Mostra coletiva do Elefante promove um giro pela artes brasilienses

Exposição faz um passeio pela produção de Brasília por meio de obras em diferentes formatos

No primeiro fim de semana deste mês de março, a cena das artes visuais do Distrito Federal recebeu a primeira edição do projeto BSB Plano das Artes, agitando ateliês, galerias independentes e tantos outros espaços com as mais diferentes propostas. Cinara Barbosa, diretora artística do Elefante Centro Cultural, tocou essa produção enquanto levantava uma mostra coletiva dentro de sua própria casa.

A Você Mostrarei é a exposição que Cinara montou no Elefante justamente a tempo do BSB Planos das Artes. Mas que, apenas neste sábado (17/3), recebe a abertura propriamente dita. Ela entende a ocasião como o início do calendário 2018 de exposições do Elefante, uma vez que, durante os dois primeiros meses do ano, a casa da W3 Norte serviu mais como QG para o Plano das Artes.

A intenção de Cinara, como curadora, foi materializar nas peças reunidas para essa mostra o espírito do próprio Elefante. E, claro:  “Quem faz este espaço são as pessoas”, ela define, apontando na lista de envolvidos tanto colaboradores frequentes quanto novos contatos que espera serem estreitados daqui para frente. Em comum, nas obras a serem percorridas durante a visitação, Cinara enxerga um certo desvendar do artista diante de seu lugar no mundo, uma atenção com o que está ao redor.

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Sutura de Concreto (2017), de Adriana Vignoli: concreto, tubo de latão, tubo látex, pedra de calçada lapidada e vidraria
Sutura de Concreto (2017), de Adriana Vignoli: concreto, tubo de latão, tubo látex, pedra de calçada lapidada e vidraria
Sutura de Concreto (2017), de Adriana Vignoli: concreto, tubo de latão, tubo látex, pedra de calçada lapidada e vidraria
Sutura de Concreto (2017), de Adriana Vignoli: concreto, tubo de latão, tubo látex, pedra de calçada lapidada e vidraria
Sutura de Concreto (2017), de Adriana Vignoli: concreto, tubo de latão, tubo látex, pedra de calçada lapidada e vidraria
Sutura de Concreto (2017), de Adriana Vignoli: concreto, tubo de latão, tubo látex, pedra de calçada lapidada e vidraria

 

Adriana Vignoli já apresentara no Elefante sua mostra individual Vãos – Ensaios para uma Utopia Mutável no final de 2016, sob curadoria de Manuel Neves. E a parceria se estendeu para além de Brasília, quando Adriana teve Cinara como curadora em recente exposição individual na Zipper Galeria, em São Paulo.

Essa peça que agora está instalada no Elefante é uma releitura da versão apresentada na casa paulistana. Trata-se também de uma espécie de retorno. Por questões próprias da relação da obra com o espaço arquitetônico, da primeira vez que foi montada, na Zipper, Adriana e Cinara tiveram de abrir mão do reservatório de água, um elemento feito de vidro previsto no croqui da artista. Mas, agora, o desenho original pôde ser mantido.

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Obras de Débora Passos: fios de cabelo sobre algodão, fios de seda sobre algodão, fios de cabelo e de poliamida, poliéster metalizado
Obras de Débora Passos: fios de cabelo sobre algodão, fios de seda sobre algodão, fios de cabelo e de poliamida, poliéster metalizado
Obras de Débora Passos: fios de cabelo sobre algodão, fios de seda sobre algodão, fios de cabelo e de poliamida, poliéster metalizado
Obras de Débora Passos: fios de cabelo sobre algodão, fios de seda sobre algodão, fios de cabelo e de poliamida, poliéster metalizado
Obras de Débora Passos: fios de cabelo sobre algodão, fios de seda sobre algodão, fios de cabelo e de poliamida, poliéster metalizado
Obras de Débora Passos: fios de cabelo sobre algodão, fios de seda sobre algodão, fios de cabelo e de poliamida, poliéster metalizado

 

Cruzando a sala térrea do Elefante, na parede oposta à ocupada pela instalação de Adriana Vignoli, o visitante encontra uma série de obras de Débora Passos que, ao olhar mais imediato, podem parecer desenhos. Num segundo momento, no entanto, aquelas molduras se revelam bastidores de bordado e sua tela, um tecido mui esticado. As linhas da obra de Débora são constituídas, entre outros materiais, por fios de cabelo da mãe da artista.

Cinara Barbosa conta que já vem acompanhando as pesquisas da artista em bordado há algum tempo. Esse contato pessoal aumentou nas últimas semanas pelo fato de Débora ser também arte-educadora e ter participado, dentro do programa educativo, da produção do BSB Plano das Artes.

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Obra da série Riscos, de Marconi Moreira: madeira de embarcação
Obra da série Riscos, de Marconi Moreira: madeira de embarcação
Obra da série Riscos, de Marconi Moreira: madeira de embarcação
Obra da série Riscos, de Marconi Moreira: madeira de embarcação
Obra da série Riscos, de Marconi Moreira: madeira de embarcação
Obra da série Riscos, de Marconi Moreira: madeira de embarcação

 

Marcone Moreira é um contato mais recente de Cinara Barbosa. O artista nasceu no Maranhão, porém teve grande parte de sua trajetória artística desenvolvida em Marabá, sudeste do Pará. Foi ali que encontrou sua poética. A cidade está plantada justamente no encontro dos rios Tocantins e Itacaiúnas. A paisagem fluvial e suas peculiaridades vêm irrigando a obra de Marcone desde a década de 1990.

Mesmo morando atualmente em Belo Horizonte, Marcone Moreira segue fazendo obras como essa da série Riscos, em que se apropria da madeira de embarcações para aplicar sobre o objeto uma sorte de intervenções físicas. Trabalha assim tanto questões pictóricas quanto materiais, aproximando-se de certas tendências da pintura contemporânea ao mesmo tempo em que desperta a temática da memória e da autobiografia.

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Olha a Cobra, de Antônio Obá (2018): óleo e acrílica sobre lona de algodão
Olha a Cobra, de Antônio Obá (2018): óleo e acrílica sobre lona de algodão
Olha a Cobra, de Antônio Obá (2018): óleo e acrílica sobre lona de algodão
Olha a Cobra, de Antônio Obá (2018): óleo e acrílica sobre lona de algodão
Olha a Cobra, de Antônio Obá (2018): óleo e acrílica sobre lona de algodão
Olha a Cobra, de Antônio Obá (2018): óleo e acrílica sobre lona de algodão

 

Um tanto de autobiografia também informa a obra de Antônio Obá, um habitué do Elefante Centro Cultural. Foi no segundo andar da casa, vale lembrar, que o artista de Ceilândia fez a mais famosa apresentação de sua emblemática performance Atos da Transfiguração em 2015. Depois disso, chegou à final do Prêmio Pipa e participou da exposição Queermuseu, em Porto Alegre.

Obá está de volta ao segundo andar do Elefante. Desta vez, representado por um desenho da série Estripulia. Tanto nessa composição quanto naquela performance, na qual, de corpo nu, ele ralava uma imagem de gesso de Nossa Senhora Aparecida até ficar todo coberto de pó branco, o artista trata de uma pesquisa bem específica. “Ele está na missão de repensar o negro no Brasil, não manter o embranquecimento a que foi imposto, entender a linhagem católica presente na família e na obra dele”, elabora Cinara.

Outros desenhos de Antônio Obá também podem ser vistos dentro da mostra Contraponto, que teve sua temporada estendida até 25 de março no Museu Nacional Honestino Guimarães.

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Ensaios sobre a Curva números 2 e 8 (2017), de João Trevisan: ferro e parafusos de ferro
Ensaios sobre a Curva números 2 e 8 (2017), de João Trevisan: ferro e parafusos de ferro
Ensaios sobre a Curva números 2 e 8 (2017), de João Trevisan: ferro e parafusos de ferro
Ensaios sobre a Curva números 2 e 8 (2017), de João Trevisan: ferro e parafusos de ferro
Ensaios sobre a Curva números 2 e 8 (2017), de João Trevisan: ferro e parafusos de ferro
Ensaios sobre a Curva números 2 e 8 (2017), de João Trevisan: ferro e parafusos de ferro

 

João Trevisan primeiro se fez notar, no cenário brasiliense, com trabalhos de desenho lá em meados de 2015. Um par de anos mais tarde, apresentou mostra individual na galeria XXX Arte Contemporânea em que seus desenhos e pinturas já conviviam com obras tridimensionais.

Aqui, ele empresta movimento à visitação com duas obras da série Ensaios sobre a Curva. Feitas a partir de prosaicos parafusos de ferro, as duas peças foram deitadas diretamente sobre o chão e parecem repetir certas estruturas próprias de desenho – pontos e linhas sobre planos – a se oferecerem num montar e desmontar.

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Obra de Camila Antunes: óleo sobre tela
Obra de Camila Antunes: óleo sobre tela
Obra de Camila Antunes: óleo sobre tela
Obra de Camila Antunes: óleo sobre tela
Obra de Camila Antunes: óleo sobre tela
Obra de Camila Antunes: óleo sobre tela

 

Camila Antunes também parece estar a montar e desmontar. Sua larga pintura, 150cm por 190cm, ocupa uma parede inteira e se abre aos olhos até mesmo do mais desatento visitante logo que sobe as escadas do Elefante. As figuras na tela, no entanto, não se desvendam assim tão de pronto, não.

Aluna do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, Camila Antunes nem se formou ainda e já está entrando nos radares das artes visuais brasilienses. Na seleta feita por Cinara Barbosa, Camila representa a novíssima geração, dentro de uma mostra que reencontra artistas em diferentes momentos de suas trajetórias, como Gustavo Silvamaral, Moisés Crivelaro, Iris Helena e Matias Mesquita.

Nascido e criado no Rio de Janeiro, o pintor Matias Mesquita vive e trabalha em Brasília desde 2013. Aqui na cidade encontrou, pelo menos, dois abrigos. Um deles é o próprio Elefante Centro Cultural, espaço que dirige ao lado de Cinara Barbosa e onde mantém seu ateliê permanente. O outro é o céu imenso que paira sobre nossas cabeças, de onde ele vem capturando nuvens fugidias para recriá-las sobre concreto.

Obra de Matias Mesquita (2018): óleo sobre concreto