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Sandro Ricci e Fernanda Colombo

JEFERSON GUAREZE/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Grêmio tem poucas chances de reverter no tapetão o resultado do campo

Da Redação
 

O Grêmio não deverá reverter na Conmebol a derrota dessa terça-feira (30/10) no campo para o River Plate. O técnico dos argentinos, Marcelo Gallardo, declarou ter ciência de estar infringindo as regras ao se comunicar via rádio com seu assistente técnico e ao visitar o vestiário do seu time no intervalo do jogo. Mesmo assim, as chances de vitória dos gaúchos no tapetão são ínfimas.

O regulamento disciplinar da Conmebol prevê apenas três motivos para reclamar contra o resultado de uma partida: escalação indevida; decisão de um oficial de jogo que tenha influenciado no resultado do jogo, exclusivamente, em supostos de corrupção arbitral; e qualquer outro incidente grave, estabelecido pelo regulamento disciplinar, que tenha tido influência no resultado da partida.

A única chance para o Grêmio seria convencer a Conmebol de que: 1) a conduta dolosa do técnico do River foi grave, considerando que o regulamento proíbe qualquer membro do corpo técnico sancionado com suspensão de acessar o vestiário e se comunicar com sua equipe; e 2) essa conduta influenciou no resultado da partida.

Essas teses são muito difíceis de serem provadas porque necessitam o estabelecimento de um nexo causal entre o incidente grave e sua influência no resultado. O Grêmio, portanto, somente conseguirá reverter a derrota sofrida no campo se conseguir provar que a participação de Gallardo via rádio ou no vestiário da equipe causou o resultado da partida.

LIAMARA POLLI/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Jogadores do Grêmio reclamam com a arbitragem

 

O Grêmio tem razão ao reclamar da arbitragem no jogo dessa terça-feira (30/10) contra o River Plate que classificou o time argentino para a final da Libertadores. Além da omissão da equipe de arbitragem para coibir a comunicação entre o auxiliar técnico e o treinador do River Plate, o gol de empate dos hermanos foi feito após a bola desviar no braço do atacante Rafael Borré antes de entrar. Um lance praticamente impossível de ser detectado pelo árbitro do jogo, o uruguaio Andrés Cunha, mas capaz de ser percebido pelo VAR, seu compatriota Leodan Gonzalez.

O lance foi tão sutil que nem os jogadores do Grêmio reclamaram de mão. O único indício dentro de campo da irregularidade, depois comprovada pela imagem da TV em câmera lenta e ampliada, foi a olhada para o juiz do autor do gol no início da sua comemoração. Mas se o árbitro tem a seu favor a dificuldade do lance, o erro pela não anulação do gol recai todo sobre o VAR – incapaz de perceber a infração.

Muitos fanáticos acreditam em má-fé ou mesmo em um suposto complô da Conmebol contra times brasileiros por causa da fragilidade política da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), principalmente após a instituição ter votado no Marrocos, em vez de nos EUA, como sede da Copa do Mundo de 2026 – rompendo o acordo com demais países da América do Sul.

Não acreditamos minimamente nessas teorias da conspiração. Outros, aos quais nos unimos, criticam a escala do árbitro uruguaio, já que foi ele quem no ano passado, na função de VAR, deixou de chamar o árbitro de campo, o colombiano Wilmar Roldan – o mesmo do jogo desta quarta (31) entre Palmeiras e Boca Juniors – para marcar um pênalti a favor do River contra o Lanus na semifinal da Libertadores. À época, os argentinos atribuíram sua desclassificação à arbitragem.

Apesar desse histórico nada favorável ao Grêmio, a explicação do erro dessa terça (30) está, primeiro, na dificuldade do lance, na sutileza da infração, e, segundo, na falta de experiência do VAR em checar com mais cuidado a situação, principalmente quando um gol é marcado e os árbitros de vídeo não têm pressa em confirmá-lo.

Não é a primeira vez que isso acontece. Na temporada 2017/18 do campeonato alemão, em um jogo entre Borussia Dortmund e Schalke 04, o atacante do Borussia Aubameyang dá um carrinho para fazer o gol e a bola acaba entrando depois de tocar no seu braço. Nem o árbitro nem o VAR viram o toque de mão e, assim como no caso da Libertadores, o tento irregular foi validado.

O erro é inerente a qualquer atividade profissional. O problema maior – e crônico – é que na arbitragem, tanto os árbitros de campo quanto os de vídeo aprendem a trabalhar nos jogos. Os treinamentos evoluíram muito nos últimos anos e a Conmebol foi pioneira no mundo ao propor a realização de competições amadoras para treinar o uso da tecnologia.

Contudo, esses treinos duram cerca de duas semanas e, quando os árbitros voltam aos seus países, deixam de praticar o VAR porque o equipamento não é utilizado nas competições locais. O Brasil é o único país da América do Sul a utilizar o VAR em uma de suas competições. Essa falta de prática distancia a arbitragem da excelência. É o mesmo que deixar o jogador sem treinar e esperar dele um alto rendimento nos jogos.

Pode dar certo algumas vezes, mas não sempre. É como trocar a roda com o carro em movimento. Você aprende a dirigir, a respeitar as regras de trânsito, mas tem dificuldade para reagir diante de situações novas e inusitadas. Assim é a arbitragem atual, tanto de campo quanto de vídeo. O treino dos árbitros é o jogo oficial. E com o juiz de vídeo, a situação não é diferente, lamentavelmente para o futebol. Espera-se melhor sorte ao Palmeiras nesta quarta-feira (31).

Sandro Meira Ricci é árbitro de futebol e representou o Brasil na Copa da Rússia. Fernanda Colombo é ex-auxiliar de arbitragem. Eles são casados.

 
 


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