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Cirurgia plástica em adolescentes: entenda os riscos e os benefícios

Você deixaria um(a) filho(a) adolescente se submeter a uma cirurgia plástica? Antes de balançar a cabeça e pensar instantaneamente no “não”, primeiro tente entender o motivo de o jovem querer fazer um procedimento estético.

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei 8.069, de 1990, a adolescência abriga a faixa etária de 12 a 18 anos de idade. É justamente nessa fase em que ocorrem as transformações no corpo e, consequentemente, a insatisfação com algum detalhe da aparência.

Nestes tempos, em que o bullying é coisa séria e pode até matar, vale a pena observar se a queixa de um adolescente é apenas uma vaidade ou um problema real, o qual pode precisar de intervenção cirúrgica. E como saber?

“Existe, nessa faixa etária, uma ‘competição’ pela beleza, perfeição. Cabe a nós, médicos, nos posicionarmos com firmeza se não for o caso de uma cirurgia. Os pais trazem os filhos, solicitando ajuda no sentido de dizer que não há a necessidade. A consulta é uma boa forma de saber”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Luciano Ornelas Chaves.

O especialista nota uma diferença nos adolescentes atuais. Para ele, os jovens surpreendem, pois têm um nível de informação muito alto. Eles pesquisam tudo e chegam aos consultórios conhecendo todas as técnicas existentes.

 

Uma pesquisa da SBCP mostrou que Brasília está entre as cinco cidades do país com maior número de realização de cirurgias plásticas. Foram 18 mil procedimentos em 2016.

O número de cirurgias entre jovens de 13 a 18 anos aumentou 56,6% no período de 2009 a 2014. A faixa etária correspondia a 5,7% de todos os procedimentos feitos no país. De 2014 para 2016, houve uma pequena diminuição de intervenções nesse público, caindo para 4,8% do total.

O Brasil é líder mundial no procedimento de ninfoplastia ou labioplastia (cirurgia íntima feminina). De 2015 a 2016, o aumento nessa intervenção foi de 80%, passando de 12.870 para 23.155, segundo levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Apesar de não existirem dados oficiais, calcula-se que metade das pacientes têm menos de 18 anos.

O assunto ainda é um tabu, e poucos jovens querem assumir ou falar publicamente sobre isso. Dois adolescentes entrevistados não quiseram ter seus nomes publicados. Nenhum aceitou fazer fotos.

As mais procuradas nos consultórios
Ginecomastia e pseudoginecomastia (crescimento das glândulas mamárias em homens e aumento causado pelo acúmulo de gordura), otoplastia (correção da chamada “orelha de abano”) e cirurgia na mama (redução ou implante de próteses) são os procedimentos mais realizados em adolescentes.

Para a cirurgiã plástica Ivanoska Filgueira, em alguns casos, a intervenção se faz necessária para evitar constrangimento ao paciente, melhorar sua autoestima e convívio social, a partir de uma adequação física. Ela percebe uma procura maior para diminuir a mama.

“Os adolescentes têm patologias que são próprias da idade. Por exemplo, a otoplastia pode ser realizada em crianças de 7, 8 anos, mas é mais comum na adolescência, com 12, 13 anos. Outra muito comum, afetando metade dos meninos, é a ginecomastia – desenvolvida por alterações hormonais na fase de 14, 15 anos. Tenho pacientes que, em uma fase da vaidade, não frequentavam clubes e evitavam roupas mais reveladoras”, explica Ivanoska.

É o caso do jovem H.M.C., 15 anos. Ao perceber a mama maior que a dos colegas, começou a se esconder atrás de casacos pesados. “Festa na piscina, roupa de academia, essas coisas nem passavam pela minha cabeça. Tentava esconder, para ninguém me zoar. Minha mãe pesquisou a cirurgia, e eu fiz. Não me arrependo, faria tudo de novo”, diz.

No caso das meninas, geralmente o que pega é a questão dos seios. Ou as jovens crescem muito, e a mama não desenvolve proporcionalmente, ou ficam muito grandes, e acontecem os casos de gigantomastia.

Nos dois casos, é preciso esperar o fim do desenvolvimento dos seios, três anos após a menarca (a primeira menstruação). “A maioria em busca de um especialista é jovem adulta. O ideal é esperar até, no mínimo, os 17 anos, a não ser que os seios estejam muito grandes, impactando negativamente a coluna”, diz a cirurgiã plástica Marcela Scarpa.

A estudante Tirza Moura, 15 anos, foi operada há menos de uma semana. Depois de passar um ano pesquisando o procedimento e convencendo os pais, fez o implante de próteses.

Menstruei muito cedo, aos 10 anos, e estava com começo de mama tuberosa [má-formação nos seios, atinge grande parte das mulheres no mundo]. Meus pais, de início, não queriam nem ouvir falar, respondiam que só quando eu fizesse 18 anos. Assistia a vídeos no YouTube de pessoas como eu e colocava para eles verem também. Foi na base da insistência.

Tirza Moura

Em um site, Tirza descobriu que os seios crescem somente até três anos depois da primeira menstruação, então conseguiu a atenção da mãe. Elas procuraram a doutora Ivanoska Filgueira, quem só aceitou fazer o procedimento após parecer positivo de endocrinologista e de mastologista. Não existia nenhum tratamento hormonal, apenas o implante daria resultado.

A mãe de Tirza, Luciane Moura, 43 anos, é psicóloga e percebeu os problemas de autoestima enfrentados pela filha. Mesmo relutante, conversou com o marido e decidiu ouvir os médicos, para saber se a filha poderia se submeter à cirurgia.

“O estalo foi ver a situação atrapalhando as notas dela. Minha filha só tinha esse assunto, não pensava em outra coisa. A médica nos passou muita segurança, e a Tirza já é outra pessoa. Explicamos que ter peito não é tudo na vida, existem outras prioridades, mas não nos arrependemos de termos proporcionado essa mudança e alegria”, diz.

Os procedimentos que podem esperar
Segundo a cirurgiã Marcela Scarpa, a adolescência é um período de crescimento que precisa ser muito bem avaliado. Para ela, a parte de maturação varia de pessoa para pessoa, depende de a puberdade ser mais cedo ou mais tarde – e, da mesma forma, alguns procedimentos podem ser feitos antes, outros não.

“Nariz, queixo e mandíbula precisam ter o crescimento facial ósseo completo, ou seja, a partir dos 18 anos. Homens entram na puberdade mais tarde, então o ideal é esperar até os 20. Muitas vezes, o desenvolvimento corporal não acompanha o psicológico. É preciso ponderar os dois momentos, e cabe ao cirurgião saber a hora certa de operar”, diz Marcela.

Aos 17 anos, P.H.S.G. diz não se lembrar quando o nariz começou a incomodar. As únicas coisas de que se lembra bem é a tristeza ao ouvir piadas na escola, o desconforto ao conhecer pessoas novas e tentar todos os truques para disfarçar o centro do seu rosto.

“Convenci meus pais e fiz a cirurgia com 15 anos. Muita gente falou que eu era muito nova, devia ter esperado, mas não tinha como meu nariz magicamente mudar e ficar bonito. Só quem tem complexo com alguma coisa entende a importância de corrigir. Gostei do resultado e não me arrependo”, fala a adolescente.

A opinião da médica Ivanoska Filgueira não é diferente. “Lipoaspiração e rinoplastia [correção de nariz], nessa fase, não faço. O primeiro, se não for um distúrbio sério, pode ser resolvido com dieta e exercícios. Com as redes sociais e toda essa exposição virtual, as pessoas procuram mais defeitos do que realmente têm. Se os pais tiverem alguma dúvida, quiserem um apoio para conversar melhor com seus filhos, procurem um profissional”, afirma.

Luciano Ornelas Chaves, presidente da SBCP, sugere que o implante de próteses de mamas também seja feito apenas após os 18 anos. “Do ponto de vista médico, civil, é melhor aguardar. Não deixa de ser um procedimento estético – tirando casos de reconstrução mamária – com produto sintético. Por outro lado, um caso de gigantomastia afeta a saúde, a coluna, traz desconforto respiratório, machuca ombros e deve ser tratado, sim”, defende.

Bruna Sabarense

Formada em jornalismo pelo Icesp, trabalhou nas redações do Jornal de Brasília, TV Bandeirantes (Band) e na editoria de Vida & Estilo do portal Metrópoles. Na Oscip Escola Brasil atuou como produtora, redatora e repórter de rádio em projetos para os Institutos Federais e no Selo Unicef Município Aprovado. Já como assessora de imprensa foi chefe das assessorias de comunicação da Administração Regional de São Sebastião e da Secretaria das Cidades do Distrito Federal, tendo atuado também na Subsecretaria de Relações com a Imprensa (Secretaria de Comunicação do GDF).

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