Meu escritório é na praia: home office fora de casa vira tendência. Entenda

Longe das obrigações presenciais, brasileiros aproveitam para trocar de endereço e notam melhora na qualidade de vida

Feche os olhos e imagine que você poderia trabalhar, agora, de qualquer lugar do mundo. Nos seus sonhos, você estaria em casa? Com a pandemia de Covid-19, as raízes que prendiam as pessoas aos grandes centros urbanos e escritórios foram rompidas, desde que foi instituído o home office como a maneira mais segura de conter o avanço do coronavírus. Como resultado, uma vontade de expandir os horizontes tomou conta do pensamento de muitas pessoas nos últimos meses.

Segundo pesquisa do Airbnb nos Estados Unidos, existem três tendências principais redefinindo as viagens em 2021: viver em qualquer lugar, destinos hiperlocais e viagens de reconexão. O levantamento aponta que 83% dos entrevistados são a favor de se acomodar em outro espaço, fora de casa, como parte do trabalho remoto, e 20% se mudaram efetivamente para outro local no contexto da pandemia. A tendência também é mais bem vista entre os jovens. A geração Z e os millennials são mais propensos a acreditar que podem se mudar para um novo endereço para trabalhar ou estudar remotamente.

Contudo, trabalhar de casa é muito diferente de entrar de férias. As jornadas a serem cumpridas, as tarefas e as reuniões – agora via internet – permanecem as mesmas. Para alguns, porém, a troca de ares é revigorante, aumenta a produtividade e pode até ser mais vantajosa financeiramente.

Sem a obrigação diária de voltar ao escritório para cumprir a jornada, é possível encarar mudanças radicais, e fazer de um destino paradisíaco o seu local de trabalho. É o caso de Bruna Resende, brasiliense que está passando uma temporada em Tulum, no México, desde 1º de novembro. Ao ouvir que a empresa onde trabalha estabeleceria o regime de home office pelo menos até 2021, ela colocou a ideia na ponta do lápis e percebeu que mudar de cidade, mesmo que provisoriamente, seria uma experiência agregadora.

Nova casa

A escolha foi ponderada. Em primeiro lugar, ela e o namorado, Giuliano Gemero, procuraram um destino onde a pandemia estivesse relativamente controlada e que permitisse uma conexão com a natureza. Estudantes de espanhol, eles viram uma oportunidade para aplicar os conhecimentos na língua e começaram a procurar localidades que cumprissem o requisito e falassem o idioma. Por fim, que também fosse viável financeiramente e coubesse no orçamento.

“O México surgiu como um país que estava com as fronteiras abertas para o turismo, a economia estava sendo impactada por causa da pandemia e existia um estímulo das cidades do litoral para receber pessoas de fora”, relembra Bruna. Cancún era turístico demais e foi assim que Tulum entrou em cena. “Encontramos opções de aluguel que ficaram mais baratas que nossos gastos em São Paulo, passagens em conta e tomamos a decisão”.

Antes de viajar, “fizemos um planejamento muito detalhado, porque não viemos a passeio, estamos trabalhando e nada mudou na nossa jornada de trabalho. Seguimos com a mesma quantidade de horas”, afirma a administradora. Para isso, critérios como qualidade de internet, espaço para que os dois atendessem a reuniões simultâneas e despesas gerais foram levados em conta.

Como qualquer mudança, o processo precisou de adaptação. Um dos maiores desafios iniciais foi o fuso horário, com duas horas de diferença. A rotina que começa às 9h no Brasil equivale às 7h da manhã no México. “Precisamos nos adaptar mas, no fim, ganhamos mais horas no dia. Terminamos em um horário em que ainda podemos resolver eventuais demandas antes do sol se pôr e podemos estudar espanhol durante a noite. Temos horas para dedicar ao nosso desenvolvimento também”, conta Bruna.

Conversa com o chefe

No caso do casal, o alinhamento com a chefia “foi muito tranquilo”. As empresas já estavam adaptadas ao novo contexto e valorizam a possibilidade de ter funcionários trabalhando de qualquer lugar do mundo.

“É uma experiência agregadora, ao mesmo tempo em que você pode se desenvolver e trabalhar, tivemos muita abertura para a adaptação com relação ao fuso, à nossa nova realidade, marcando reuniões um pouco mais cedo e até um pouco mais tarde. O movimento, inclusive, inspirou outros funcionários a fazerem o mesmo, a buscarem desenvolvimento pessoal ou proximidade com a família”, completa a brasiliense.

De acordo com Gisele Andrade, supervisora de Recursos Humanos da RB, empresa especializada em gestão de benefícios, o ideal antes de tomar a decisão de trocar de cidade é conversar com o gestor sobre essa intenção abertamente e ser claro sobre o motivo da solicitação.

“O colaborador pode se certificar, antes de comunicar o gestor, que o local no qual ele pretende passar esse período está apto para o exercício das atividades e que não haverá impactos negativos em seus resultados. Levar essas informações para o chefe é essencial, pois mostrará a preocupação do funcionário com o assunto”, defende.

Empresa e trabalhador precisam alinhar que, se houver a necessidade de retorno às atividades presenciais, o funcionário não se mostrará contra e nem se negará à isso, desde que seja comunicado com antecedência. O tempo para o retorno pode ser definido entre empresa e empregado, de acordo com a especialista.

Em termos jurídicos, não há impedimentos específicos na legislação que regulamenta o teletrabalho sobre a troca de endereço. “O que vale é o que for estipulado entre as partes, tem que haver uma manifestação expressa de que a pessoa vai realizar o teletrabalho e a mudança, preferencialmente por escrito, para resguardar o trabalhador e a empresa em caso de conflitos”, orienta Carolina di Assis, bacharel em direito e mestranda de Direito do Trabalho na Universidade de Brasília. “Se não houver nada determinado anteriormente sobre obrigações presenciais, não há problema que o teletrabalho seja realizado em outra cidade”.

O acordo entre o funcionário e o gestor é fundamental, porque nada impede que a empresa solicite uma reunião presencial. O regime de teletrabalho estabelecido não é descaracterizado por encontros presenciais ocasionais. “O que a lei determina é que o regime de teletrabalho é estipulado quando ele for predominante. Uma ida ocasional ao estabelecimento pode fazer parte do acordo”, completa a mestranda em Direito.

Do Sudeste ao Sul

Foi assim com Bruno Saúde, que precisou realizar um translado de ônibus para atender a uma reunião presencial durante o teletrabalho. O acordo foi feito com antecedência e o gestor sabia que o funcionário não estava no mesmo local que a empresa. Nesse caso, o deslocamento não foi um problema para nenhuma das partes.

A mudança de endereço do gerente de estratégia não foi premeditada. Bruno, que é mineiro e mora em São Paulo para trabalhar, viajou para visitar amigos que moravam em Florianópolis. A ideia era cumprir as demandas do home office de lá por uma semana, em julho. Ele alinhou a viagem com o chefe, desde que entregasse todas as demandas e não falhasse em relação à jornada de trabalho. Mas, passado o tempo estipulado, o engenheiro gostou muito da rotina e do destino. Por isso, resolveu estender a estadia e continuar vivendo na capital catarinense.

“Atualmente, eu acredito que essa mudança melhorou a minha qualidade de vida em 100%, e isso impacta na minha produtividade. Eu passei por períodos de estresse intenso no início da pandemia, quando voltei para Minas Gerais para morar com meus pais”.

Além dos ganhos de tempo, em termos de deslocamento, ele garante que morar perto do mar também influenciou positivamente no trabalho. “Agora moro perto da praia, acordo pela manhã para correr e volto com outro ânimo para cumprir as obrigações. Comecei a melhorar, inclusive, o meu humor durante o dia”, diz.

O impacto da qualidade de vida na performance no trabalho é notável. Carla Furtado, mestre em psicologia e pesquisadora científica da linha Cultura Contemporânea e Relações Humanas, destaca a importância do equilíbrio para o bom desempenho das funções.

“A correlação qualidade de vida e engajamento, que é um fator muito importante para a produtividade, é direta. E não estamos falando de qualidade apenas no trabalho, e sim de maneira integral. Uma pessoa que tem dificuldades fora do escritório enfrenta problemas na capacidade de concentração no trabalho, de vigor e foco. Tudo isso depende de um equilíbrio do nosso sistema neurofisiológico”.

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Bruna resolveu se mudar para cumprir o home office no México
Pelo menos até janeiro, ela e o namorado moram em Tulum
Bruno foi visitar os amigos em uma cidade de praia e acabou ficando
Agora, ele pensa em se mudar permanentemente para a cidade
Hora de trabalho e momento de lazer

Morar onde as pessoas costumam passar as férias requer, principalmente, disciplina. A rotina de trabalhar enquanto viaja certamente não é para todos – e não é exatamente uma novidade, apenas ganhou mais adeptos. Enquanto o isolamento durante a pandemia despertou o desejo de liberdade até do mais ávido amante de rotina, existem, há anos, os chamados nômades digitais, que trabalham com total liberdade geográfica.

Sophia Costa, por exemplo, trabalha remotamente para uma empresa de business intelligence, é fotógrafa, digital influencer e toca projetos pessoais há mais de 2 anos. “Eu não acho que viajar trabalhando é um mar de rosas. É um estilo de vida como tantos outros, que tem coisas positivas e negativas”, afirma a publicitária.

A principal dica de Sophia para quem quer se libertar das amarras geográficas é “treinar ser uma pessoa adaptável e conseguir ser produtiva independente da situação”. Entre os desafios, o principal é saber que tem hora para tudo. “Quando você está viajando, tem muitas coisas acontecendo. É preciso estabelecer que eu não estou turistando, eu tenho responsabilidades e demandas, é preciso ser firme e forte, estabelecendo a sua rotina e o respeito ao trabalho”.

Sophia viaja enquanto trabalha há mais de 2 anos

“Não acho que seja um estilo de vida para todo mundo, porque exige certo nível de desapego, além da adaptabilidade. Uma pessoa muito ligada ao espaço físico talvez tenha dificuldades para se adequar”, completa a brasiliense.

Mas, em qualquer caso, alguns critérios são fundamentais na hora de escolher para onde ir, como acesso à internet – que pode ser resolvida com um bom plano de celular – e um espaço adequado para trabalho. “Apesar das dificuldades, faz muito sentido para mim. Gosto porque não tem nada que me prenda a lugar nenhum”, diz.

Incentivo internacional 

De olho na movimentação econômica que o fluxo turístico proporciona, países ao redor do mundo criaram maneiras de incentivo para receber os funcionários em home office. Confira uma lista:

Barbados: “selo de boas-vindas de 12 meses”, espécie de visto especial para estrangeiros trabalharem remotamente na ilha por até um ano.

Estônia: visto especial para nômades digitais que, ao invés dos típicos 90 dias de permanência, agora poderão viver (e trabalhar) legalmente por até um ano.

Portugal: visto de moradia temporário (de até um ano) para trabalhadores autônomos e freelancers.

República Tcheca: tem um visto de maior duração para empreendedores.

Alemanha: possui um visto específico para freelancers, por três meses, com possibilidade de extensão.

França: em acordo com o Brasil, criou o visto Férias-Trabalho, que permite que brasileiros entre 18 e 30 anos encontrem um emprego na França e fiquem por até um ano no país. 

Tailândia: o país tem uma categoria de visto chamada Smart Visa, que permite que estrangeiros trabalhem por até 4 anos no país.