Um giro no Palácio Itamaraty para encontrar Fayga Ostrower

Exposição de obras da artista polonesa pode ser conferida durante breve temporada, até 20 de fevereiro

As obras do Palácio Itamaraty, cá na nova capital, ainda estavam por terminar naqueles idos de 1967. Encarregado da transferência do Ministério das Relações Exteriores, o embaixador Wladimir Murtinho não deixou a cidade do Rio de Janeiro sem ter feito um último e mui especial arranjo.

Fayga Ostrower, cidadã polonesa de origem judaica, criada e amadurecida como artista no Rio de Janeiro, tinha assumido uma posição singular no cenário nacional das artes plásticas. Em suas mãos, a gravura lentamente deixava de ser linguagem de apoio ao universo regionalista brasileiro e ia muito além de sua vocação para servir à denúncia política e social.

Com Fayga Ostrower, uma gravurista que também trabalhava como aquarelista, a gravura assumia cores e manchas, derivava em definitivo para o abstracionismo.

Wladimir Murtinho sentia que Fayga Ostrower era a artista que o Palácio Itamaraty precisava, naquele final de anos 1960, para melhor amarrar seu acervo de quadros e esculturas, tapetes e móveis, passando por diferentes estilos, tendências e épocas.

Eis a origem do Políptico do Itamaraty, obra em xilogravura de Fayga Ostrower. Mantido distante dos olhos do público por décadas, o conjunto acabou destinado a enfeitar distintos gabinetes a portas fechadas. Mas agora pode ser visitado lá mesmo no Palácio Itamaraty – em breve temporada, até 20 de fevereiro.

Para o prezado visitante ter acesso à obra de Fayga Ostrower, precisa se dispor a percorrer todo o habitual roteiro de visitação da instituição. Então vamos lá…

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Palácio Itamaraty, entrada lateral
Hall do Itamaraty
Treliça de Athos Bulcão na Sala dos Tratados
Baixo relevo em mármore de Athos Bulcão
Mary Vieira, Polivolume (1970)
Jardim Aquático de Roberto Burle Marx
Hall do Itamaraty
Franz Weismann, Transfiguração

 

Como tudo o que acontece no Itamaraty, as visitas guiadas também seguem um protocolo. O interessado deve vestir um par de calças compridas e aparecer num dos horários marcados: 9h, 11h, 14h, 15h, 17h. Desde que os eventos palacianos e/ou os esquemas de segurança assim o permitam.

Se não for uma autoridade em agenda oficial, o senhor visitante deve se dirigir à entrada lateral, servindo-se da estreita rua de serviço entre o palácio e o Ministério da Saúde.

O site da instituição está razoavelmente aparelhado, mas o telefone costuma dar sinal de ocupado ou tocar em vão até a ligação cair.

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Alfredo Volpi, O Sonho de Dom Bosco (1966)
Cândido Portinari, Os Gaúchos (1939) e Jangadeiros (1939)
Jean-Baptiste Debret, Coroação de Dom Pedro I (1828)
Pedro Américo, estudo para o quadro Independência ou Morte (1888)
Tomie Ohtake, óleo sobre tela
Maria Martins, O Canto da Noite (1968)
Victor Brecheret, Banho de Sol
Bruno Giorgi, Meteoro (1960)

 

Seguindo os passos do guia, o grupo de visitantes adentra o lendário átrio do Itamaraty por uma singela passagem lateral. De toda forma, o impacto é inevitável. Aqui se encontra a arquitetura de Oscar Niemeyer em seu grau máximo: o amplo vão livre, desimpedido de colunas ou pilastras, a escada circular que sobe ao mezanino ao mesmo tempo em que fura o piso num negativo que dá acesso ao andar inferior.

De fora a fora, numa das paredes laterais de mármore, revela-se um baixo-relevo de Athos Bulcão. E a parede de trás, na real, ela sequer existe, substituída pelo Jardim Aquático de Roberto Burle Marx. Escapando por entre a vegetação, toda importada da Amazônia, enxerga-se um resquício de urbanidade, o prédio conhecido como Submarino Amarelo, um anexo ao palácio.

O Itamaraty também tem um outro edifício anexo de arquitetura peculiar, o Bolo de Noiva, permitindo que o Palácio em si fique um tanto desabitado mesmo em um dia de trabalho normal para o funcionalismo público, como esta manhã de quarta-feira. Seus dois andares são destinados, em grande parte, a salões oficiais para eventos de magnitude realmente palaciana – além de três salas de jantar de variados tamanhos.

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Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura
Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura
Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura
Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura
Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura
Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura
Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura
Fayga Ostrower, Políptico do Itamaraty (1968): xilogravura

 

Aos visitantes é dado conhecer boa parte dessa estrutura, apenas com o cuidado para não usar flashes e pedindo-se o favor de não pisar nos tapetes persas. Nosso guia chama a atenção para as mobílias, que algumas delas pertenceram à Princesa Isabel, outras tantas ao Barão do Rio Branco, e se mostra obsequioso ao dar tempo para selfies mil.

E depois de percorrido o tour oficial – aí sim – entra a exposição de Fayga Ostrower, valendo como faixa bônus após meia hora de visita. A porta que dá acesso à mostra temporária intitulada Entre Cores e Transparências faz com que o visitante se depare imediatamente com o Políptico do Itamaraty, a principal contribuição de Fayga ao acervo do Ministério das Relações Exteriores. Mas outras tantas gravuras em madeira ou pedra também fazem parte da coleção.

Olhando ao redor, o visitante se dá conta de que à Fayga coube um cantinho modesto do Itamaraty. Sua mostra, a rigor, está montada num corredor – um tanto amplo, pois foi feito dentro da escala Niemeyer para palácios – mas de toda forma, um corredor de serviço, que volta e meia é atravessado por garçons e copeiros, secretárias e funcionários tentando dar conta de suas incumbências.

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Xilogravura e litografias de Fayga Ostrower no Itamaraty
Manhã, do álbum Caminhos (1974): serigrafia
Dia, do álbum Caminhos (1974): serigrafia
8103 (1981): litografia
Litografia sem título (1980)
Litografia sem título (1980)
8024 (1981): litografia
Exposição de Fayga Ostrower no Itamaraty

 

Não obstante, eis a comprovação do tino de Wladimir Murtinho e da transcendência de Fayga Ostrower. Que sua poética se mostre viva e saltitante, mesmo meio século após a encomenda do embaixador. Mesmo aqui, neste momento, um tanto eclipsada depois de o visitante passar meia hora percorrendo salões e reencontrando obras canônicas, de Jean-Baptiste Debret a Pedro Américo, de Cândido Portinari a Alfredo Volpi.

Também cabe Fayga Ostrower no cânone pátrio, como não? Basta seguir com os olhos o Políptico do Itamaraty, feito em matriz de madeira, mesmo material de um Oswaldo Goeldi (em cartaz na Caixa Cultural neste exato momento), para se perceber a manha muito particular de Fayga com as nuances de cor, emprestando ritmo, emprestando movimento, como um deslizar de superfícies, uma paisagem a se revelar. Talvez a monumentalidade, aqui, se passe atrás dos olhos do observador.

O mesmo Políptico do Itamaraty, cabe lembrar, esteve em cartaz há três anos no Museu Nacional Honestino Guimarães, subindo a Esplanada. Na ocasião, o conjunto fez parte de uma curadoria de Bené Fonteles. A vizinhança com obras de Luiz Sacilotto e Rubem Valentim apenas reforçando a singularidade de Fayga Ostrower.

Palácio do Itamaraty, manhã de quarta-feira

Desta vez, apresentada aqui no Palácio Itamaraty como epílogo para um trajeto histórico-institucional que percorre a civilização brasileira, a obra de Fayga Ostrower ajuda a entender, mais uma vez, o papel da arte na criação de uma nação.