Brasiliense viaja pelo mundo para fazer trabalho voluntário

Depois do terremoto no Nepal, Danniel Oliveira (de azul e branco, à esquerda) reconstruiu 210 casas e 4 escolas. Também auxiliou refugiados no Iraque. Ele já esteve em quase 60 países e continua por aí

O sonho de conhecer o mundo e ainda fazer o bem a outras pessoas tornou-se realidade para o brasiliense Danniel Oliveira, 29 anos. Há 6 anos, ele viaja ao redor do globo fazendo trabalho voluntário. Já conheceu quase 60 países. Ajudou refugiados e trabalhou em ambientes que, até então, não faziam parte da sua realidade.

Esse não é mais um texto sobre “largar tudo e sair por aí viajando”. A gente sabe que a vida pode ser chata, o tédio bate, mas os boletos não param de chegar. A maioria das pessoas não tem condição de simplesmente fugir dessa lógica. Mas, se você tem esse sonho, ainda que não seja filho do Bill Gates, talvez a história do Danniel possa te inspirar a querer ir mais longe.

Danniel economizou por dois anos, deixou emprego e família para trás e foi morar na Irlanda para aprender Inglês. Dali, ganhou o mundo. Em entrevista ao Metrópoles, ele, que está no Iraque, contou detalhes dessa aventura, que pode ser acompanhada no blog Próxima Parada e no Facebook.

Há quanto tempo você está viajando?
Há quase 16 meses direto. Saí da Irlanda, onde morei por 5 anos e meio, em maio de 2015.

Por quais países já passou?
Ao longo de 6 anos e meio de viagem, conheci 56 países. Nessa viagem que está em andamento há quase 16 meses, passei por 16 países, até o momento.

Com o que você trabalhou nesses países?
Fiz trabalho voluntário no Brasil, na Índia, Nepal, Mongólia, Rússia e no Iraque, onde estou neste momento. No Brasil, ajudei com distribuição de alimentos em zonas menos favorecidas e em projetos nos quais levávamos suportes para as comunidades e oferecíamos serviços gratuitos, como acesso a dentistas e advogados, entre outros profissionais que se voluntariavam.

Na Índia, ensinei inglês para crianças e fiz trabalho social de reintegração de mulheres à sociedade. No Nepal, fui duas vezes. Na primeira trabalhei num asilo, na segunda ajudei na reconstrução de vilas após o terremoto de 2015.

Na Mongólia, trabalhei numa fazenda, era inverno, temperaturas chegavam a -45 graus. Minha função era cuidar de animais, era um trabalho bem puxado de 12 horas por dia com temperaturas extremas, mas tenho excelentes memórias

Na Rússia, fiz trabalho voluntário numa cidade que fica no extremo leste do país, chamada Vladivostok, onde ajudei em orfanatos, creches e dei aula de inglês em escolas. Ainda na Rússia, mas no extremo oeste, trabalhei em uma escola de Inglês em Grozny, capital da Chechnya.

No Iraque, país em que estou, trabalho com refugiados de guerra. São quase 3 milhões de refugiados da Síria, Irã e sul do Iraque. A ONG da qual faço parte trabalha para a ONU e UNICEF, então são projetos grandes que envolvem distribuição mensal de alimentos; cadastramento de novas famílias e acompanhamento mensal da situação em que cada família cadastrada está.

A ONG da qual faço parte oferece suporte judicial para os refugiados, para tudo que precisarem. Criamos atividades para crianças nos centros comunitários dentro dos campos de refugiados, onde temos aulas de inglês, costura, cabeleireiro, música e computação

Damos palestras instrutivas para mulheres sobre a questão de violência sexual e também sobre mutilação genital feminina, algo que infelizmente acontece muito por aqui, entre outras muitas atividades que a ONG atua no norte do Iraque.

Qual foi a experiência mais marcante?
Em abril de 2015, aconteceu um terremoto no Nepal, país que eu já havia visitado e feito trabalho voluntário em um asilo, em 2013. Isso mexeu muito comigo, como eu já estava me organizando havia 2 anos para uma viagem longa, resolvi largar meu emprego e começar minha jornada ao redor do mundo, ajudando um amigo e sua família que havia sido prejudicado pelo terremoto.

Comprei uma passagem e fui direto pra Kathmandu, capital do país. Por meio das redes sociais, utilizei os canais que tenho para externar o que eu estava vendo e mostrar que existiam formas de ajudar aquelas pessoas.

Amigos, amigos de amigos e pessoas que não sei como chegaram aos meus canais, começaram a mandar ajuda. Nos dois meses que fiquei por lá, conseguimos reconstruir 210 casas temporárias, quatro escolas (para 976 crianças) e compramos 14 mil kg de arroz. Essa, com certeza, foi a minha experiência mais marcante de todos os trabalhos que tive a oportunidade de fazer até o momento.

Quais conselhos você daria para quem quer fazer algo parecido com o que você está fazendo?
Acredito que o primeiro passo é começar, sair da zona de conforto, visitar um asilo, uma creche, ver o que precisam, como pode ajudar, movimentar amigos, mobilizar pessoas. Aos poucos, o pequeno projeto torna-se grande e aí as barreiras serão infinitas.

 

Quando você decidiu sair por aí viajando, você vivia com a sua família? Ela te apoiou?
Quando iniciei minha viagem, eu morava em Dublin na Irlanda por 5 anos e meio. Deixei a casa dos meus pais para estudar Inglês por 6 meses e até hoje não retornei para morar em casa, somente anualmente férias com a família.
No início do meu intercâmbio, não tive apoio da minha família, mas depois eles entenderam e super apoiaram. Na minha viagem foi a mesma coisa, eles não entendiam, e ainda não entendem, por que deixei o meu emprego, onde eu era super bem remunerado, para viajar o mundo. Hoje eles me dão apoio total.

Alguém te ajuda financeiramente?
Fui diretor de uma empresa brasileira na Irlanda e em seguida gerente comercial e de marketing de uma faculdade e escola de inglês irlandesa, consegui levantar uma grana boa nos dois anos que antecederam minha viagem, pois foi quando comecei a planejar a volta ao mundo.
Mesmo sabendo das minhas reservas, hoje eu tenho total apoio da minha família e tenho carta branca para pedir ajuda quando necessário. Meus pais são empresários no segmento de telecomunicações,

Você tem formação universitária?
Sou formado em administração e marketing e tenho duas especializações as quais fiz na Irlanda, uma em recursos humanos e outra em marketing. Fiz também cursos gerenciais e motivacionais como coaching, entre outros.

Algumas pessoas acham que o que você fez só é possível para pessoas que têm uma boa estrutura financeira. Você concorda com isso?
Vou te falar a verdade, conheci viajantes que se viram na estrada e assim conseguem viajar por muito tempo. Eles tocam instrumentos em lugares públicos, cozinham em restaurantes, trabalham em hotéis, dão um jeito de levantar grana pra se manter onde estiverem e assim poder dar o próximo passo.

No meu caso, optei por um caminho mais longo, por dois anos me organizei financeiramente, me privando de muitas coisas, para poder arcar com as despesas que estariam por vir. Acredito que não precise ser rico para fazer uma longa viagem, mas você precisa ter recursos para se manter, seja lá onde estiver e para poder dar os próximos passos, contando sempre com possíveis imprevistos.

Planejamento financeiro e de rota, de acordo com as suas economias, será fundamental para que o viajante/voluntário não tenha nenhum problema em sua jornada.

Você dá palestras sobre a sua experiência? O que você diz nelas?
Em minha última visita ao Brasil, fiz palestras em Fortaleza, Natal, Mossoró, Recife, Vitória, Juiz de Fora e São Paulo. A palestra pode ser tanto voltada para algo mais motivacional, quando evo as pessoas a entenderem que é preciso saber o que querem para poder alcançar seu objetivo. Falo sobre a importância de iniciar um planejamento para que os sonhos possam um dia sair do papel e se tornar realidade, sejam eles quais forem.

Também faço palestras sobre trabalhos voluntários, relatando experiências, mostrando fotos e vídeos, e motivando pessoas a saírem da zona de conforto. Mostro que nem sempre o dinheiro é o mais importante nesse trabalho, e sim o seu tempo, a atenção dedicada às pessoas e a forma como você trata aqueles que precisam de você.

Qual foi a situação mais difícil que você enfrentou nesse caminho?
Passei por mais de 150 terremotos no Nepal. Dormi boa parte dos dias em acampamentos que improvisávamos no meio dos himalayas. Levávamos dois dias só para chegar a alguns lugares e fazer o mapeamento do que seria necessário para ajudar.

Não tínhamos água nem comida sempre que queríamos. Foi uma situação extrema de caos, que nunca imaginei viver. Foi bem intensa

Danniel Oliveira

Na Mongólia teve a questão do frio intenso, que foi algo que não tinha como correr. Ao acordar às 6h e abrir a porta da casa que eu estava, sabia que o dia todo seria numa situação de extremo frio.

Na Chechnya, tive muito medo por ser uma região onde os muçulmanos são bem radicais e intensos. É uma área que está em constante alerta vermelho, devido aos movimentos separatistas entre Chechnya e Rússia, além de estar cercada pela Ingúshetia, Ossetia do Norte e Daguestão, repúblicas que não se falam e são vizinhas de porta.

Aqui no Iraque, estou a uma hora de distância de vilas habitadas e tomadas por membros do Estado Islâmico, então, por mais que eu esteja numa área segura, sabemos que a qualquer momento algo pode acontecer.

É uma falsa sensação de segurança, que é vista em todos os momentos. Há inúmeros soldados fortemente armados por todos os cantos de todas as cidades e dezenas de check points espalhados em toda e qualquer rodovia em qual se pense em passar

Quando pretende voltar ao Brasil?
Estou planejando um intervalo na viagem dentro de dois ou três meses e retorno ao Brasil para visitar minha família, fazer algumas palestras e ações voluntárias, pegar alguns vistos e retomar a viagem, que tem algumas possibilidades de roteiro.

Você acha que voltará muito diferente de quem era quando embarcou nessa? O que mudou em você?
Acredito que o Danniel que há seis anos deixou o Brasil para passar seis meses aprendendo inglês e nunca voltou amadureceu bastante. Tive as mais variadas experiências de vida, conheci pessoas de mais de 120 países, viajei por alguns lugares que não imaginaria nem pronunciar o nome.

Dia dia após dia, aprendo algo, seja com diretor da UNICEF no Iraque ou com a senhora que vende pente de cabelo na entrada da estação de ônibus em Stepanakert, capital de Nagorno Karabakh

Danniel Oliveira

Acredito que hoje enxergo que a vida pode ser levada de forma mais simples, com foco em família, amigos e em coisas que te tragam uma felicidade verdadeira. Tudo, seja bom ou ruim, um dia vai passar e precisamos estar prontos para seguir sempre o melhor e mais correto caminho.

De forma que você consiga não só ter o seu, mas que também possa compartilhar o que tiver com os que são menos favorecidos, seja lá o que for: conhecimento, comida, dinheiro, seu tempo… Hoje enxergo que a vida deve ser vivida de forma intensa e celebrada diariamente com aqueles que te cercam, seja lá onde você estiver.

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Mongólia
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