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Alguns anos antes de sua eleição, a figura de Jair Bolsonaro – entre frases de efeito e acenos ao militarismo – gerou curiosidade por parte da população. Com a faixa presidencial no peito e 22 ministros empossados, o interesse aumenta: afinal, qual é a formação dos sete militares no primeiro escalão do governo federal?

Segundo professores de cursos preparatórios para concursos de carreira militar, a figura do capitão do Exército que se tornou presidente pelo voto popular renovou a perspectiva de muitos brasileiros sobre as Forças Armadas.

“Com o Bolsonaro na mídia, as pessoas voltaram a se interessar pelos militares, começaram a ver que a formação desse profissional é extensa. Ninguém vira coronel de uma hora para outra. O presidente colocou em voga as qualidades desses profissionais”, comenta Glauco Leyser, professor de física e dono de cursinho que leva seu nome.

De fato, a opção pela vida militar tem, entre outras prerrogativas, a formação continuada. Todo concursado passa por um curso ao entrar nas forças armadas, que pode durar de nove meses a cinco anos, a depender do certame. Depois disso, ao longo dos 30 anos de cada carreira nas Forças Armadas, o servidor é encorajado a procurar conhecimento: desde aulas de paraquedismo à imersão em algum idioma. As adições ao currículo, associadas ao tempo de serviço, contam na hora de obter patentes superiores.

JP Rodrigues/Especial para o Metrópoles

Estudantes assistem à aula preparatória para o concurso da Aman: praticamente um vestibular

 

Os concursos de maior prestígio das Forças Armadas são os de oficiais: a Escola Naval, na Marinha; a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), no Exército – pela qual o presidente e seu vice, o general Hamilton Mourão, passaram –; e a Academia da Força Aérea (AFA), na Aeronáutica. Para participar, é preciso ter concluído o ensino médio e ter entre 18 e 22 anos. Esses certames funcionam como verdadeiros vestibulares, ou seja, aprovados, os jovens aspirantes e guardas-marinha passam por cinco anos de curso nessas escolas e dali saem com o equivalente ao ensino superior no currículo.

A carreira de oficiais é a única que permite ao servidor chegar aos mais altos postos nas instituições: almirante de esquadra (Marinha), general de exército ou tenente-brigadeiro (Aeronáutica). Até 2015, não era permitido às mulheres fazerem o concurso da Aman. No ano seguinte, foi constituída a primeira turma mista de jovens oficiais, que vão se formar em 2021 – a instituição reserva 400 vagas para homens e 40 para mulheres. Em três décadas, o Brasil poderá ter suas primeiras generais de exército do sexo feminino.

Stella Woo/Arte/Metrópoles

 

Embora a descrição mais simplificada dos concursos para o oficialato das Forças Armadas seja a de um vestibular, os certames são diferentes. O candidato deve ter noções sólidas de matemática, física, química, português, história, geografia, inglês e redigir uma redação. Além disso, deve fazer uma prova física, determinada por edital. Segundo Leyser, é raríssimo passar de primeira: geralmente, são precisas duas ou três tentativas.

“Os alunos que procuram esses concursos são meninos determinados, disciplinados, com alto padrão intelectual. São pessoas cuja vocação é a carreira militar, e é preciso ser determinado para conseguir”, descreve o professor.

Filhos de sargentos do Exército, Marcelo Matos, aos 19 anos, e Diego Lucas, de 17, sonham com a aprovação na Aman. O primeiro sempre quis ser militar, o segundo se interessou há apenas dois anos, quando o pai foi enviado em missão ao exterior. Os dois rapazes sonham em seguir carreira fora do Brasil, mas antes disso passarão por cinco difíceis anos na Academia, vivendo no internato. “Eu não ligo para essa perspectiva, porque é meu sonho”, define Marcelo.

 

Outra forma de ingresso na Escola Naval e na AFA é estudar no ensino médio da Marinha e da Aeronáutica: adolescentes de 14 anos podem fazer os concursos do Colégio Naval de Angra dos Reis (RJ) ou da Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica. Concluída a etapa de ensino, o jovem pode decidir entrar na carreira de oficial sem precisar passar por outro certame.

Outras carreiras
Nem só do oficialato se fazem as Forças Armadas. As instituições ainda abrigam outras carreiras, como as dos quadros auxiliares das instituições. Para esses concursos, o candidato deve ter até 36 anos e curso superior em veterinária, direito, enfermagem, informática, administração, psicologia, contabilidade, assistência social, fisioterapia, nutrição, fonoaudiologia, terapia ocupacional e comunicação social.

Stela Woo/Metrópoles

 

Aprovada em primeiro lugar no concurso de administração da Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx), a brasiliense Porcelina Rimis, 31, está prestes a realizar um sonho de infância. Depois de cinco anos de cursinho, ela vai finalmente passar pelos nove meses de preparação e iniciar a carreira como primeiro-tenente. Sua aspiração para as próximas três décadas é atingir o posto máximo da carreira: coronel.

Filha de sargento, Porcelina conta que sempre quis fazer parte das Forças Armadas. “Eu tinha vontade de ser militar desde pequena. Via as moças fardadas andando na rua e achava lindo. O Exército sempre foi um projeto de vida para mim”, lembra. A paixão se confirmou quando a jovem passou em um concurso temporário da instituição e se encontrou naquela instituição.

JP Rodrigues/Especial para o Metrópoles

Porcelina Rimis levou cinco anos para passar no concurso do quadro complementar do Exército: sonho de menina realizado

 

Quando Porcelina entrou no curso Cidade, do tenente da reserva Luiz Cidade, ela ainda era militar temporária. Ao cabo de seu terceiro ano de cursinho, duas coisas aconteceram: ela foi aprovada (mas não convocada) no concurso e seu contrato com o Exército acabou. “Fiquei triste, desisti, pensei em mudar de carreira. Mas algumas amigas me estimularam a continuar. Tive o convite para a bolsa do professor Cidade, estudei como uma maluca e passei”, lembra.

O tenente Cidade percebeu que Porcelina estava prestes a desistir depois da terceira tentativa e decidiu apostar na jovem: concedeu a ela uma bolsa que só acabaria quando ela fosse aprovada. “A carreira atrai quem tem vocação, é para quem quer, quem não desiste. Mas é preciso focar”, avalia.

 

Porcelina se concentrou no último ano. Como acontece com muitos concurseiros, deixou a vida pessoal e familiar um pouco de lado para se concentrar. O resultado veio e, agora, ela aproveita as últimas semanas com a família antes da imersão da EsFCEx, em Salvador.

Em 2010, Isabella Caetano do Amaral, 35, entrou como temporária na Marinha. Dentro da instituição, viu que tinha vocação para a carreira militar.

Acabei me encantando pelo trabalho realizado pela Marinha. O militar temporário só pode ficar até oito anos na Força e, de uma certa forma, eu sentia que aquela experiência não seria passageira. Então decidi estudar para o concurso e ser uma oficial de carreira"
Isabella Caetano do Amaral, primeiro tenente do quadro técnico da Marinha

ITA e IME
Ainda é possível se tornar militar de carreira no concurso de praças. O certame é de nível médio e os aprovados passam por um curso de dois anos, equivalente ao de tecnólogo. A carreira começa no cargo de cabo e o concursado pode ir a suboficial, na Marinha e na Aeronáutica, e a subtenente no Exército. A depender da idade do servidor, ele ainda pode tentar se engajar no concurso de oficiais, um certame interno que permite a mudança de carreira.

Stela Woo/Metrópoles

 

Outra forma de ingresso nas Forças Armadas é por vestibulares mais próximos dos tradicionais: o Instituto Militar de Engenharia (IME), do Exército, e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica oferecem cursos de cinco anos em diversas áreas da engenharia. A conclusão da graduação vem com uma escolha para o formando, que pode seguir na vida civil ou tornar-se militar.

Se o graduado fizer a opção pela vida militar, começa a carreira como 1º tenente e pode chegar aos cargos mais altos das Forças, ou seja, general de exército ou tenente-brigadeiro.