Dia das Mães sem mãe: mulheres revelam como a data pode ser difícil

Para quem perdeu um ente querido, é normal que os sentimentos de luto, perda e ausência ressurjam em datas festivas

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atualizado 12/05/2019 12:32

Para algumas pessoas, as datas comemorativas podem ser difíceis. Especialmente para quem já perdeu um ente querido ou tem uma relação distante com parentes, o Dia das Mães às vezes traz sentimentos complicados, como luto e solidão.

Para quem enfrenta uma situação como essa, o primeiro conselho oferecido pela psicóloga Sirlene Ferreira é lembrar que o dia é uma data comercial. “E as relações familiares são vivenciadas no cotidiano e não apenas em um momento específico”, aponta. Ela também afirma ser comum sentir tristeza por razões pontuais, mas se o sentimento virar rotina é interessante consultar um especialista.

Além das perdas por falecimento, Sirlene comenta que é cada vez mais comum mulheres que não criam vínculos afetivos com os filhos, gerando uma sensação de luto e ausência parecida com a vivenciada em casos de morte.

A pedido do Metrópoles, cinco mulheres compartilham seus relatos pessoais sobre como lidam com desafios na data:

“Sinto a presença dela em vários momentos”
A jornalista Hanna Yahya, de 22 anos, conta que já passou três Dia das Mães sem a mãe, que morreu em 2015, vítima de câncer. “Na primeira experiência, a ficha não tinha caído, mas no último ano me senti muito mal. Consegui aproveitar, mas não fui capaz de ignorar a falta dela naquele dia. Me refugiei no quarto da minha avó, olhei fotos antigas da família e chorei muito”, conta. “As outras duas datas foram menos sofridas”, confirma.

Para Hanna, o jeito com o qual ela lidou com a perda foi único. Durante a gestação dela, a mãe foi diagnosticada com lúpus. “Eu a vi sofrendo desde sempre, tomando vários remédios e ela nunca estava totalmente bem. No tratamento do câncer, perguntava se sentia dor. Nenhuma vez ela me respondeu que não. Então, quando ela se foi, tive a sensação de que ela, finalmente, ficou bem”, fala.

Nas datas festivas, a jornalista diz lembrar ainda mais da mãe. “É natural ter essa saudade, mas tento pensar que ela está bem, olhando por mim e para a minha família. Nesses dias, precisamos nos prender ao espiritual. Sinto a presença dela sem a ver em vários momentos”. Ela também aproveita para demonstrar amor à irmã mais velha, de quem é muito próxima.

 

Forças para seguir
“O primeiro Dia das Mães sem meus filhos foi em 2011. Ainda estava na cadeira de rodas e fazendo tratamento e foi muito difícil”, fala Vânia Borges de Carvalho. A escritora, de 51 anos, perdeu os filhos e o marido em um acidente de carro. Do luto, Vânia conseguiu achar forças para lutar e ajudar outras pessoas em situações parecidas.

“Achei que nunca fosse sair desse poço tão profundo. À medida que enfrentei as memórias – com muita coragem e vontade de viver – consegui aceitar. Trabalhei bastante minha fé, sempre levando comigo outras mães de luto. Isso me dá forças para seguir”, afirma. Atualmente, a data que celebra a maternidade é de muita saudade para Vânia, mas também de serenidade.

“Sempre choro e é natural que seja assim”, comenta. “Nos outros anos, fiquei com a minha mãe e fui para casa assistir vídeos antigos deles. Depois de chorar bastante, me senti melhor”. Se a data ainda é de muito luto, a escritora recomenda procurar um grupo de apoio e valorizar quem ainda está por perto. “Confio em Deus. Não imagino uma caminhada tão cheia de dores sem um amparo do alto”, diz.

 

Cura pela terapia
“O primeiro Dia das Mães, assim como o primeiro aniversário, Natal e outras datas comemorativas, foi difícil. Minha mãe sempre gostou muito de reunir a família nesses dias. Nossa casa era o local de encontro, então, no início, essas ocasiões traziam a lembrança de como era quando ela estava viva e o vazio da ausência. Lembro de me sentir deslocada”, fala Juliana Benez, de 27 anos.

Onze anos depois da perda, a bióloga diz que a data não traz sentimentos ruins. “A tristeza deu lugar a memórias carinhosas. Quando penso nela, sinto uma enorme gratidão por tudo que vivemos e pelos momentos passados juntas. Tento lembrar que ela deixou vários pedacinhos dela comigo e agora está sempre presente”, afirma.

Para lidar melhor com a perda, Juliana considera essenciais o apoio dos irmãos e a terapia. “Acho importante quem está passando por momentos assim procurar ajuda de um profissional para poder processar esse turbilhão de sentimentos trazidos pela morte”.

 

Pai e mãe
“Perdi minha mãe há 10 anos e o Dia das Mães me incomodava bastante, mas aos poucos foi ficando mais fácil. Na época, a família passou a dar foco ao meu pai, já que ele desempenhava os dois papéis”, lembra Jacqueline Cunha, de 32 anos.

A assistente de marketing começou a encarar a celebração de forma diferente quando ela mesma virou mãe. “Depois que minha filha nasceu, a família voltou a comemorar mais unida”, conta. Atualmente, no Dia das Mães ela recebe toda a atenção e afirma ser bem paparicada.

“Meu pai assumiu mesmo essa função materna e virou minha referência quando ela faleceu”. O maior conselho de Jacqueline é desapegar da data. “É um feriado bem comercial, então foque em pessoas importantes, seja um pai, um amigo ou uma tia”.

 

Contato raro
“Nos últimos anos, a data passou a ter sinônimo de melancolia, especialmente porque com as redes sociais, todo mundo aproveita para postar fotos com suas mães”, conta Luana Siqueira, de 22 anos. 

Quando a mãe se mudou, em 2017, para Minas Gerais com o objetivo de cuidar de um familiar, a relação entre ela e Luana estremeceu. “Tenho uma sensação de perda tanto pela ausência quanto pelo contato escasso. Tento ligar para ela, mas nem sempre dá certo, porque ela mora em um local onde o sinal de telefone é ruim. Antes a gente conseguia conversar mais, hoje em dia é muito raro”, diz.

Desde então, Luana passa o Dia das Mães com a irmã. Para lidar com a data, ela adotou uma postura de aceitar e esperar.

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