Dólar cai e Bolsa anda de lado com falas de Haddad e ameaças de Trump

Entrevista de Fernando Haddad, ameaças tarifárias de Donald Trump contra países europeus e novas eleições no Japão movimentaram o mercado

atualizado

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Notas de dólares empilhadas umas sobre as outras - Metrópoles
1 de 1 Notas de dólares empilhadas umas sobre as outras - Metrópoles - Foto: Getty Images

Em uma sessão marcada por forte volatilidade nos mercados, o dólar fechou em leve baixa, nesta segunda-feira (19/1), próximo da estabilidade, em um dia de baixa liquidez em função de um feriado nos Estados Unidos.

Neste início de semana, os investidores repercutiram as declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), em entrevista ao UOL, na qual ele deixou em aberto a definição sobre uma eventual candidatura nas eleições de outubro.

No front externo, o mercado continuou reagindo às novas ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor tarifas comerciais contra países da Europa que não o apoiem na tentativa de “comprar” a Groenlândia – região autônoma que pertence ao Reino da Dinamarca.


Dólar

  • Ao final da sessão, a moeda norte-americana recuou 0,16%, negociada a R$ 5,364, praticamente estável.
  • Na cotação máxima do dia, o dólar bateu R$ 5,382. A mínima foi de R$ 5,346.
  • Na sessão da última sexta-feira (16/1), o dólar fechou em alta de 0,08%, cotado a R$ 5,373.
  • Com o resultado, a moeda dos EUA acumula perdas de 2,28% frente ao real em 2026.

Ibovespa

  • O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores do Brasil (B3), também encerrou o pregão perto da estabilidade.
  • Na primeira sessão da semana, o indicador fechou em alta de 0,03%, aos 164,8 mil pontos.
  • No último pregão, na sexta-feira, o Ibovespa fechou em baixa de 0,46%, aos 164,7 mil pontos.
  • Com o resultado, a Bolsa brasileira acumula valorização de 2,35% no ano.

Haddad fala sobre eleição, críticas ao governo e Banco Master

No cenário doméstico, o principal destaque desta segunda-feira foi a entrevista concedida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao UOL.

Nas últimas semanas, o chefe da equipe econômica confirmou que deve deixar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) até o fim de janeiro. A intenção de Haddad, inicialmente, seria participar da elaboração do programa de governo de Lula na campanha à reeleição, mas as pressões do PT e do próprio presidente da República para que ele seja candidato em outubro podem fazê-lo mudar os planos.

“Eu disse em todas as ocasiões que não pretendia me candidatar em 2026. Isso vale para qualquer cargo. Comecei uma conversa com o presidente Lula, com quem tenho uma relação pessoal que transborda a questão política. Tenho ouvido o presidente Lula”, disse Haddad, mencionando uma conversa que teve na semana passada com o chefe do Executivo federal.

“Eu levei à consideração dele essas minhas colocações. É uma conversa de amigos, de companheiros, que pode se estender um pouco mais. Nós não concluímos nada nessa primeira conversa. Ele está colocando os pontos dele e eu estou colocando os meus. Vamos chegar a um consenso logo mais”, despistou o ainda ministro da Fazenda.

Questionado sobre o que teria o levado a decidir deixar o Ministério da Fazenda, Haddad citou “questões pessoais”. “Eu vou completar 10 anos à frente de ministérios. Fiquei quase sete anos à frente do Ministério da Educação e já mais de três no Ministério da Fazenda. Eu adorei todas as experiências pelas quais passei, mas não estou pensando nisso agora”, afirmou.

“Estou querendo um tempo para discutir um pouco o país e um projeto de país. Estava querendo esse tempo para mergulhar um pouco nessas temáticas”, explicou Haddad.

Apesar da resistência em disputar um cargo nas eleições de outubro, o nome de Haddad é especulado como possível candidato do PT ao Senado por São Paulo – haverá duas vagas no Senado em disputa no pleito deste ano. Haddad também é cotado como potencial candidato ao governo do estado, cargo que já disputou em 2022, quando chegou ao segundo turno, mas foi derrotado pelo atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Na entrevista, Haddad aproveitou para rebater as críticas de setores da Faria Lima e do mercado financeiro relacionadas ao suposto descontrole fiscal da atual gestão. Ele assegurou que o governo Lula mantém o compromisso com a responsabilidade fiscal e o equilíbrio das contas públicas e aproveitou para comparar a situação atual da economia com o período do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“Está faltando um pouco de honestidade com números. Uma coisa é a sua percepção, sua ideologia e sua visão de mundo, e outra coisa é número. Colocando tudo na conta, o Bolsonaro mandou um Orçamento para 2023 com R$ 64 bilhões de déficit, desconsiderando duas despesas por conta de emendas constitucionais. Ele aumentou o Bolsa Família de R$ 400 para R$ 600. Só que ele não colocou no Orçamento essa diferença”, criticou Haddad. “E a PEC dos Precatórios era uma PEC do Calote, permitindo pagar só em 2027. Essa PEC foi considerada inconstitucional pelo Supremo”, prosseguiu o ministro.

Segundo Haddad, “o déficit projetado para 2023, do Bolsonaro, dividido pelo PIB do ano, é superior a 1,6% do PIB”. “Esta é a conta. Quanto foi o déficit do ano passado: 0,48% do PIB, considerando todas as exceções. Nós reduzirmos, em dois anos, o déficit primário em 70%”, afirmou o ministro da Fazenda.

Haddad disse ainda que “a meta de resultado primário para este ano é ainda mais exigente do que a do ano passado, do retrasado e do primeiro ano de governo”. “Estamos subindo o sarrafo das exigências”, afirmou o ministro.

Falando em tom de balanço de seus três anos à frente do Ministério da Fazenda, Fernando Haddad disse estar “muito convencido” de que o plano que apresentou a Lula ainda em 2022, antes do início do governo, “foi entregue”. “Não mudei a rota. Tive derrotas e vitórias? Sim. Você não vai ganhar tudo no Congresso, no Judiciário e na Casa Civil. Mas o que eu entreguei é muito próximo daquilo que eu imaginava ser possível”, concluiu.

Em meio ao avanço das investigações sobre supostas irregularidades envolvendo o Banco Master, Haddad defendeu que o Banco Central (BC) tenha suas atribuições de fiscalização ampliadas para que possa se debruçar sobre fundos de investimento.

Atualmente, a tarefa de fiscalizar os fundos é da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Segundo Haddad, a proposta de ampliação do escopo de monitoramento e fiscalização da autoridade monetária vem sendo debatida pelo governo federal.

“O BC tem de ampliar o seu perímetro regulatório e passar a investigar os fundos. Isso tem impacto até sobre a contabilidade pública. O fato de que os fundos estão fora do perímetro regulatório do BC deveria ser superado com uma nova regulação”, afirmou Haddad.

Para o ministro da Fazenda, que deixou claro que falava por si e não em nome do governo sobre o assunto, “essa dimensão da fiscalização e da regulação poderia ser ampliada por parte do BC”. “Porque aí fica tudo sendo supervisionado e regulado em um lugar só”, explicou.

Segundo Haddad, o tema está sendo discutido pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, e pelo Ministério da Gestão e Inovação (MGI). A proposta surge em um momento no qual há uma série de suspeitas sobre a possível utilização de fundos de investimento para a prática de crimes financeiros.

Em agosto do ano passado, a Receita Federal deflagrou a Operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do crime organizado na economia formal. Muitos fundos de investimentos foram usados para ocultar patrimônio, segundo os investidores.

No âmbito do caso envolvendo o Master, em janeiro deste ano, as investigações apontaram para a suposta utilização de fundos destinados a “inflar”, de forma artificial, os ativos do banco.

Segundo o ministro da Fazenda, o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, “herdou um problema” que teve origem na gestão anterior da autoridade monetária, sob comando de Roberto Campos Neto.

“Ele [Galípolo] herdou um problema que é o Banco Master, todo ele constituído na gestão anterior. O Galípolo descascou o abacaxi com a responsabilidade de ter, ao final do processo, um processo robusto para justificar as decisões duras que teve de tomar. Mas isso foi uma herança. Ele herdou um grande abacaxi, na minha opinião, resolvendo com grande competência”, disse Haddad.

Para o ministro, o caso “tem de ser apurado” com rigor pelas autoridades e órgãos competentes. “Eu faço avaliação, mas quem tem de apurar responsabilidade não é o ministro da Fazenda. Mas que o Galípolo herdou esses problemas, herdou”, afirmou Haddad.

O ministro da Fazenda também descartou qualquer possibilidade de que as supostas fraudes no Master contaminem o sistema financeiro como um todo.

“Eu sou presidente do CMN (Conselho Monetário Nacional) e digo para você que não existe nenhum risco sistêmico envolvendo o Banco Master. O que existe é cobrir o rombo pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que foi criado para essas eventualidades. Ele vai cobrir e já começou a pagar os detentores de CDBs do Master, de maneira que aquilo que a lei prevê está absolutamente coberto. É um valor muito substancial e as pessoas precisam saber para onde foi esse dinheiro”, disse.

“O que ele fez com esse dinheiro? Por que não está no caixa para ele devolver? Está tudo sendo investigado pela polícia e pelo MP. Mas não é algo pequeno”, completou Haddad.

Trump volta a ameaçar a Europa

Os principais índices das bolsas de valores da Europa começaram a semana operando no vermelho, refletindo o estado de alerta dos investidores após novas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o bloco.

No fim de semana, Trump anunciou o objetivo de impor tarifas progressivas crescentes contra oito países europeus a partir de fevereiro.

A medida é uma nova forma de represália contra essas nações para que elas autorizem o líder norte-americano a comprar a Groenlândia, uma região autônoma que pertence ao Reino da Dinamarca.

Em sua rede social, a Truth Social, Trump afirmou que tarifas adicionais de 10% sobre importações passariam a vigorar em 1º de fevereiro sobre produtos provenientes da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Grã-Bretanha. Essas sobretaxas aumentariam para 25% em 1º de junho. Elas continuariam em vigor até que fosse alcançado um acordo para a “compra completa e total” da Groenlândia pelos EUA.

O presidente dos EUA afirmou sucessivas vezes nas últimas semanas que considera a ilha da Groenlândia vital para os EUA – seja pela localização estratégica da região ou por causa das grandes reservas minerais. Ele não descartou o uso da força para tomá-la.

O republicano disse que a soberania dinamarquesa sobre a região é “vulnerável” frente a supostas “ambições de Rússia e China no Ártico”. Trump ridicularizou a capacidade militar da ilha, ao dizer que sua defesa se limita a “dois trenós puxados por cães”.

O presidente norte-americano pretende, entre outras ambições, integrar a Groenlândia ao “Domo Dourado”, o sistema de defesa antimísseis de última geração dos EUA. “O projeto, que prevê investimentos de centenas de bilhões de dólares e a possível extensão da cobertura ao Canadá, só atingiria sua eficiência máxima com o controle territorial e estratégico da Groenlândia”, disse Trump.

O republicano alega ainda que os EUA tentam comprar a região há mais de 150 anos – consideradas propostas históricas de aquisição da ilha feitas em 1867 e 1946. Agora, arremata Trump, o momento exige uma “resolução definitiva” da questão.

Novas eleições no Japão

Outra notícia que movimentou os mercados nesta segunda-feira foi o anúncio da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, de que irá dissolver o Parlamento na sexta-feira (23/1), com o objetivo de convocar eleições antecipadas em 8 de fevereiro. Segundo ela, a medida será tomada para lhe garantir um mandato mais sólido.

“Na qualidade de primeira-ministra, decidi hoje dissolver a Câmara Baixa no dia 23 de janeiro”, disse Takaichi em coletiva de imprensa.

A premiê é a primeira mulher a chefiar o governo do país. Takaichi assumiu o cargo em outubro do ano passado, e, desde então, o gabinete mantém índices de aprovação próximos de 70%, segundo pesquisas recentes.

Takaichi é a quinta pessoa a ocupar o cargo de primeiro-ministro do Japão em cinco anos e chegou ao posto à frente de um governo inicialmente minoritário. Apesar da popularidade, o bloco governista tem uma maioria estreita na Câmara Baixa do Parlamento, o que tem dificultado o avanço de uma agenda política considerada ambiciosa por analistas.

O bloco governista obteve maioria na Câmara Baixa em novembro, após a adesão de três parlamentares ao partido da premiê. Na Câmara Alta, no entanto, a coalizão segue em minoria, o que reforça a aposta do governo em uma renovação do mandato popular.

Em meio à indefinição política no país, o índice Nikkei, da Bolsa de Valores de Tóquio, fechou o primeiro pregão da semana em queda de 0,65%, aos 53,5 mil pontos.

Análise

Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o dólar fechou praticamente estável frente ao real “em um ambiente de liquidez reduzida e baixa amplitude, em razão do feriado nos EUA, o que favoreceu movimentos técnicos no mercado de câmbio”.

“No cenário externo, a geopolítica foi um dos fatores de risco na sessão de hoje, com o aumento das tensões em torno da questão da Groenlândia e a ameaça de novas tarifas dos EUA à Europa. A retórica da Casa Branca afetou as bolsas europeias, que fecharam majoritariamente em queda”, observa.

Porém, aponta Shahini, “o movimento não se traduziu em busca por proteção na moeda norte-americana”. “O principal canal de transmissão de risco acabou sendo os metais preciosos, com alta do ouro e da prata, em um movimento de procura por ativos defensivos, dado o ambiente de baixa liquidez em que os mercados operaram hoje por conta do feriado nos EUA.”

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