“Insuportável”: moradores cobram ação contra mau cheiro na Billings

“Insuportável”: moradores da zona sul de São Paulo relatam enjoo e tontura com mau cheiro na represa Billings

atualizado

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Imagem mostra represa Billings - Metrópoles
1 de 1 Imagem mostra represa Billings - Metrópoles - Foto: William Cardoso/Metrópoles

Moradores da zona sul de São Paulo fizeram um abaixo-assinado cobrando a ação de autoridades para resolver o problema do mau cheiro na Represa Billings. O grupo relata que o “odor de esgoto” tem impactado a saúde e a qualidade de vida de quem mora e trabalha próximo à Billings.

“Na noite passada eu não consegui dormir por causa do cheiro ruim”, conta Mayara Torres, de 30 anos. Moradora do bairro de Pedreira, a advogada é fundadora do projeto Direito Nosso, organização que atua na defesa dos direitos das populações periféricas, e foi uma das responsáveis pelo abaixo-assinado.

Mais de 3,6 mil pessoas de bairros como Pedreira, Interlagos e IV Centenário já colocaram seus nomes no documento, desde o dia 6 de dezembro. Os moradores reivindicam que a Prefeitura de São Paulo e o governo estadual façam um plano urgente para acabar com o mau cheiro, e cobram mais fiscalização, limpeza e tratamento de esgoto na região da represa.

Enjoos, náuseas e tonturas

Nos comentários da plataforma que recolhe as assinaturas, pessoas contam que têm passado mal por causa do cheiro.

“Vivemos com janelas e portas fechadas nesse calor e, mesmo assim, temos ânsia ao fazer refeições”, comentou Sandra Ferreira. “Passo o dia enjoada, não consigo comer e nem posso receber visitas. Esta situação tem que ser resolvida”, disse outra usuária, que se identificou como Camila.

A auxiliar de logística Yasmim Souza, de 25 anos, mora próximo ao Autódromo de Interlagos há seis anos e diz que a situação nunca esteve tão ruim quanto agora. “Nunca vi esse cheiro do jeito que está. Sempre no final do ano fica ruim, mas agora tá muito pior”, afirma ao Metrópoles.

Ela conta que não tem conseguido comer em casa por causa do problema. “A gente não tem nem apetite para comer”, diz, comentando que até os cachorros da família estão se alimentando menos neste fim de ano.

A jovem relata ainda que tem sofrido com crises de tontura sempre que fica muito tempo em casa.

A professora Iula Marques, de 42 anos, contou que a situação tem afetado alunos e funcionários na escola onde trabalha, no Parque Residencial Cocaia, no Grajaú.

“Chega a ser insuportável. A princípio, a gente achou que era um problema da escola, mas, quando começamos a pesquisar, vimos que era da represa, estava em toda a região. É um cheiro que não dá para aguentar, é muito forte”, afirma.

Iula diz que o fedor fica pior em dias de sol e quando chove depois de muitos dias secos. Nessas ocasiões, ela conta que chega a passar mal, com tontura e enjoo.

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Represa Billings na altura da Avenida Mar Paulista
Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo
Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo
Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo
Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo
Represa Billings na altura da Avenida Mar Paulista
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Represa Billings na altura da Avenida Mar Paulista

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Represa Billings na altura da Avenida Mar Paulista
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Represa Billings na altura da Avenida Mar Paulista

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Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo
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Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo

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Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo

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Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo

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Represa Billings na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, zona sul de São Paulo

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Aquático, na Represa Billings, na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, na zona sul de São Paulo
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Aquático, na Represa Billings, na região do Cantinho do Céu, no Grajaú, na zona sul de São Paulo

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De onde vem o cheiro

Coordenadora do Laboratório de Análise Ambiental do Projeto Índice de Poluentes Hídricos (IPH) da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), a bióloga Marta Marcondes diz que o forte odor é resultado da ação de microrganismos em meio à poluição da represa.

“Esses microrganismos são o que a gente chama de cianobactérias. Quando você começa a sentir esse cheiro, significa que há um aumento exacerbado desses microrganismos”, afirma a pesquisadora, que há anos estuda a qualidade das águas da represa.

Esgoto e eutrofização

  • Marta afirma que o esgoto não tratado jogado na Billings, assim como a reversão do Rio Pinheiros, que leva a água do rio para a represa em dias de chuva, tem colaborado para acelerar um fenômeno conhecido como eutrofização.
  • “A eutrofização é quando você joga muita matéria orgânica dentro de um corpo hídrico e esse corpo hídrico reage. Quem decompõe aquela matéria orgânica são microrganismos, que usam o oxigênio para decompor. Quando eu jogo muita matéria orgânica, os microrganismos vão usando todo o oxigênio que tem lá.”
  • O fenômeno provoca a coloração turva da água e também a morte de peixes. Segundo a bióloga, conforme o oxigênio diminui, entram em cena microrganismos que, para fazer a decomposição, liberam compostos responsáveis pelo cheiro ruim, como metano, sulfeto e sulfato.
  • A pesquisadora diz que é preciso investir na limpeza e na oxigenação das águas para melhorar o cenário.

A Sabesp, por outro lado, diz que as redes de coleta de esgoto no entorno da Billings operam normalmente.

“Nesta segunda-feira (8/12), a Companhia acompanhou uma inspeção na região da represa para verificar a qualidade da água, não sendo constatado problema no sistema de esgoto da empresa”, diz nota enviada ao Metrópoles.

A companhia afirma que entre os motivos que podem causar alteração no odor estão a falta de chuva, que causa uma baixa nos reservatórios e a proliferação de algas.

Até 2024, a gestora da represa era a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), que foi comprada pela Sabesp no mesmo ano. A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) é a agência ambiental paulista responsável pelo desenvolvimento de ações de controle, licenciamento, fiscalização e monitoramento das atividades potencialmente poluidoras.

MPSP acionado

Mayara diz que os odores têm impactado também comércios e serviços da região. A advogada conta que funcionários de uma academia da Estrada do Alvarenga têm usado sprays para tentar aliviar o cheiro da represa para seus clientes. Há relatos, ainda, de restaurantes com vendas prejudicadas por causa do problema.

Por meio do projeto Direito Nosso, ela acionou o Ministério Público de São Paulo e pediu a instauração de um inquérito e uma ação civil pública para investigar a responsabilidade pelos danos ambientais e sanitários decorrentes do mau cheiro.

O grupo também enviou um ofício à Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística solicitando uma reunião com a Sabesp, a Cetesb e a Emae para discutir uma solução para o caso.

“As pessoas só querem viver bem, descansar depois de um dia de trabalho. É muito frustrante ver que a gente precisa se esforçar para conseguir o mínimo”, diz Mayara.

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Represa Billings vista do bairro Jardim Apurá
Loteamento clandestino nas margens da Represa Billings
Represa Billings
Lixo nas margens da represa Billings
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Lixo nas margens da represa Billings

Jessica Bernardo / Metrópoles
Represa Billings vista do bairro Jardim Apurá
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Represa Billings vista do bairro Jardim Apurá

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Loteamento clandestino nas margens da Represa Billings
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Loteamento clandestino nas margens da Represa Billings

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Represa Billings
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Represa Billings

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Outro lado

A Prefeitura de São Paulo afirma que realiza periodicamente a limpeza de aproximadamente 10 córregos que deságuam na Represa Billings, removendo cerca de 37 toneladas de resíduos por mês. Além disso, promove a coleta dos resíduos comuns, recicláveis e de saúde em toda região.

De acordo com a administração municipal, na atual gestão, o Programa Mananciais já transformou a vida de mais de 40 mil famílias que vivem no entorno das represas Billings e Guarapiranga com a entrega de 1.689 novas unidades habitacionais entre 2021 e 2004, além de parques, áreas de lazer e projetos de urbanização, totalizando mais de R$ 3,77 bilhões em investimentos.

“Não há registros consolidados, até o momento, que confirmem uma relação direta entre as queixas de náuseas, tonturas ou dor de cabeça e o odor proveniente da Represa Billings. As equipes da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) seguem orientadas a avaliar todos os pacientes. Como medida preventiva, a população deve manter os ambientes ventilados, evitar exposição prolongada ao odor sempre que possível e procurar a unidade de saúde de referência em casos de sintomas persistentes ou agravamento do quadro clínico”, completa a nota da prefeitura.

A Sabesp afirma que a qualidade da água da Billings depende de “várias iniciativas”, além da ampliação do saneamento básico, e cita, como exemplos, combate a lançamentos clandestinos de esgoto, a recuperação de fauna e flora, e a correta destinação do lixo jogado nas ruas.

“A empresa esclarece ainda que está investindo cerca de R$ 70 bilhões para levar saneamento para todos até 2029, quatro anos antes da meta nacional estabelecida no Marco Legal do Saneamento Básico. Esse investimento irá completar a infraestrutura de coleta e tratamento de esgoto nas cidades atendidas pela Sabesp”, diz a nota da empresa.

Procurada, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística não enviou posicionamento até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

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