano que você adentra o restaurante Nau, especializado em frutos do mar. Aliás, chegando de carro ao local — com vista para o Lago Paranoá e a Ponte JK –, já é possível avistar uma estrutura de ferro formando uma caixa de grandes proporções.

Dentro do salão de pé-direito alto, imensas águas-vivas pendendo do teto, jangadas de ponta-cabeça e janelas em formato de escotilha dão a certeza de que você embarcou nesta experiência. E tenha certeza: não vai enjoar. A casa ancorou na capital em 2013, vinda de João Pessoa e originária da família Mangai, de comida sertaneja.

Ressalto as qualidades da boa arquitetura do restaurante. Apesar de ser uma casa barulhenta (350 lugares), reduto de famílias e grandes grupos, o espaço entre as mesas permite que você não participe da conversa alheia, um hit habitual e desagradável nas casas de Brasília.

Bárbara Cortez/Metrópoles

Espaço harmonioso e comida deliciosa
O clima de “churrascaria de frutos do mar”, como alguns costumam se referir a esse tipo de negócio, é diluído pela harmonia e disposição do espaço. Mas, além disso, há outros fatores que fazem o Nau uma ótima opção. A principal delas é a comida.

O cardápio é extenso. Talvez até longo demais. Só de entradas, 20 opções. Já comi de tudo um pouco. O Trio Marítimo (R$ 47 — foto acima), os bolinhos de macaxeira com bacalhau (R$ 35) e as lulas crocantes (R$ 36) são os meus prediletos.

Os camarões, lulas e peixes fritos, do trio, chegam quentinhos e crocantes devido ao bom “empanamento”, com pouca farinha, acompanhados de molhos saborosos. O mesmo padrão de qualidade, por características semelhantes, se repete nas duas outras opções mencionadas.

Não curti muito o Quintetinho Couvert (R$ 47). É um mix de camarão marinado, salmão com alcaparras, queijos, tomate seco, azeitonas, caponata com torradas e grisinis. Os frutos do mar estavam sem graça, sem tempero. Além do prato fazer misturas um tanto quanto desarmônicas, como juntar salmão com tomate seco (dois ingredientes pra lá de convencionais).

Bárbara Cortez/Metrópoles

Principais ótimos, acompanhamentos nem tanto
Na seara dos principais, uma pessoa indecisa terá dificuldade de escolher um prato: a escala aumenta e você tem muuuuuuita variedade. Há principais ótimos, com acompanhamentos nem tão bons assim, como aqueles arrozes cremosos, entupidos de creme de leite (o que mascara os temperos da comida quando usado de maneira excessiva) ou batata palha, sem função nenhuma, pois não acrescenta nenhuma camada de sabor no prato.

Os principais mais interessantes são o Camarão do Mastro (camarões e lascas de bacalhau com azeite, cebola, alho, pimentões coloridos e azeitonas, com arroz branco e batatas ao murro, a R$ 165 — foto acima), Frutos do Mar na Chapa (camarão, lagosta, polvo, lula e mexilhão com tomate cereja, pimentões coloridos, champignon, brócolis e couve-flor com arroz de brócolis, a R$ 209) e massa com frutos do mar (R$ 124).

Textura levada a sério
No Nau, a textura dos alimentos (importantíssima para manter o sabor e as características do ingrediente) é levada a sério. Foram raras as vezes em que estive no restaurante e encontrei legumes e frutos do mar fora do ponto. E olha que camarão e polvo pedem atenção redobrada para que não fiquem duros ou borrachudos.

Até mesmo os vegetais, como pimentões, batatas e brócolis, são usualmente servidos como mandam as boas regras: al dente, bem temperados, com sal e pimenta na medida certa. Nada de cozinhar demais para não perder a crocância e o sabor contidos neles.

Destaco também outro ponto positivo do Nau: a valorização do produto regional, do sertão — como macaxeira, manteiga da terra, nata, queijo coalho – para compor os pratos. São usados com moderação, mas dão um toque diferente à comida.

Por último, palmas para o site, bem estruturado. Só não concordo com as fotos do cardápio on-line. Expectativa não bate com a realidade. Não é nada que comprometa o sabor, mas dá a sensação de que os pratos foram embelezados para a foto.

Tirada a maquiagem e voltando à vida real, a aparência não é tão boa como retratado. No mais, coma bem e, se sobrar, leve pra casa. O Nau sabe que as comidas sobram na mesa e oferecem este simpático serviço ao cliente.

Cortês sim; omissa, não.

DEVO IR?
Sim. Vá em grupo, com amigos ou família.

PONTO ALTO
Fartura dos pratos.

PONTO FRACO
Barulho. Num salão amplo, é quase impossível conter as vozes.

 Nau (Setor de Clubes Esportivos Sul, Trecho 2 , Conjunto 41, s/n, 61 3252-0155).