Mauro Martins: da UnB para a lista de melhores ilustradores do mundo

Formado em design industrial pela Universidade de Brasília, o artista é reconhecido globalmente por seus desenhos em estilo doodle

Foto: Vinícius Santa Rosa / MetrópolesFoto: Vinícius Santa Rosa / Metrópoles

atualizado 29/08/2019 22:40

De pés descalços e com vista para a imensidão do céu de Brasília. É assim que Mauro Martins trabalha em seu home office no Sudoeste. Mineiro de nascimento e brasiliense de coração, ele conseguiu atingir o topo da carreira aos 37 anos, sem sair de casa: foi eleito pela revista austríaca Lürzer’s Archive, considerada por muitos como a Bíblia da publicidade, como um dos 200 maiores ilustradores do mundo.

Formado em design industrial pela Universidade de Brasília (UnB), Mauro coleciona prêmios nacionais e internacionais. Já assinou trabalhos para marcas como Absolut, Domino’s, Calavera e Amarula. O diferencial da arte dele, nas palavras do próprio criador, é que “ela consegue agrupar todos os elementos representativos de uma empresa de uma vez só.”

Isso é possível graças ao estilo doodle, uma espécie de labirinto de microdesenhos que forma uma obra rica e singular. “Começou como hobby. Hoje, o doodle é a minha especialidade”, revela o designer. Antes de se encontrar profissionalmente, no entanto, o autônomo diz ter sucumbido às dúvidas e incertezas da carreira de artista.

“Trabalhei por 13 anos em agências de publicidade, em Brasília e nos Estados Unidos. Consegui determinado destaque produzindo em grande escala para terceiros, mas em certo momento caiu a ficha de que a vida de escritório não era para mim, me podava artisticamente”, lembra. Ele estava cotado para assumir um posto de diretor criativo em uma renomada agência em Boulder, no Colorado, quando decidiu pedir demissão e retornar ao Brasil.

“Era bem-sucedido, mas não realizado”, desabafa. De volta à capital federal, tomou a decisão que viria a ser o divisor de águas na profissão. “Assim que cheguei para trabalhar no país norte-americano, onde passei dois anos, dei início a um diário ilustrado. Já de volta para casa, folheei as memórias ilustradas [em estilo doodles] e enxerguei nelas grande potencial. Decidi, portanto, digitalizá-las e dispará-las para sites e concursos de ilustração”, recorda.

O feedback veio por meio de ligações via Skype e e-mails. “Marcas de todo o mundo curtiram e encomendaram artes personalizadas. Cheguei a receber propostas de uma grife italiana de óculos, de uma empresa californiana de baralhos”, comemora. A maior fonte de renda, logo, é o pagamento das empresas pelos serviços prestados e os royalties em cima dos produtos estilizados. “Meu foco são as grandes marcas. Vejo os royalties como a minha aposentadoria”, brinca.

O ilustrador, que passava os dias dentro de um escritório, produzindo sob amarras de clientes nem sempre almejados, atualmente atua e fortalece seu nome sem precisar tirar o pijama. “E tem coisa melhor do que não se preocupar com roupa de trabalho?”, diverte-se.

A rotina de Mauro?  Não ter rotina. “Às vezes, tenho muita demanda. Alguns meses, nenhuma. Acelero o ritmo nas épocas de alta e tento me organizar financeiramente para as ondas de baixa. No mais, não sinto falta de produzir em um local abarrotado de gente. Me dou bem criando de casa e ditando meu próprio compasso”, garante.

Naturalmente
A paixão pelos lápis de colorir surgiu na primeira infância. “Antes de eu aprender a amarrar o cadarço”, relembra. A simpatia pelo universo das artes foi apoiada pela família – até a época do vestibular. “Meu pai estranhou quando falei que queria fazer design. Sugeriu que eu fizesse, paralelamente, direito. Cursei as duas faculdades por um semestre. Depois, não suportei. Garanti a ele que me daria bem como ilustrador e apostei todas as fichas nisso”, conta.

Mauro frisa que a UnB veio em sua vida para reforçar o apreço pelo design. “Foi uma universidade ótima. Evoluí muito”, rememora. Logo que se formou, ele engatou um trabalho no outro. “Nunca mais parei. O que me orgulha muito são os projetos filantrópicos que realizo. Já contribuí, por exemplo, para a Abrace e o Santuário de Elefantes do Brasil”, cita.

Projetos futuros
Questionado sobre projetos e ambições para o futuro, Martins não pestaneja: “Daqui a cinco anos, gostaria de estar exatamente como estou. O meu maior medo é ter que me reinventar por questões mercadológicas e acabar perdendo a essência.”

“Era bem-sucedido, mas não realizado”

Mauro Martins

Em relação a continuar vivendo na capital, o destino não parece estar tão bem tracejado assim. “Amo Brasília, minha relação com a cidade é incrível. Vim para cá bebê, com meus pais. Acredito que sou o artista que sou, em partes, por causa da capital. A qualidade de vida daqui é enorme, mas não descarto passar temporadas no exterior. Meu trabalho é – quase – 100% digital, o que me permite produzir remotamente”, conclui.

Guinada
Para quem está pensando em dar uma reviravolta na carreira, o ilustrador ressalta que é preciso, inicialmente, coragem e determinação. “A dica que dou é: crie algo que te represente e seja mercadologicamente mutável e desejável. Esteja certo do que quer e confie no seu taco”, aconselha.

“Fora isso, faça um pé de meia. Não se arrisque sem garantir a sua subsistência por alguns meses. Uma reserva será necessária até você fazer o seu negócio engrenar. Trabalhar com o que se gosta é um privilégio. Se você tem meios de fazer isso acontecer, vai fundo”, recomenda.

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