No DF, feminicida que confessou o crime é condenado a 36 anos

Janaína Romão Lúcio foi assassinada em julho de 2018. Na época, bandido escreveu carta na qual culpava a vítima pela própria morte

Daniel Ferreira/MetrópolesDaniel Ferreira/Metrópoles

atualizado 23/08/2019 15:40

O Tribunal do Júri de Santa Maria condenou, nesta quinta-feira (22/08/2019), Stefanno Jesus Souza de Amorim a 36 anos e 9 meses de reclusão em regime inicialmente fechado pelo feminicídio de Janaína Romão Lúcio. O crime ocorreu em julho do ano passado. O condenado esfaqueou a ex-companheira cinco vezes.

O assassinato ocorreu em 14 de julho de 2018. Naquele dia, um sábado, Stefanno ligou para a ex e disse que queria ver as filhas, de 2 e 4 anos à época. A vítima era constantemente espancada pelo agressor. Janaína registrou duas queixas contra o homem. A primeira, por ameaça, foi feita em 2014, quando o acusado tinha 17 anos.

Preso três dias após o crime, Stefanno foi encontrado na casa de uma irmã, na Quadra 510 do Recanto das Emas. Na 33ª Delegacia de Polícia (Santa Maria), ele confessou ter matado a ex-mulher: “Fiz o que tinha de fazer”. No momento da abordagem, carregava consigo uma carta de seis páginas escrita à mão, na qual explicava o histórico de seu relacionamento com Janaína, na perspectiva dele.

Segundo Stefanno, a vítima dificultava o acesso dele às filhas, e o casamento nunca chegou a ser desfeito em definitivo. “A gente brigava de vez em quando, mas nunca terminamos”, alegou.

Morte anunciada
A morte de Janaína é o quarto assassinato praticado pelo acusado, conforme o delegado do caso, Alberto Rodrigues. Segundo ele, o assassino tinha dificuldade em estabelecer endereço fixo, devido à quantidade de inimigos feitos no mundo do crime. “As amigas de Janaína, inclusive, eram mulheres de pessoas que queriam matar Stefanno”, declarou o policial.

Janaína era vítima de agressões e denunciou o ex-marido à polícia pelo menos duas vezes, em 2014 e 2017. A Justiça decidiu favoravelmente à concessão de medida protetiva à mulher, mas o processo acabou arquivado, pois ela teria retirado a queixa.

 

Em seu depoimento à polícia, o condenado disse ter traído a então companheira. Ao saber do caso extraconjugal, na versão do homicida, Janaína também teria cometido uma traição.

“Ele chegou a persegui-la numa festa junina do trabalho dela. Janaína teria dito que não o queria ali e voltaria à noite [para casa]”, detalhou o delegado. “Stefanno, então, passou a monitorar sua chegada, mas acabou descobrindo que ela não tinha dormido em casa. Janaína estaria voltando a se relacionar com o primeiro marido, o que teria provocado ciúmes”, relatou o investigador. Esse teria sido o estopim para a briga que resultou no feminicídio cometido por Stefanno.

Neste 2019, o Metrópoles iniciou um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

Últimas notícias