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Quando foi morar nos Estados Unidos, aos 13 anos de idade, Bruno Nogueira era um típico adolescente vivendo o sonho americano. A mãe foi ao país para trabalhar e ele ficaria seis meses estudando inglês, em Connecticut.

Atualmente, aos 31, o riso vem fácil, as brincadeiras também e ele não carrega a expressão de alguém que serviu duas vezes no Afeganistão e – mesmo com tão pouca idade – é um veterano de guerra. Com alguns minutos de conversa as coisas ficam mais claras e as marcas, nenhuma física, começam a aparecer.

O brasiliense sempre foi fã e praticante de esportes nos EUA. Como o ensino superior no país é caro, pensou que pudesse tentar uma bolsa como atleta. O plano não deu certo e pegar um empréstimo era inviável, ele não queria se endividar a longo prazo.

“Pesquisei maneiras alternativas e encontrei. O exército americano destina um valor para o militar investir em universidade ou cursos técnicos. Duas semanas depois me alistei e comecei uma trajetória inimaginável”, conta Bruno, que já tinha o Green Card e depois conseguiu a cidadania.

Durante o primeiro ano, a rotina era tranquila. Baseado na Geórgia, o rapaz treinava e fazia sua formação militar pela manhã. À noite estudava Ciências da Saúde. Em 2006, o jovem estava dentro da sala de aula quando recebeu uma mensagem comunicando que teria a sua primeira missão: ajudar no resgate das vítimas do furacão Katrina, em Nova Orleans. Duração: duas semanas.

Daniel Ferreira/Metrópoles

Para conseguir pagar a universidade, Bruno se alistou ao exército americano

 

Ao retornar para casa, encontrou uma carta. Dessa vez a missão era maior e mais perigosa.Todo seu batalhão havia sido convocado para passar um ano e meio no Afeganistão.

Foram quatro meses de treinamento específico para o trabalho que realizaria – sargento da Infantaria. “Ficávamos na linha de frente em todas as missões. Éramos no máximo 300 pessoas, divididas em grupos menores. Saíamos em comboio, quatro caminhões com cinco pessoas em cada”, conta, com cuidado para não revelar nenhum segredo de guerra.

Chegou no centro da Ásia e comemorou os 19 anos ao lado dos colegas militares. “Experiência de vida mesmo. Aos 20 anos, eu estava colocando torniquete em alguém que perdeu a perna. Antes disso tudo, pensava em um dia ser milionário; depois, só queria ter água potável pro resto da vida”, desabafa.

Saía da base quando chegava um chamado de resgate para soldados americanos. Viu amigos morrendo, alguns em seus braços.

Achava que ia morrer quase todos os dias. Os traços de bala passavam na minha frente. Os caminhões blindados ficavam cheios de marcas. Usávamos muita proteção (quatro coletes à prova de balas) o tempo todo"
Bruno Nogueira

O tempo lá também ofereceu momentos de alegria. Os militares furavam poços para a população dos vilarejos ter acesso mais fácil à água. Antes, muitos nativos precisavam andar até três horas para conseguir encher latas e carregá-las na cabeça.

Daniel Ferreira/Metrópoles

O tempo lá também ofereceu momentos de alegria. Os militares furavam poços para a população dos vilarejos ter acesso mais fácil à água

Com o fim da missão, Bruno voltou para casa com direito a seis meses de férias. Os três primeiros foram dedicados a superar os traumas da guerra. Não conseguia mais andar em carros baixos, desviava de qualquer objeto na rua (por medo de ser uma bomba), entrava em casa pela janela, armado, iluminando o ambiente apenas com uma lanterna. Já são nove anos de acompanhamento psicológico.

Ficou dois anos estudando para ser sargento de Armas da Infantaria. Foi um amigo do batalhão que o chamou para outra missão no Afeganistão, desta vez por um ano. O retorno foi pior, pois era um lugar mais quente, seco e a população do vilarejo estava mais hostil.

O grupo era menor, pouco mais de 50 pessoas, 12 por equipe – o que aumentava a proximidade e tornava as perdas mais sofridas. O retorno para casa foi mais tranquilo, o militar já sabia onde procurar ajuda. Voltou a praticar atividades físicas, meditação, ioga, Crossfit e viajou muito.

Em 2013, terminou a faculdade. O contrato com o exército foi encerrado em 2014. A mãe estava de volta ao Brasil e ele retornou para Brasília.

O Crossfit ainda era novidade no país e Bruno tinha muita experiência, pois a modalidade é inspirada no treinamento do exército americano. Ele se especializou, virou referência nacional no assunto, viaja palestrando, oferecendo cursos e, este ano, abriu com um sócio o box EIXO CrossFit.

Bruno não se arrepende dos desafios: “Sou uma pessoa feliz e não sei como seria minha vida sem tudo isso”. Agora o brasiliense se prepara para uma nova missão. Ele e a esposa Laísa Mendonça estão grávidos de 12 semanas, esperando um menino.



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