A importância da ética e do compliance no futuro do Brasil

Os dois temas visam ampliar o conhecimento e reforçar a importância de se observar e cumprir leis, normas e regulamentos

Jirapong Manustrong/istock.com

atualizado 06/02/2020 16:17

Você já ouviu falar sobre compliance? O mais provável é que tenha ouvido, e quando ouviu, pesquisou, com curiosidade, o que viria a ser esse novo aparente modismo corporativo. Se você pesquisou, descobriu que o termo em inglês é traduzido para o português como “estar em conformidade com”.

Lendo exemplos, você descobriu que não se trata de modismo, mas de uma necessidade urgente, afinal de contas, regulações, leis e normas existem aos milhares, e adequações evitam crises, diminuem riscos e melhoram a competitividade do seu negócio.

Imagino que ao ter este primeiro contato com o conceito de compliance, percebeu sua importância para o universo corporativo, os governos e as instituições não governamentais, mas, provavelmente, não parou por aí. Você refletiu e entendeu que compliance vai além: trata de comportamento ético e deveria ser ensinado a todos, ainda na infância. Estou certo? Pois foi a essa conclusão a que cheguei depois da minha própria reflexão.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) indicou que a principal responsável pela angústia dos brasileiros – independentemente de idade, nível de escolaridade, renda e região do país – é a corrupção. No ranking gerado pelo estudo, ela ficou à frente de temas tão urgentes e impactantes como a saúde e a segurança públicas, a pobreza e o desemprego, entre outros.

Além disso, um teste recente sobre integridade, realizado pelo Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental (IPRC), apontou que profissionais brasileiros tendem a aceitar ações antiéticas. Quase metade dos entrevistados demonstrou ter tendência a sucumbir a desvios ou a não denunciar colegas que desviam bens da empresa. Será que estes resultados decepcionantes ainda seriam registrados se, enquanto crianças, todos os brasileiros tivessem recebido uma “educação para a ética”? Segundo o filósofo e matemático grego Pitágoras, se educarmos as crianças, não precisaremos punir os homens. A máxima continua aplicável nos dias de hoje

Não é surreal imaginar que a promoção da cultura da integridade nas escolas poderia gerar impacto semelhante ao produzido pela educação ambiental – que tem aumentado a consciência e estimulado comportamentos sustentáveis. Hoje, meus sobrinhos têm muito mais preocupação com o meio ambiente do que eu tinha na idade deles, por exemplo.

Agora, imagine como o nosso país pode vir a ser com as próximas gerações vivendo a ética nos negócios, no setor público, no trânsito, em suas relações… o futuro parece bem mais promissor.

Ao abordar o debate sobre o ensino de valores nas escolas, algumas questões sobre o papel do Estado e da família entram em cena. Até que ponto a escola pode interferir na formação da criança sem ferir valores peculiares de cada família ou comunidade? Existe uma preocupação evidente na sociedade acerca do que um governo defende que deva ser ensinado e do que os pais e familiares querem que seus filhos aprendam.

No entanto, quando se trata de compliance, não vejo motivo para questionamentos. Aqui é sobre ampliar o conhecimento e reforçar a importância de se observar e cumprir leis, normas e regulamentos, diante dos quais somos todos iguais.

Um passo interessante visando ao investimento na cultura da integridade foi dado em 2017, com o lançamento da campanha #TodosJuntosContraCorrupção. Esta campanha tem como objetivo mobilizar a sociedade ao contribuir para a formação de cidadãos mais conscientes, íntegros e engajados no enfrentamento à corrupção, em todas as fases da vida. A prevenção primária, que ocorre quando crianças, adolescentes, jovens e adultos participam de atividades de formação ética nas escolas, universidades e nas organizações é o foco principal dessa iniciativa. Dado o contexto atual do Brasil, não é demais dizer que ela precisa ser estimulada, apoiada e replicada, para que atinja seu objetivo.

Hoje, rodeados de amostras do quanto a corrupção nos prejudica, mantém-se válida a antiga máxima: é melhor prevenir do que remediar. Retomando Pitágoras, é melhor educar hoje do que punir amanhã.

Aurélio Maduro é cientista político, mestre pela George Washington University e professor na especialização em Compliance CPGIS/Face/UnB

Últimas notícias