O primoroso livro de contos de José Rezende Jr.
Em “Os Vivos e Os Mortos”, o ficcionista prende o leitor com uma narrativa veloz
atualizado
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Eu achava que matar alguém com tão pouco tempo de vida pela frente não dava remorso, mas dá, mas remorso do quê, se a vida que ela vivia nem era mais vida?Conto “Ulisses, a Odisseia” (ou: como a literatura salvou a minha vida)
Não me interessa falar sobre mim. O outro é meu desejo. Narro muito na primeira pessoa e esse outro pode ser um assassino. Somos todos seres humanos. E o que me pauta é a humanidade desses personagens, que podem ser assassinos e humanos. Faço isso sem julgamentos. Busco esse humano com seus sentimentos comuns a todos nós
José Rezende Jr.

Noite dessas ela quis vir por cima. Estranhei mas não desgostei, ainda mais com a luz acesa, ela subindo e descendo, os olhos tortinhos de dar gosto. Noite seguinte ela ajoelhou e arrebitou a bunda pro meu lado, que nem cachorra. Onde é que ela aprende essas coisas? Só se for em revista de mulheres. Ou em conversa fiada de vizinha. Mulher quando junta com outra…Do conto “A educação sexual do homem da caverna”


Não gosto de trabalhar com a página em branco. É assustadora essa possibilidade. Fico amadurecendo a ideia dentro de mim. Só sento para escrever quando tenho a história amadurecida. Posso levar dias, semanas, meses e até anos para terminá-la
José Rezende Jr.
Eu adiei o mais que pude. Ajeitei a bola, tomei distância, parei, voltei, ajeitei de novo, girei ela uns 500 graus, como se adiantasse alguma coisa, e o tempo todo eu nem olhando pra cara do goleiro mas eu conhecendo bem a cara dele, a cara dele tava todo dia no jornal, ele tava todo dia na televisão, e agora ele tava ali na minha frente, de braços abertos, pronto pra estragar o resto de futuro que eu podia ter, e ele era enorme, ele desde pequeno comendo três refeições por dia e nós dois frente a frente, ele que já tava com a vida ganha e ainda por cima era branco, e eu que era só o preto pobre tendo que decidir a vida inteira num único chute.
Do conto “Macaco!”

O jornalismo me ajudou e atrapalhou na minha entrada na literatura. Não conseguia conciliar as duas coisas. Chegava em casa exausto com os miolos fritando e não dava conta de escrever ficções. Mas essa experiência me colocou em contato com situação e realidades que não conhecia de perto. Amadureci com essas experiências. Hoje, escrevo ficções e sempre me lembro de uma conversa ou uma imagem dessas reportagens
José Rezende Jr

As trevas cobriam o abismo, e as trevas sempre me incomodaram, apesar das lendas disseminadas sobre minha suposta preferência pela escuridão. Aprecio o abismo, todos os abismos, mas as trevas me deprimem. Não por acaso, entre as infinitas traduções do meu nome, “portador da luz” é a que mais aprecio.
“Gênesis, segundo Lúcifer”
