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As falhas na câmara mortuária do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), denunciadas pelo Metrópoles na terça-feira (13/9), não se restringem à unidade.

Na principal instituição do Distrito Federal, o Hospital de Base (HBDF), o exaustor apresenta falhas e o cheiro do formol usado para preservar os cadáveres se concentra nas salas, provocando ardência nos olhos, problemas respiratórios e dor de cabeça nos funcionários que trabalham no subsolo. Além disso, das 16 gavetas disponíveis, apenas sete estão em uso, pois não há macas retráteis para içar os corpos aos locais mais altos.

O Metrópoles visitou as instalações do HBDF nesta quarta-feira (14) e, embora o necrotério não seja tão precário quanto o do Hran — onde cadáveres se acumulam, as gavetas e os equipamentos estão enferrujados e a cena se assemelha à de um filme de terror —, servidores denunciaram uma série de problemas. Veja vídeo.

À reportagem, um funcionário que pediu para não ter o nome revelado disse que “a situação do trabalho é extremamente precária”. “Para conseguir atender à demanda, os servidores faziam horas-extras, mas o GDF as cortou e, agora, não é possível dar continuidade aos trabalhos. Hoje, há apenas seis servidores na área.”

Mas o pior mesmo é o cheiro de formol. Como o ar não circula, os olhos ardem, ficamos com dor de cabeça e alguns chegam a passar mal"
Servidor do Hospital de Base

A reportagem esteve nas duas salas da câmara mortuária do HBDF e constatou que o odor é muito forte, especialmente na sala dos fundos. Em menos de um minuto que o repórter esteve no local, sentiu os olhos arderem e dificuldade para respirar. Os motores dos exaustores são fracos e não conseguem retirar o ar contaminado pelo formol.

 

Corpos embalsamados
Por meio de nota, a Coordenação de Anatomia Patológica da Secretaria de Saúde informou que, em função do problema no exaustor, na tarde de terça, “foi solicitado ao Hospital de Base o embalsamamento dos corpos, o que retarda o processo de decomposição”.

A pasta assegurou que “não há risco de contaminação em pacientes ou funcionários do hospital, uma vez que a unidade funciona numa área restrita”. De acordo com o órgão, todos os servidores que têm acesso ao local “utilizam equipamento de proteção individual: luvas, capotes, máscaras, propés e gorros, e a limpeza é de responsabilidade dos auxiliares do próprio setor”.

Daniel Ferreira/Metrópoles

Verificação de óbitos
Além da questão que envolve o acondicionamento dos corpos, outro problema do HBDF é que ainda não foi implementado na totalidade o Sistema de Verificação de Óbitos. O SVO deveria ser responsável por determinar a causa da fatalidade nos casos de morte natural, sem suspeita de violência, quando o doente não tenha passado por atendimento médico no momento do falecimento.

Ao SVO também caberia analisar os óbitos relacionados a doenças transmissíveis — em especial, as fatalidades sob investigação por eventual contaminação epidemiológica.

Uma portaria do Ministério da Saúde de 2009, que instituiu o SVO, estabeleceu parâmetros e requisitos para que estados, DF e municípios integrem a rede. Como a capital federal ainda não implementou a iniciativa integralmente, o caso é investigado pelos órgãos de controle.

Em março, por exemplo, o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) e o Ministério Público de Contas (MPC-DF) expediram ofício ao Tribunal de Contas da União (TCU) para que fiscalize possíveis irregularidades na utilização de mais de R$ 646 mil que deveriam ser aplicados exclusivamente no SVO do Distrito Federal.

No documento, o MP apresenta, por meio de quadros demonstrativos e cópias de notas fiscais, que o valor foi empregado em demandas diversas no Hospital de Base, não relacionadas ao SVO.
De acordo com a Subsecretaria de Vigilância à Saúde, o SVO tem funcionado de forma transitória no Núcleo de Citopatologia e Anatomia Patológica (Nucap) do HBDF, com o apoio do Instituto Médico Legal (IML). No entanto, funcionários da unidade afirmam que não têm condições de atender à demanda, pois faltam tanto estrutura quanto funcionários para executar o trabalho.

Cheiro de cadáver
Os problemas nos necrotérios da saúde pública de Brasília começaram a vir à tona após a denúncia do Metrópoles de que a lotação e problemas na câmara fria do Hran fizeram o cheiro de cadáveres em decomposição se espalharem pelo hospital, chegando a incomodar pacientes.

Na terça-feira (13), a Secretaria de Saúde negou que houvesse qualquer problema na câmara mortuária do hospital, mas, após a publicação da reportagem, na qual um vídeo gravado por servidores revela uma série de problemas nas instalações, a pasta admitiu alguns problemas.

Por meio de nota, a pasta informou que “houve um acúmulo pontual de cadáveres na última semana. Porém, a situação foi normalizada”. “A Coordenação de Anatomia Patológica da Secretaria de Saúde está trabalhando para solucionar o problema do armazenamento dos corpos no Hran o mais brevemente possível. Neste momento, existe um processo de compra de nova câmara e carro pantográfico (de transporte) em andamento.”

Corpo no Hran há 14 meses
No vídeo publicado pelo Metrópoles com exclusividade, em uma das gavetas havia uma etiqueta com o nome de um paciente morto e a data: julho de 2015. Segundo a Secretaria de Saúde, o cadáver deve ser retirado pela família.

“É obrigatório que os corpos não retirados pelas famílias ou pelo Instituto Médico Legal fiquem na câmara mortuária por pelo menos 15 dias. Caso eles não sejam identificados dentro desse período, a Justiça deve ser acionada para que os trâmites sejam realizados. Os papiloscopistas da Polícia Civil devem colher as digitais e, somente após este trâmite, o corpo pode ser enterrado.

Veja o vídeo abaixo, não recomendado para pessoas sensíveis.  

 

 

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