A poética de Luciana Ferreira entre a palavra e o vazio

Artista plástica está em cartaz na galeria deCurators (412 Norte), com a mostra Objetos-poema

Quando gosta muito de um livro, Luciana Ferreira compra um segundo exemplar. Um deles, ela guardará e estimará. Ao outro pode acontecer toda uma sorte de experiências. Periga ser rasurado, escavado, rasgado, cortado ao meio para que se transforme em outra coisa, outro objeto.

Como se percebe em Objetos-poema, a mostra de Luciana Ferreira ora em cartaz na deCurators (412 Norte). A exposição toma parte do ciclo Curare, promovido por Gisel Carriconde Azevedo em sua pequenina galeria ao longo desta temporada 2018.

Luciana desenvolveu a exposição em parceria com a curadora Graça Ramos. As duas nunca tinham trabalhado juntas, pertencem a gerações diferentes e desenvolvem carreiras paralelas na cena brasiliense das artes visuais. Era justamente esta a ideia de Gisel: testar uma colaboração inédita.

Depois de dois ou três encontros, realizados em cafés e padarias, Graça e Luciana tinham claro para si algumas afinidades em ambas as trajetórias e uns tantos interesses em comum. Também tinham esboçado referências de leituras para pensarem juntas a exposição e – principalmente – já sabiam o que fazer com a vitrine da deCurators.

Como sói acontecer, tudo se desenrola a partir da vitrine da lojinha, voltada para a quadra residencial. Ali os trabalhos permanecem em constante diálogo com o mundo ao redor, com as pessoas que passam pelos fundos da comercial e pela calçada ao longo dos blocos residenciais. Dia e noite.

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Leitura (2018), instalação
Leitura (2018), instalação
Leitura (2018), instalação
Leitura (2018), instalação
Leitura (2018), instalação
Leitura (2018), instalação

Luciana Ferreira conta que, meses antes, havia localizado uma única palavrinha no ventre de um poema do francês Francis Ponge (1899-1988). A palavra era: espaço. Ela pode ser encontrada no meio de uma página do livro A Mesa (1981), edição nacional pela Iluminuras (2002). Obra que seu autor levou sete anos lapidando. Obra que trata justamente do embate cotidiano de um poeta com as palavras. Espaço.

Luciana comprou, claro, um segundo exemplar de A Mesa. Abriu na página anterior àquela em que tinha lido “espaço”. Armada com uma pinça de sobrancelha, tal qual um cinzel na mão do escultor, Luciana se pôs a filmar-se cavucando a folha em branco até atravessá-la com o objeto pontiagudo – para do outro lado revelar a palavra que já sabia estar ali – espaço.

Esse vídeo, chamado simplesmente Leitura, foi acolhido por Graça Ramos como o início da aventura na deCurators. De modo que, logo na entrada da pequena galeria, podemos começar a cavoucar uma sobreposição de camadas. Uma palavra que está dentro de um poema, que está impresso numa página, que está num livro, que está num vídeo, que está num monitor, que está num ambiente branco, que está dentro de uma vitrine, que está iluminada.

“A obra de Luciana tem a ver com a construção de um espaço”, acredita Graça Ramos. “Como construir um espaço e como habitar um espaço.”

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Quase notas para quase pensamentos (2018), díptico
Quase notas para quase pensamentos (2018), díptico
Desenho escrito (2010)
Desenho escrito (2010)
Um poema/ Outro poema/ Mais um poema (2018)
Um poema/ Outro poema/ Mais um poema (2018)

Graça Ramos conta que Luciana é psicóloga e cumpriu mestrado em filosofia antes de chegar ao atual doutoramento em artes visuais na Universidade de Brasília. Enquanto ela própria, Graça, vem do jornalismo, da literatura e da história da arte. São duas carreiras que têm interesses mui amplos, passando pela imagem e pela palavra – e também pelo espaço.

Luciana é filha de Marcílio Mendes Ferreira (1936-2011), arquiteto de larga trajetória em Brasília. Os primeiros livros a prenderem a atenção dela, ainda garota, estavam justamente na biblioteca do pai, volumes de arquitetura, de autores como o mexicano Luiz Barragán (1902-1988).

Foi pensando em Barragán e em Marcílio, pensando também no filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), autor da conferência Construir, Habitar e Pensar (1951), que Luciana e Graça transformaram o vídeo de Leitura nessa instalação erguida na vitrine, em que o monitor parece flutuar no ar, numa dinâmica entre construção e de vazio que as levou da calçada do bloco comercial para o lado dentro da galeria. Dinâmica que, elas acreditam, está em cada uma das peças.

Adentrar deCurators seria como passar para o interior de uma câmara escura, na comparação feita por Graça Ramos. Para atingir o rigor expográfico pretendido, a curadora quis contratar um arquiteto. Luciana apareceu com uma solução caseira, Renan Monteiro, seu sobrinho que seguiu a carreira do avô. Os três trabalharam tanto na vitrine quanto na câmara escura.

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Um poema (2018)
Um poema (2018)
Outro poema (2018)
Outro poema (2018)
Mais um poema (2018)
Mais um poema (2018)

Dentro da deCurators, o binônimo que se apresenta no vídeo da vitrine (espaço e palavra) ganha forma em “objetos-poema” que buscam preencher de sentidos a noção de vazio. Cada uma das peças partindo, explica Luciana, de segundos exemplares de livros que se tornaram mui caros a ela.

Na parede ao fundo da sala, um poema de Gertrude Stein (1874-1946) se abre num díptico, sendo que a segunda folha é a tradução de Augusto de Campos. Mas Luciana apagou sob finas camadas de gesso quase todas as letras e os sinais gráficos, salvo as pontuações e as últimas letras antes das pontuações – no caso do original, ficaram na página apenas “g”s – revelando a carpintaria da poeta americana.

Um poema de e.e. cummings (1894-1962), arrancado da encadernação num golpe só, agora faz parte de uma série de três pequenas esculturas de papel (Um poema) ao lado dos resíduos pinçados daquele volume de Francis Ponge (Outro poema) e de um texto de John Cage guilhotinado ao meio (Mais um poema).

Nenhuma dessas intervenções é gratuita, garantem Graça e Luciana. Uma vez que todos esses textos já cotejavam a ideia do vazio que interessa a ela, Luciana. Gertrude Stein, nesse poema escolhido (Um retrato de um – Harry Phelan Gibb), postulava que “algum um sabendo que tudo é saber que algum um é alguma coisa”. E cummings, não outro, foi um dos primeiros poetas a testar a força expressiva da mancha gráfica no papel, ou seja, a espacialidade do texto preto sobre a página branca.

“Busco um diálogo bem próximo com cada um desses autores”, explica Luciana Ferreira. “Trabalhando com esses autores que radicalizavam a linguagem, crio espaços para revelar as poéticas deles e, ao mesmo tempo, permitir que agora cada pessoa diante desses objetos possa preenchê-los à sua maneira.”

Fechando a exposição, como a amarrar essa noção de espaço/palavra/vazio, está um desenho de Luciana Ferreira, em nanquim sobre papel, feito em 2010 e encontrado por Graça Ramos em tempo para este Objetos-poema. No desenho, Luciana propõe uma caligrafia que pode ser entendida tanto linha de desenho quanto signo de linguagem. Como palavras de alfabeto ainda a ser descoberto.