“É uma bomba que vai explodir”, diz presidente da Unimed sobre saúde

Orestes Pullin defende uma mudança de modelo na saúde pública e na privada para garantir melhor atendimento aos usuários

atualizado 25/04/2019 11:54

Unimed/Divulgação

O presidente da Unimed do Brasil, Orestes Pullin, presidente da Unimed, está preocupado com os rumos da saúde no país. A empresa é responsável por 37% dos clientes de planos de saúde nacionais e pretende puxar a discussão sobre o colapso da área caso o modelo de assistência não seja revisto. Quem precisa do sistema público reclama da qualidade e da disponibilidade de serviços, enquanto os gestores repetem que falta recursos. Do outro lado, quem não desistiu de pagar o plano de saúde reclama sobre os altos custos do cuidado privado.

Para Orestes, o tema é uma bomba-relógio pronta para explodir. Em conversa com o Metrópoles, o médico paranaense explica as implicações do sistema adotado no Brasil, a judicialização da área médica e o futuro do modelo de atendimento da saúde privada no país. Confira:

Financiamento da saúde 
“Hoje o financiamento do setor de saúde no Brasil é feito pelos setores públicos e privados. O privado entra com 57% de todo o financiamento e atende mais de 47 milhões de pessoas. O público, em contrapartida, é responsável por 43%, mas atende 160 milhões. Se pegarmos a Inglaterra, que tem uma economia mais ou menos do tamanho da nossa, 80% do investimento de saúde vem do sistema público, e a diferença é que eles só tem 60 milhões de habitantes. Aqui, falamos de 210 milhões. Quando começamos a comparar com o resto do mundo, percebemos que vamos ter um baita problema mais para a frente. Precisamos rediscutir essa conta, tanto no setor privado, quanto no público.

O Brasil vem discutindo há bastante tempo várias demandas da sociedade, como tributação, segurança, previdência. Mas a saúde nunca foi discutida com profundidade e é uma vontade da população, todo mundo reclama. Tivemos uma mudança política grande nas últimas eleições, e é hora de conversar com os políticos sobre esse assunto. A Unimed têm, hoje, 18 milhões de clientes e isso nos dá, de certa forma, uma responsabilidade de puxar a conversa.

O setor público tem um problema que é a falta de recurso. O do privado é a situação econômica do país — sem dinheiro, o beneficiário tende a cortar o plano de saúde, cada vez mais caro. Precisamos começar a discutir propostas para ajudar os dois lados: o custo da saúde só vai aumentando com o envelhecimento da população e o incremento de novas tecnologias e tratamentos. É uma bomba que vai explodir.”

Judicialização
“É uma jabuticaba: só existe no Brasil. Não há um entendimento claro da justiça. Alguns procedimentos que são pedidos na Justiça, muitas vezes não têm base em evidências, mas os juízes ficam acuados pela pressão dos órgãos de defesa do consumidor e não têm onde se apoiar para uma decisão mais correta. É um custo extremamente alto que cai nas costas da população: ou na falta de serviços para o setor público ou em custo para o beneficiário do setor privado. Estamos trabalhando junto com alguns juízes e promotores no sentido de criar núcleos de atenção à saúde no Judiciário.”

Planos de saúde
“Uma discussão que estamos tendo é o modelo de atenção à saúde. No setor privado, o modelo que há não é muito adequado nem em termos de qualidade, nem de custo. Se você tem uma dor de cabeça, procura o pronto-socorro. É o pior lugar para ir. Você é atendido, faz exames, sai. Se não melhora, vai em outro hospital, faz os mesmos exames, é medicado e sai. Se precisar, vai para o terceiro médico. Esse modelo é caro, ineficiente, não dá segurança ao paciente.

O ideal é ter um médico que você tivesse acesso fácil, que pudesse te encaixar, encaminhasse para exame, se for o caso, medique, indique para especialistas em cirurgia, por exemplo, e acompanhe o caso até o fim. É ter um cuidado organizado da sua vida de saúde. É necessário mudar o modelo brasileiro do setor privado, e isso passa pela inserção da atenção primária à saúde, de ter um médico que o conheça.

Estamos desenvolvendo essa tecnologia e já temos o produto no mercado, mas ainda é pequeno. Cerca de 300 mil dos nossos beneficiários já estão com esse novo modelo. A concorrência também está fazendo isso. Tenho falado muito que é preciso criar um prazo para essa mudança, estipular que daqui a 10 anos vai ser assim, os planos vão ter que se adaptar. Hoje não tem nem médico de atenção primária, na Europa 40% dos médicos é especializado nessa área: no Brasil, menos de 1%. Estamos investindo na formação deste tipo de profissional.

Hoje esse modelo é mais barato, mas vai ser muito mais no futuro porque vai conter custos desnecessários, dá sustentabilidade futura para o sistema. Permite que as pessoas continuem no plano de saúde sem aumentos absurdos.”

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