O Brasil de teatro fechado é um país sem capacidade de sonhar

Às vésperas do 58º aniversário de Brasília, vemos ainda o Teatro Nacional de portas fechadas

atualizado 20/04/2018 9:33

Daniel Ferreira/Metrópoles

O governo federal anunciou o fechamento da Caixa Cultural do Rio de Janeiro, um dos mais importantes templos das artes do país. São dois cinemas, três galerias, uma livraria, um teatro e uma infinidade de vidas transformadas.

Toda vez em que a Brasília do poder manda fechar um centro cultural, morremos mais um pouco. Um Brasil com menos um teatro é mais acéfalo. Torna-se aquela nação tola que acredita em armas nas mãos do cidadão para estancar o crime.

O crime se estanca com educação e cultura. Com teatros fechados e escolas desvalidas, a violência prospera

Um Brasil sem teatros é uma nação incapaz de refletir criticamente sobre si mesma. Foi pela urgência de pensar o sentido de existir que o ser humano fez surgir as artes cênicas na Grécia antiga. O teatro origina-se dos ritos pagãos dos povos antigos. Era preciso representar o cotidiano para entender os mistérios da vida e da morte, a temida ira implacável dos deuses, a condição efêmera e finita do homem.

A Brasília que manda fechar teatros exibe, como medalha, o Teatro Nacional de portas lacradas. Ali, pertinho da Praça dos Três Poderes, as luzes sobre o palco estão apagadas. Não ecoa o gesto dramático da atriz a metaforizar respeito ao povo. Nem há espectadores de olhos marejados e corações aos pulos. Só fantasmas a vagar. Espectros de um país que agoniza minuto a minuto. Qual será a próxima barbárie?

Matar jovens negros na periferia, travestis nas esquinas e mulheres na sala de estar há tempos não choca os engravatados do Planalto Central

Qual político, em Brasília, tem tempo para pensar na cultura deste país?

Quando a cultura deixar de ser urgente, aí se configurará plenamente o estado de barbárie. Foi assim há 50 anos. Invadiram teatros, espancaram atores, estupraram atrizes, rasgaram textos teatrais, prenderam artistas e exilaram, com o pé na bunda, nossa sensibilidade.

Augusto Boal, sempre é bom nos lembrarmos dele, desenvolveu os alicerces do Teatro do Oprimido, hoje espalhado pelo mundo, longe da pátria. Era um expatriado apaixonado pelo humano, pelo Brasil

Hoje, perseguem-se artistas no Brasil porque eles se levantam contra uma onda de ódio doentio. Torcem para que Chicos, Camilas, Caetanos, Marietas, Gilbertos, Laertes, Letícias, Elisas, Fernandas e Elzas se cansem e saiam do país. Os mais tacanhos clamam pela morte do corpo, como se o final fosse capaz de calar o grito de liberdade da alma.

A alma, ela é o esteio da arte. Nesse campo subjetivo, tramamos o levante de afetos capaz de iluminar sombras. A alma de uma nação tem o teatro como templo. Quando mandam fechar teatros, querem aprisionar as almas.

Como um governo quer se reeleger se foi incapaz de escancarar as portas da alma?

Nesta comemoração dos 58 anos de Brasília, a alma da cidade seguirá encarcerada pela mesquinhez do poder. Não haverá espetáculo que honre a construção de uma capital federal – orgulhosamente Patrimônio Cultural da Humanidade, por articular, de forma sensível, arte e arquitetura no perímetro urbano.

Com teatros fechados, somos o espelho de um país que se afunda na sombra do poder político. O poder que aniquilou tudo: partidos, homens e honras

Não conseguimos pensar criticamente o país sem sentarmos numa poltrona de teatro e olharmos, com atenção, para as ideias-movimentos transcorridas nas tábuas do palco. É de lá que, fora do afã desvairado nas redes sociais, vemos humanos cutucarem as feridas.

No palco conseguimos criticar, com firmeza, os descaminhos de um Brasil que precisa voltar a se relacionar com a sua alma-sonho

O sonho de testemunhar a população negra e favelada tomar conta das universidades e parar de ser morta aleatoriamente nas periferias.

O sonho de ver índios e quilombolas gozando do direito da terra e do acesso aos bens da vida.

O sonho dos sem-terra em ganhar um chão e os sem-teto, um lar.

O sonho de proteger mulheres, gays, lésbicas e transexuais da morte por ódio.

O sonho do acesso irrestrito para pessoas com mobilidade reduzida.

O sonho do tratamento digno à loucura e ao fim dos manicômios.

O sonho de proteger os animais.

O sonho da cultura para todos.

O sonho do transporte público moderno, bom e barato.

O sonho de educação de qualidade chegar aos cantos mais distantes do país.

O sonho de uma escola com ensino de arte, de filosofia, de sociologia.

O sonho da saúde, dos fins das filas no SUS, das mortes imorais nas macas engarrafadas em emergências médicas sem remédios.

O sonho de ter dinheiro no banco e movimentar a economia que cresce, gera emprego e vida.

O sonho do fim da corrupção.

O sonho de que a notícia do fechamento da Caixa Cultural do Rio de Janeiro seja uma triste e cotidiana fake news.

Vamos sonhar… No sonho, há o alimento pra resistir

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