Fiocruz: médicos recebem presentes da indústria de fórmulas infantis

Estudo revela que 70% dos profissionais recebem brindes de empresas de substitutos do leite materno

atualizado 22/08/2022 18:41

Foto colorida de bebêUnsplash/Reprodução

Um estudo divulgado pela Fiocruz nesta segunda (16/8) mostra que 7 a cada 10 médicos brasileiros recebem brindes e outros benefícios patrocinados por indústrias fabricantes de fórmulas infantis. Dentre eles estão objetos de escritório, refeições, convites para festas, pagamento de inscrições e passagens para congressos.

O achado é preocupante, uma vez que tem influência direta na falta de incentivos à amamentação. O autor do trabalho, Cristiano Boccolini, relata que desde 1986, quando foi realizado o primeiro estudo nacional sobre aleitamento materno, houve pouco avanço em relação às taxas de amamentação exclusiva e continuada.

“Um dos componentes que não favorece a melhoria é justamente o descumprimento da Lei 11.265/2006 por profissionais de saúde, que deveriam estar promovendo o aleitamento materno, mas muitas vezes têm essa questão do conflito de interesse porque acabam recebendo benefícios da indústria que compete diretamente com a amamentação”, afirmou o pesquisador ao jornal O Globo. A legislação promove e protege o aleitamento materno no Brasil e proíbe patrocínios financeiros das empresas de fórmulas infantis a médicos.

O grupo de pesquisadores entrevistou 217 profissionais da saúde em seis cidades brasileiras, e quase metade dos participantes era pediatra. Segundo os dados obtidos, 54% dos médicos que participaram de congressos científicos foram a eventos patrocinados por empresas fabricantes de substitutos do leite materno e 71% recebeu algum brinde das corporações. A proporção é menor entre nutricionistas (40%) e fonoaudiólogos (33%).

O estudo Multi NBCAL contou com a participação de pesquisadores de 10 instituições, dentre elas a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Brasília (UnB). As empresas que mais custearam benefícios para os profissionais entrevistados foram a Nestlé, mencionada por 85,1%, e a Danone, citada por 65,3% dos participantes. Quase metade dos pediatras afirmou ter recebido materiais de escritório das corporações.

Sociedade de Pediatria contesta pesquisa

Em nota, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) diz que as conclusões apresentadas não foram traduzidas com o “rigor científico necessário”, e que algumas das informações divulgadas são diferentes do que de fato está escrito no estudo.

“Os próprios autores reconheceram as limitações de seus resultados e deixaram isso bem claro na parte de discussão do artigo: ‘A limitação desta pesquisa está em sua amostra não ser probabilística, que reduz a possibilidade de generalização dos resultados (…), não devendo ser interpretados como a realidade das cidades avaliadas'”, diz o documento.

A SBP destaca a importância da pediatria e do aleitamento materno de forma exclusiva nos primeiros seis meses de vida, e complementar até os dois ou três anos de idade.

Benefícios do leite materno

O leite materno reduz significantemente o risco de morte infantil nos primeiros cinco anos de vida. As propriedades do alimento fortalecem a imunidade e servem como uma espécie de vacina para os bebês, os protegendo de infecções e suprindo necessidades nutricionais. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o aleitamento materno deve ser exclusivo até os seis meses de idade, e complementar até os dois anos.

O preparo da fórmula infantil geralmente utiliza leite de vaca ou de cabra e altera a composição original da constituição do leite materno, que é usado como modelo para a fabricação. Embora sejam alimentos semelhantes, o leite natural e a fórmula possuem propriedades diferentes, e o pó não substitui integralmente os benefícios da amamentação.

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