Covid-19: o que não se deve dizer a pessoas que perderam alguém

Especialistas explicam porque algumas frases podem soar ofensivas e inapropriadas a quem está de luto

atualizado 27/03/2021 10:30

Yanka Romão/Metrópoles

A pandemia do novo coronavírus mudou a forma como as pessoas se relacionam com a vida e, sobretudo, com a morte. O processo se tornou ainda mais doloroso para quem perdeu entes e amigos para a doença e não pode se despedir, acompanhar o processo de adoecimento ou dar um último adeus.

Confortar alguém nesta situação requer cuidado. Um discurso com boas intenções, com certo descuido, pode se tornar ofensivo. De acordo com a psicóloga Ingrid Cancela, é preciso empatia. “Ter contato com as pessoas a distância, estar disposto a escutar, tratar com respeito e generosidade”, exemplifica.

O apoio detalhado pela psicóloga foi vivenciado pela servidora pública Daniella Sant’ana, de 33 anos, que perdeu o avô para a Covid-19. Ela e a família não puderam se reunir para celebrar os feitos do patriarca, devido ao distanciamento social. Por isso, o apoio recebido de forma virtual foi de suma importância para o processo de luto.

Uma das reuniões de família com Edgar, no centro

“Recebi muito amor das pessoas próximas e até de gente que não falo com regularidade. Foi um momento muito difícil porque meu avô, mesmo com 95 anos, era um idoso ativo. Uma pessoa que lia bastante e sem nenhum tipo de problema, só precisava de uma bengala para ter equilíbrio ao andar”, afirma Daniela.

Edgard Viana De Sant’ana faleceu em junho de 2020, na primeira fase da pandemia no Brasil. Daniela relembra que a família tomou os cuidados para evitar a contaminação do idoso, como o uso constante de máscara facial, por exemplo. Ele e a esposa ficaram protegidos em casa, com o apoio de duas cuidadoras.

“Sempre fazíamos os testes de todo mundo e uma vez deu falso negativo. Uma das cuidadoras estava contaminada e acabou passando para o meu avô”, conta a servidora pública. Em seguida ao diagnóstico, Edgar teve os sintomas da doença e foi internado. Duas semanas depois, no dia 20 de junho de 2020, não resistiu à doença.

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Conduta

A psicóloga Beatriz Breves explica que a solidariedade recebida por Daniela é um exemplo da conduta indicada em processos de luto. “É importante compreender que aquele que perde alguém está sofrendo, portanto, necessita de suporte emocional. No campo da subjetividade, não há regra pré-definida”, pontua.

Segundo a especialista, autora do livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves, cada pessoa tem a própria forma de lidar com o luto. Quando a perda é de outra pessoa, o comportamento envolve também o grau de amizade, confiança e qualidade relacional entre as pessoas envolvidas.

“Uma pessoa sensível e amiga saberá se colocar no lugar de quem está sofrendo, com a máxima do bom senso, carinho e paciência que deve nortear as condutas, principalmente na hora do sofrimento”, salienta.

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No caso da servidora pública, não houve comentários ofensivos, como culpabilização da cuidadora ou colocar em voga a proteção da família com o idoso. No entanto, ela se diz incomodada com o comportamento coletivo em relação à pandemia.

“Dói muito ver as pessoas brincando com a Covid-19 e com o isolamento. Só quem viveu esse período sabe o que é perder um familiar. Vidas poderiam ter sido poupadas”, afirma.

Apesar do sofrimento, Daniela ressalta que o sofrimento poderia ter sido pior. “Perder pessoas agora, sem condições médicas, deve ser uma dor muito mais intensa. Nós ainda tivemos a oportunidade de nos despedir, algo que a maioria das pessoas não conseguiu”, conta. A família pode fazer uma videochamada para dizer adeus a Edgar.

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Ao Metrópoles, Beatriz e Ingrid analisaram frases que podem soar ofensivas ou inapropriadas para pessoas que perderam alguém.

Veja:

“Ele estava se cuidando?” e “tinha alguma doença?”

Perguntas como estas não são indicadas. “Sem dúvida, tem tudo para soar ofensivo, pois, sendo um momento de luto e de sofrimento, não é a hora de levantar possíveis acusações, o que poderia ser sentido como intriga ou fofoca”, salienta Beatriz. Evite ao máximo. A procura por um culpado para a fatalidade traz mais carga emocional a quem está sofrendo com a morte. O mesmo vale para críticas e julgamentos.

“Se estamos diante de um momento de sofrimento profundo por uma perda, a pessoa não deve se posicionar com palavras e atitudes invasivas, mas, sim, com palavras e atitudes solidárias, altruístas e carinhosas, ou seja, empáticas, entendendo que a elaboração de um luto tem seu tempo”, continua a psicóloga e escritora.

Quando alguém se culpabiliza pelo falecimento, a expert indica que também seja prestado apoio. “É importante dar tempo ao tempo. Pode até ser dito que entende o sentimento de culpa, mas que, com o passar dos dias, a situação poderá ser vista com outro olhar”, completa.

O luto é um conjunto de reações a uma perda significativa
“Deus sabe de todas as coisas”

De acordo com as psicólogas, relacionar a morte com religião é uma via de mão dupla se tratando da reação do interlocutor. “Geralmente, para quem é religioso, os possíveis desígnios de Deus servem de conforto ao sofrimento”, pontua Beatriz. Mas, caso a pessoa não siga determinada crença, pode se sentir ofendida.

Portanto, segundo Ingrid, é importante ter cuidado ao utilizar frases do tipo e preferir aquelas que representem conforto. “São mais indicadas do que frases que incitam que a morte foi algo calculado por uma força maior. Não é necessário entrar nesses conflitos no momento doloroso”, completa.

“Nunca poderia aguentar o que você está passando”

Aquele que sofre necessita de apoio e não de comparações. De acordo com Beatriz, frases que comparam a dor da perda com outras podem facilmente ser encaradas como ofensivas.

Para Ingrid, discursos do tipo não são aconselháveis, sobretudo por tirar o foco do sofrimento da pessoa. “Preste atenção ao que ela realmente está precisando, que é conforto, afago. Ao comparar as perdas, você corre o risco de colocar um peso muito maior do que real nas costas da pessoa”.

Compartilhar as experiências de luto no primeiro momento de contato com o enlutado também requer análise do discurso. “Veja se a sua experiência pode de alguma maneira ajudá-la, caso contrário, guarde para outro momento, que não o de primeiro contato. É uma questão da sua avaliação”, alega a especialista.

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“Veja pelo lado bom” e “pelo menos…”

O processo de luto é distinto para cada um. Por esse motivo, as especialistas afirmam que tratar a morte como algo positivo requer cautela e, mais uma vez, considerar a relação com o enlutado. O melhor caminho seria evidenciar a trajetória e histórias alegres do falecido, como uma forma de reviver a memória.

Deixe de lado comentários desse tipo, pois se torna praticamente impossível apontar algo de positivo na perda de quem se ama. É um exercício simples: do outro lado da conversa, você gostaria de ouvir algo parecido?

“Não liguei porque…”

Como bem se sabe, cada pessoa tem a própria forma de lidar com a morte, independente do laço afetivo. Exemplo das diferenças de reação são a escolha para oferecer apoio e um ombro amigo. De acordo com Ingrid, há quem não entre em contato imediatamente, por encarar como um momento inoportuno.

Porém, mesmo que a mensagem não seja em seguida ao óbito, é importante não esquecer de se comunicar. “Busque enviar uma mensagem assim que souber ou no máximo 20 dias após a perda, para que a pessoa saiba que pode contar com o seu suporte, mesmo que a distância”, completa Ingrid.

O apoio psicológico profissional é recomendado para casos de sofrimento profundos

Logo, não há problema em afirmações do tipo “não entrei em contato ou visitei porque imaginei que queriam privacidade”, desde que haja a preocupação verdadeira com o bem-estar do enlutado.

“Todavia, para se colocar mais próximo, poderia ser acrescentado: ‘mas quero que saibam que podem me procurar e contar comigo se precisarem de qualquer coisa que esteja ao meu alcance’”, completa Beatriz.

O que dizer?

Um ombro amigo, gestos de carinho e, claro, apoio e consideração se fazem fundamentais neste momento. Quem perde alguém para uma doença contagiosa como o novo coronavírus espera receber compaixão. Para Ingrid, o ideal são frases como “eu entendo”, sem dividir experiência pessoal, e deixar a pessoa falar, trazer à tona as memórias positivas que se teve com a pessoa, focar naquilo que pode contribuir para o outro e não para si mesmo.

“As palavras não vão tirar a dor do que o outro está sentindo, mas o respeito, o amor, a atenção vão aliviar, mesmo que bem pouco, a tristeza de quem perdeu alguém amado”, finaliza Ingrid.

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