Coronavírus: a ascensão e a queda da cloroquina nas redes sociais

O debate sobre o polêmico medicamento foi abandonado pelo presidente Jair Bolsonaro e perdeu força no Twitter

Assim como nos discursos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a presença da cloroquina nos debates em redes sociais diminuiu consideravelmente. O medicamento chegou a ser apontado como salvador da pátria pelo chefe do Palácio do Planalto, apesar de não haver nenhum estudo científico apontando a eficácia no combate ao novo coronavírus.

Como aconteceu nas outras polêmicas levantadas pelo mandatário da República, o fármaco não ficou muito tempo sob os holofotes. As postagens contendo a palavra cloroquina passaram de 181, em 18 de março, para 38 mil, no dia 8 de abril. A partir daí, a queda foi brusca – até despencar a 4,3 mil menções, feitas em 7 de maio, mesmo patamar do dia 3 de abril.

Para chegar a esses números, o (M)Dados, núcleo de jornalismo de dados do Metrópoles, analisou todas as publicações feitas no Twitter contendo a palavra cloroquina desde o início de 2020. Para isso, foram utilizadas a linguagem de programação Python e as bibliotecas Twint e Pandas.

O gráfico abaixo mostra a quantidade de publicações por dia sobre a cloroquina:

As postagens sobre a cloroquina no Twitter deram o primeiro salto em 19 de março. Foram 2,1 mil publicações contra 181 no dia anterior. O assunto disparou quando, na tarde daquela data, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, revelou ter pressionado a agência reguladora do país (FDA, na sigla em inglês) a liberar o medicamento.

Em 21 de março, houve novo avanço – 4,6 mil menções sobre o composto. O secretário-executivo do Ministério da Saúde disse na coletiva daquela tarde que a pasta poderia liberar o uso do medicamento para casos graves de coronavírus. Oito dias depois, o presidente chegou a fazer duas postagens sobre assunto – que foram em seguida apagadas pela rede social.

A guinada seguinte começou em 5 de abril, com 7,7 mil tweets, e culminou com 38,1 mil publicações no dia 8 de abril.

Em 5 de abril, o presidente Jair Bolsonaro compartilhou a mensagem de um médico defendendo o remédio. No noite seguinte, ele convidou a oncologista Nise Yamaguchi, defensora do medicamento, para participar do governo. Em 7 de abril, ele postou um vídeo da médica sobre o assunto.

Já em 8 de abril, pico absoluto das postagens contendo o termo, o presidente defendeu o uso do remédio em um pronunciamento à nação. Horas antes, médicos na Suécia anunciaram que desistiam de um estudo sobre o assunto por conta dos riscos adversos causados pelo uso do medicamento.

Depois dessa alta brusca, a quantidade de postagens caiu paulatinamente até um novo sobressalto em 15 de abril. Na coletiva diária, já de saída do governo Bolsonaro, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta fez críticas ao medicamento. Além disso, na noite anterior, um estudo envolvendo o remédio foi suspenso por ser perigoso para os participantes.

Os dois últimos picos, muito menos expressivos do que os anteriores, foram observados em 24 e 29 de abril. O próprio chefe do Executivo moderou o tom ao falar do assunto em 20 de abril.