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O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero afirmou em entrevista ao programa “Fantástico”, da Rede Globo, que gravou apenas uma “única conversa protocolar” com o presidente da República, Michel Temer. O tema do diálogo entre os dois, segundo o diplomata, seria a própria demissão dele. “Eu fiz questão de não induzir o presidente a falar sobre qualquer tema”, contou à jornalista Renata Lo Prete.

Calero disse que, por causa de sua profissão e respeito às instituições, não pediria um encontro com o presidente da República, em seu gabinete, para gravar conversas “de maneira sorrateira”. “Isso é absurdo e serve para alimentar essa campanha difamatória contra mim e desviar o foco”, afirmou. Segundo ele, essa seria uma “conduta típica dos políticos, que se gravam mutuamente”.

O ex-ministro contou que, por sugestão de amigos da Polícia Federal, fez gravações de conversas telefônicas para “se proteger” e garantir “o mínimo de lastro probatório” de suas denúncias. Calero admitiu ter registrado diálogos com outras pessoas além de Temer. Não confirmou, no entanto, se o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) estão entre elas. “Não posso responder, porque isso poderia atrapalhar as investigações”, limitou-se a dizer.

Na manhã deste domingo (27), Michel Temer criticou duramente a atitude do ex-ministro Calero de gravar conversas com um presidente: “É indigno, gravíssimo, desarrazoado”.

Denúncia
Marcelo Calero deixou o governo no último dia 18 de novembro. Pediu demissão do cargo alegando ter sido pressionado a reverter uma decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O órgão embargou uma obra residencial em Salvador (BA), construído em área de edifícios históricos. O ex-ministro Geddel, dono de um apartamento no prédio, procurou Calero pedindo a liberação.

Incomodado com a situação, Calero abordou o presidente Michel Temer durante um jantar no Palácio da Alvorada para relatar o que estava acontecendo. “Ele disse que não me preocupasse com isso, porque trataria do assunto”, destacou o diplomata, que contou ter saído “satisfeito” do local. No dia seguinte, no entanto, o ex-ministro teria recebido uma ligação do presidente o chamando ao Planalto.

Ele disse: Marcelo, tenho muito apreço por você, mas essa decisão do Iphan nos causou estranheza, porque foi muito rápida. A impressão é que essa não é a decisão correta. Além disso, ela nos causou dificuldades operacionais"
Marcelo Calero, sobre Temer

Segundo ele, o presidente teria solicitado que o processo fosse encaminhado para a Advocacia-Geral da União (AGU), onde a ministra Grace Mendonça o analisaria. “Temer me disse que ela era muito preparada, tinha um conhecimento jurídico muito bom e resolveria a questão de maneira que ficasse bom para todos”, comentou, se dizendo surpreso com a “manobra, chicana” que seria feita.

Calero disse que o presidente se despediu dele com uma espécie de conselho: “Política tem dessas coisas, esse tipo de pressão”. O diplomata afirmou que Eliseu Padilha também o procurou para tratar do assunto em três ocasiões. Depois do último contato, feito por um secretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Calero entendeu que estaria sendo pressionado a interferir na decisão do Iphan e preferiu se demitir.

“O que me impressionou foi que altas autoridades perdiam seu tempo em favor de um assunto paroquial, que se referia ao interesse particular de um ministro”, criticou Calero na entrevista. O diplomata avaliou que sua atitude não foi desleal com o governo: “Servidor tem de ser leal, mas não cúmplice.”

 

 

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