Conheça Luiza Brasil, braço direito de Costanza Pascolato e expert em cultura afro

À frente do site da papisa brasileira da moda, Luiza senta na primeira fila de um universo dominado por brancos, da cor da pele ao olhar para a moda. Em paralelo, toca uma das páginas mais legais da internet sobre moda e cultura com conteúdo 100% afro

Mesmo quem não entende de moda deve ter ouvido falar, pelo menos uma vez, de Costanza Pascolato, um dos maiores nomes do mercado nacional. Mas talvez não tenha escutado o nome de Luiza Brasil, nome por trás de todo o conteúdo do site da consultora de moda mais famosa do pais.

Aos 27 anos, a carioca já acumula oito coberturas de semanas de moda. Arrasta seu cabelão trançado pelos corredores da São Paulo Fashion Week e, invariavelmente, chama a atenção dos fotógrafos pelo estilo inconfundível, nem um pouco contaminado pelas tendências de revistas ou pelos looks do dia de blogueiras estreladas. Circula entre a primeira fila e a sala de imprensa. Quando não está assinando a página da chefe famosa, assume o controle do Mequetrefismos, site próprio lançado este ano dedicado a falar sobre moda e cultura black.

Carioca, Luiza se formou em comunicação pela PUC-Rio e começou a trabalhar com moda em 2008, no RioETC, site de estilo de rua do Rio. Anos depois, em 2012, foi para São Paulo em busca de novas oportunidades e quando começou a trabalhar para Costanza. No site próprio assina o inverso do que se vê estampado em revistas e sites tradicionais: fala de moda e cultura afro sem o viés do olhar branco que geralmente contamina publicações.

“Para ela, o black será sempre o ‘the new black’”, é como ela se apresenta na página. Além disso, ainda é um dos nomes por trás da hashtag #constelacaonegra, criada com o intuito de divulgar talentos negros da indústria criativa, como moda, música e artes, mas que no futuro, ela espera, consiga unir também arquitetos, médicos e profissionais e outras áreas.

Confira a conversa da jornalista com o Metrópoles:

Do Rio a São Paulo para trabalhar com a Costanza Pascolato, como isso aconteceu?
Sempre tive interesse em trabalhar com moda, mas me identificava mais com a parte escrita. Me formei em comunicação social pela PUC no Rio e lá consegui meu primeiro estágio, em 2008, no RioETC. Foi minha primeira oportunidade na moda. Depois trabalhei com algumas marcas aqui no Rio, fui assistente de marketing e comunicação, assumi um site como subeditora e depois acabei indo para São Paulo porque lá o mercado de comunicação é mais servido. Ali comecei a trabalhar para a Shop2Gether (um e-commerce multimarcas), que patrocina a página da Costanza.

Antes de criar o seu site, você já escrevia sobre moda e cultura afro?
Eu abordava a temática em outros sites. Era colunista de cultura black do Modices desde 2012 e esse trabalho começou a me levar para esse segmento. Fazia textos para outros sites, tipo o da Farm, sempre relacionados a esse assunto. Em maio deste ano criei o Mequetrefismos.

Para suprir um gap de conteúdo de moda e cultura feito especificamente para o público afro?
Então, na verdade a gente queria criar um segmento novo, mas a repercussão desses textos nos sites com os quais eu colaborava foi uma surpresa. Começamos a notar a carência que os negros têm de conteúdo. Porque sites existem, material existe, mas eles são pouco divulgados, pouco explorados. Fiz um post para o Modices falando das dez afro girls da vez e teve uma repercussão imensa. Então, comecei a questionar essa questão da representatividade.

E quem são essas meninas influenciadoras hoje para você? Que servem como referência?
A Julia Sarr-Jamois, por exemplo, uma editora de moda franco-senegalesa, a Solange Knowles também. Se formos pensar em Brasil, tem meninas brasileiras que são referências muito legais, como a Magá Moura (blogueiras de moda), a cool hunter Lu Nascimento e Juliana Luna (um dos nomes por trás do Project Tribe).

Pela sua experiência de cobertura de semana de moda, como você avalia a presença do negro nos bastidores? 
Não tenho como saber a questão do tratamento, mas pela minha experiência de cobertura, ainda não muito poucos os negros. Melhorou, mas melhorou pouco. Temos muito o que evoluir na questão da presença negra na moda, não só dos modelos, mas em toda a cadeia. Estilistas, produtores, diretores criativos. Em todos os pontos precisam de pessoas negras para contar sobre apropriação cultural, que é uma coisa que existe para caramba. As pessoas brancas acham que têm propriedade para falar sobre um assunto e não tem. Isso a gente vê muito nas revistas. Quando se toca no assunto é sempre pelo viés do branco, do “exótico”. E nós queremos fugir desses estereótipo de que negro é exótico. Somos pessoas, brasileiros.

A Farm foi alvo recentemente de uma polêmica por causa de apropriação cultural. O que você acha disso? Dá para falar do assunto, para trazer a cultura black para a moda sem que isso seja apropriação, que seja bonito?
A questão da Farm foram dois debates. Eles colocaram à venda uma fantasia de carnaval de Iemanjá, vestida por uma menina clara. A primeira questão é representar Iemanjá com uma garota branca, sendo que uma pesquisa rápida mostra que a imagem real da orixá é negra. As imagens brancas vieram do sincretismo religioso. A segunda é a questão da fantasia. Ninguém se fantasiaria de Nossa Senhora para o carnaval. É a mesma coisa. Depois disso acho que eles tentaram reparar o erro chamando blogueiros e influenciadores para colaborar e tratar do assunto com cuidado.

E o que você acha de marcas, grandes grifes, que se inspiram na cultura black, mesmo que em elementos, como turbantes, estampas, as cores… Até que ponto isso é válido?
Você encarar a África ou uma religião como modismo é totalmente errado. As marcas trazem como se fosse modismo, tendência, e esse é um tema que não merece ficar restrito a isso. Esse tipo de situação ocorre porque não tem nas revistas de estilo e nem na cadeia de moda pessoas negras que possam esclarecer esses pontos. É importante a gente se retratado, a gente quer ser homenageado, mas é preciso saber o que é apropriação e o que é valorização, porque a linha é tênue. Se for bem feito, é bonito. Um exemplo disso é a coleção da Têca, da Helô Rocha, do verão 2016, inspirada nos orixás. Ela desfilou uma coleção bonita, com um casting que nem era 100% afro, mas já foi um começo.

Há algumas temporadas se discute a adoção de cotas para modelos negros na SPFW. Você é a favor?
Acho que cotas não é o melhor caminho. Mas se é necessário para a gente fazer esse número crescer, então cada pequeno detalhe é válido. Tudo o que dê mais empoderamento é válido.

E no jornalismo, nas coberturas? O seu site e o seu público têm voz?
Existe aí uma grande questão que, quando se fala em blogueiros hoje, as marcas esquecem que existe um público muito ávido por cultura afro e que esses canais de divulgação existem. Somos negligenciados por assessorias, eventos, e isso tem que mudar. Existe toda uma rede youtubers, instagrammers e no snapchat de influenciadores. Uma vez, uma colega de trabalho, branca, foi a um evento de lançamento de um produto, teoricamente, universal, para todas as peles, e não tinha uma representante negra. Quando ela foi questionar a assessoria de imprensa, ouviu que eles não conheciam nenhum blogueiros negro. Por isso ajudei a criar a #constelacaonegra, para divulgar o trabalho de talentos negros da indústria criativa no geral, para que as pessoas tenham acesso a esse conteúdo, a esse trabalho. Somos DJs, artistas, estilistas, jornalistas. A ideia, claro, é que a coisa cresça e mais gente se junte a isso.