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Só pelo sobrenome, Arun Gandhi dispensaria apresentações. Aos 82 anos, o neto de Mahatma Gandhi dedica-se a manter viva a cultura de paz e o conceito de não violência que seu avô espalhou pelo mundo no início do século passado. Foi diretamente com ele que o pacifista aprendeu a ser um “fazendeiro da paz”, como se define. Entre os 12 e os 14 anos, viveu com o avô na África do Sul no período pré-apartheid, até o assassinato de Gandhi por um fanático hinduísta, em 1948.

Em 1987, quando se mudou para os Estados Unidos com a esposa, fundou o M. K. Gandhi Institute for Nonviolence para dar continuidade aos ensinamentos de Mahatma Gandhi. Apesar de ser autor de vários livros, compartilha do que o avô dizia sobre não escrever sua filosofia: lições eternizadas num papel viram dogmas e dogmas abrem espaço para fanatismo. “Religião não é trazer paz às pessoas, é explorá-las”, ele diz.

Esta semana, Brasília recebe pela segunda vez o herdeiro de Gandhi. Ele vem à cidade para participar do congresso internacional RePacificar, nos dias 22 e 23, que pelo terceiro ano reúne especialistas de cinco continentes com experiências de paz e desenvolvimento humano para compartilharem seu conhecimento. Este ano, o evento homenageia Mahatma Gandhi na figura de Arun, seu neto, e pela primeira vez acontecerá na Legião da Boa Vontade, no auditório ParlaMundi.

Antes de embarcar para o Brasil, Arun Gandhi conversou com o Metrópoles direto de Nova York, onde vive hoje, sobre paz e a aplicação das lições de seu avô nos dias de hoje. Confira.

Arquivo Pessoal


O que você entende por violência? Existem outros tipos que não a física?
Discriminação, exploração… Nós exploramos as pessoas o tempo todo. Os ricos exploram os pobres, então os pobres exploram os ricos, tudo isso feito entre nações, entre pessoas. Tudo, no fim, é sobre indivíduos querendo pegar tudo o que puderem para eles mesmos, não compartilham com outras pessoas.

Isso é violência passiva. Por exemplo, quando desperdiçamos comida sendo que milhões de pessoas morrem de fome. Isso também é violência. Quando abordarmos esses problemas poderemos ter paz. Do contrário, estaremos encerrando guerras e tratando mal uns aos outros. Isso não traz paz.

Temos violência nos esportes, no entretenimento, na religião, em tudo o que fazemos. Porque tudo é particular. Queremos mais dinheiro, mais benefícios e o resultado disso é que existem 7 bilhões de pessoas no mundo hoje e quase 1 bilhão de pessoas vivem na miséria e não fazemos nada por elas.

Qual seria então o jeito correto de lutar pelo que você acredita, pela sua causa?
Precisamos primeiro mudar nossa linguagem. Não estamos lutando. Estamos tentando mudar as pessoas. Se você acha que as pessoas são seus inimigos, isso já é violência. Não somos inimigos. Somos todos amigos. Mas alguns amigos precisam de conselho. Esse é o princípio da não violência.

Gandhi disse “seja a mudança que quer ver no mundo”. Como você acha que podemos aplicar isso no nosso dia a dia?
Primeiro de tudo, precisamos olhar para nossas relações com as pessoas. Por causa do estilo de vida materialista, as relações são egoístas. Estamos sempre querendo tirar alguma coisa da outra pessoa e se não conseguimos, terminamos a relação. Relacionamentos devem ser construídos em apreço, afeição e respeito.

Precisamos respeitar as pessoas e ajudá-las. E, depois, precisamos fazer uma introspecção. Olhar para nossas fraquezas e atitudes e tirar delas força. Achamos que podemos ir à escola ou à universidade e receber educação. Mas isso é apenas conhecimento de livros. Se não mudarmos nosso caráter não seremos realmente civilizados. Ter ambição ou dinheiro não nos faz civilizados. Civilização significa sermos melhores seres humanos e cada um precisa fazer esse esforço por si.

Arquivo Pessoal

Arun Gandhi ao lado de Dalai Lama e de Martin Luther King Jr. III


Você acredita que a relação com as pessoas, nossos vizinhos, é a chave para a paz geral?
Sim. Precisamos ter mais esperança, ser mais compreensivos, menos julgadores do outro. A cultura da violência… Até nosso sistema de justiça ficou violento. Tudo é vingança. Nada é transformação. Tudo é vingança. Queremos apenas punir as pessoas pelo que fizeram e isso só faz as coisas ainda pior.

Por que a religião, em vez de unir e pacificar as pessoas, ainda é uma das maiores causas de guerras e conflitos no mundo?
Religião não é trazer paz. É explorar as pessoas. Não é uma coisa boa. Temos que ter maior entendimento sobre nossas crenças. É um dos maiores problemas hoje em dia.

Como você mantém os ensinamentos do seu avô vivos hoje? Você acha que eles continuam atuais, evoluíram de alguma forma com a humanidade?
As escrituras das religiões, por exemplo, foram escritas milhares de anos atrás. E nós lemos aquilo e achamos que são verdadeiras ainda hoje. E na verdade não são totalmente verdade hoje. As circunstâncias mudam, a história muda, as pessoas mudam e as filosofias também precisam mudar junto com elas. As pessoas que hoje estudam filosofias deveriam interpretá-las e fazer com que sejam aplicáveis hoje.

Uma das coisas que digo é que o jeito mais fácil de matar uma filosofia é escrevê-la. No momento em que ela é colocada num livro, ela vira um dogma. A filosofia precisa ser relevante para o hoje. Então o que meu avô escreveu 50 anos atrás era para aquela circunstância e aquele tempo, não necessariamente para hoje. Precisamos aprender a mudar e pegar a essência do que ele diz e a essência é de que deve haver mais respeito e compreensão entre as pessoas.

Como pacificador, você tem esperança para a paz nesse mundo?
Me vejo como um “fazendeiro da paz”. Eu saio para o campo, germino minhas sementes e espero um dia ter uma boa plantação de pacificadores. Eu não posso mudar as pessoas e fazer com que elas acreditem no que eu acredito. Isso é com cada um. Eu não posso forçar ninguém a mudar. Ninguém pode. Tem que vir de dentro.



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